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Análise Histórica e Teórica das Relações Internacionais Contemporâneas: Da Gênese do Concerto Europeu à Desintegração da Bipolaridade Soviética

3. As Relações Internacionais: Introdução e Escopo

A evolução das Relações Internacionais como prática e disciplina acadêmica reflete a busca incessante dos Estados por segurança, prosperidade e hegemonia em um ambiente global anárquico. Este relatório propõe uma análise exaustiva da história diplomática e política desde o Congresso de Viena até o colapso da União Soviética, examinando não apenas a sucessão factual dos eventos, mas as forças tectônicas profundas — econômicas, ideológicas e sistêmicas — que moldaram a ordem mundial contemporânea.

3.1 Modelos e Interpretações Teóricas

A historiografia diplomática é interpretada através de lentes teóricas que priorizam diferentes variáveis. A compreensão dos eventos entre 1815 e 1991 exige o domínio das principais correntes:

O Realismo: Poder e Anarquia
Ferramenta analítica dominante. Premissa: O sistema é anárquico e os Estados buscam sobrevivência via acumulação de poder.

  • Realismo Clássico (Carr, Morgenthau): Política é luta pelo poder enraizada na natureza humana. Normas morais são instrumentos das potências satisfeitas (“haves”).
  • Neorrealismo/Estrutural (Waltz): A análise foca na estrutura do sistema (distribuição de capacidades). A bipolaridade da Guerra Fria seria mais estável que a multipolaridade por reduzir erros de cálculo.

O Liberalismo: Instituições e Interdependência

  • Idealismo Wilsoniano: A “mão invisível” do comércio e a segurança coletiva (Liga das Nações) superam a anarquia.
  • Neoliberalismo Institucional (Keohane, Nye): Regimes internacionais reduzem custos de transação e incerteza. Em “Interdependência Complexa”, o uso da força torna-se custoso, priorizando o soft power.

O Construtivismo e Teorias Críticas
Argumenta que a anarquia “é o que os Estados fazem dela” (Wendt). Identidades e ameaças são construções sociais, não dados fixos.

A Teoria do Sistema-Mundo (Wallerstein)
Analisa a história como a evolução de uma economia-mundo capitalista com divisão axial de trabalho: Centro, Semiperiferia e Periferia. Eventos diplomáticos são mecanismos de transferência de excedente.

3.2 O Concerto Europeu e sua Crise (1815-1918)

O Congresso de Viena (1815), sob a liderança de Metternich, estabeleceu o Concerto Europeu baseado no equilíbrio de poder e legitimidade dinástica para conter o liberalismo. O sistema colapsou inicialmente na Guerra da Crimeia (1853-1856), isolando a Áustria.

A Realpolitik e os Sistemas de Bismarck (1871-1890)
Após a Unificação Alemã, Bismarck criou uma teia diplomática para evitar o “pesadelo das coalizões” e isolar a França:

Sistemas de Alianças Bismarckianos
Sistema / Aliança Membros Objetivo Estratégico e Mecanismo
Liga dos Três Imperadores
(1873, renov. 1881)
Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia Unir monarquias conservadoras. A renovação de 1881 estipulava neutralidade caso um membro entrasse em guerra com uma quarta potência.
Aliança Dual
(1879)
Alemanha, Áustria-Hungria Pilar central. Aliança defensiva contra a Rússia. Garantia a sobrevivência austríaca, prendendo Viena a Berlim.
Tríplice Aliança
(1882)
Alemanha, Áustria-Hungria, Itália Isolava a França no sul. Itália aderiu por rivalidade colonial (Tunísia). Auxílio mútuo contra ataque francês.
Entente do Mediterrâneo
(1887)
Reino Unido, Itália, Áustria Incentivada por Bismarck para conter a expansão russa no Oriente Próximo, mantendo o status quo.
Tratado de Resseguro
(1887)
Alemanha, Rússia Obra-prima da duplicidade. Secreto. Neutralidade mútua, exceto se Alemanha atacasse França ou Rússia atacasse Áustria.

A não renovação do Tratado de Resseguro em 1890 empurrou a Rússia para a França, criando a bipolaridade rígida pré-1914.

3.3 As Rivalidades Coloniais

A Conferência de Berlim (1884-1885): Estabeleceu o princípio da “ocupação efetiva”, acelerando a partilha da África e validando a extração de recursos para o centro europeu.

  • Incidente de Fashoda (1898): Clímax da rivalidade anglo-francesa. A retirada francesa permitiu a futura Entente Cordiale.
  • Crises Marroquinas (1905/1911): Tentativas alemãs de testar a Entente fracassaram, fortalecendo a aliança entre Londres e Paris.

3.4 a 3.6 Da Primeira Guerra à Paz de Versalhes

Causas da Guerra: Sistema de alianças rígido, imperialismo econômico (Lenin), nacionalismo e o “culto da ofensiva”. A diplomacia secreta (Tratado de Londres, 1915) prometeu territórios à Itália, gerando problemas futuros.

Os 14 Pontos de Wilson (1918): Propunha diplomacia aberta, liberdade dos mares, autodeterminação e a Liga das Nações.

O Tratado de Versalhes (1919): Um compromisso insatisfatório.

  • Cláusula de Culpa (Art. 231): Base para reparações astronômicas.
  • Mutilação Territorial: Alemanha perdeu 13% do território; Corredor Polonês separou a Prússia Oriental.
  • Questão Chinesa: Concessões em Shandong dadas ao Japão, ferindo a autodeterminação.

3.7 A Liga das Nações

Sediada em Genebra, sofria de deficiências congênitas: regra da unanimidade no Conselho e ausência de atores chave (EUA nunca entraram; URSS tardia; saídas de Alemanha e Japão). O Brasil retirou-se em 1926 após ter o assento permanente negado.

Fracassos Críticos: Invasão da Manchúria (1931) pelo Japão e da Etiópia (1935) pela Itália. As sanções ineficazes decretaram a morte política da Liga.

3.9 As Conferências de Cúpula e a Nova Ordem

A diplomacia de guerra desenhou a Guerra Fria:

  • Teerã (1943): Decisão sobre o Dia D e esboço das fronteiras polonesas a oeste.
  • Ialta (1945): Stalin negociava com força. Divisão da Alemanha em zonas. Stalin garante veto na ONU. Questão Polonesa resolvida com governo de “unidade” (fachada).
  • Potsdam (1945): Clima de desconfiança (Truman com a bomba). Confirmação da fronteira Oder-Neisse e os “4 Ds” para a Alemanha.
  • São Francisco (1945): Fundação da ONU. O Conselho de Segurança com veto reconheceu a necessidade do concerto das grandes potências.

3.10 Bretton Woods e o Plano Marshall

Bretton Woods (1944): Criou o FMI e o BIRD. Estabeleceu o Dólar como moeda de reserva conversível em ouro ($35/onça), garantindo hegemonia econômica dos EUA (“privilégio exorbitante”). O sistema ruiu em 1971 com o “Choque Nixon” (fim da conversibilidade).

Plano Marshall (1947): Ajuda massiva para reconstrução europeia com lógica geopolítica (conter comunismo na Europa Ocidental) e econômica (criar mercados). Rejeitado pela URSS.

3.13 A Guerra Fria: Bipolaridade e Contenção

Doutrina da Contenção (George Kennan): Argumentava que a hostilidade soviética era intrínseca ao regime, mas recuaria diante da “lógica da força”. A Doutrina Truman (1947) globalizou esse compromisso.

Conflitos Localizados (Guerras por Procuração):

  • Coreia (1950-53): Primeiro teste militar. Consolidou a militarização da OTAN (NSC-68).
  • Suez (1956): A humilhação anglo-francesa provou o fim da autonomia das potências europeias frente às superpotências.
  • Vietnã: Originado na recusa americana em assinar os acordos de Genebra (1954).

[Image of map NATO vs Warsaw Pact Cold War Europe]

3.15 Da Détente ao Colapso Soviético

Détente (Anos 70): Relaxamento das tensões. Acordos SALT (controle de armas) e Tratado ABM (estabilidade via vulnerabilidade mútua). Os Acordos de Helsinki (1975) legitimaram fronteiras, mas a “cesta” de Direitos Humanos fortaleceu dissidentes no leste.

Segunda Guerra Fria (Reagan): Estratégia de confronto direto e corrida tecnológica (SDI/”Guerra nas Estrelas”), pressionando a economia soviética estagnada.

O Fim do Império (Gorbachev): As reformas (Perestroika/Glasnost) e a “Doutrina Sinatra” (fim da intervenção militar nos satélites) levaram ao “Outono das Nações” em 1989 (Queda do Muro de Berlim) e à dissolução da URSS em 1991.

[Image of map dissolution of Soviet Union 1991]