A Doutrina Multipolar Russa e as Relações Estratégicas com o Brasil: Análise Geopolítica da Parceria e da Vulnerabilidade
I. Introdução Executiva e Enquadramento Teórico
1.1. Contextualização Geoestratégica Global e o Eixo BRICS
A dinâmica da política externa da Federação Russa e suas relações bilaterais com o Brasil devem ser analisadas sob o prisma da contestação à ordem unipolar estabelecida após o fim da Guerra Fria. Para Moscou, a parceria estratégica com Brasília representa um vetor crucial na articulação de uma arquitetura global multipolar, princípio fundamental de sua estratégia de longo prazo. Essa relação é inerentemente assimétrica, mas mutuamente instrumental para ambos os países no contexto da redefinição das esferas de influência e da busca por autonomia estratégica.
O agrupamento BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com a recente expansão) funciona como a principal plataforma de alinhamento político e econômico, com o Brasil e a Rússia compartilhando o interesse em promover reformas na governança financeira e política global. Este esforço multilateral visa estabelecer um novo paradigma de financiamento para nações emergentes, notadamente através do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu como um marco na cooperação entre países emergentes. O BRICS é visto por seus membros como uma união geopolítica voltada a confrontar o unilateralismo das potências ocidentais.
[Image of world map illustrating the BRICS members Brazil, Russia, India, China, and South Africa highlighted, emphasizing the global economic shift]
A tensão fundamental que define a parceria Brasil-Rússia reside no dilema entre Soberania e Vulnerabilidade. Enquanto o Brasil utiliza a Rússia como um contrapeso geoestratégico, buscando ativamente a transferência de tecnologia de autonomia em setores sensíveis (nuclear e espacial) [3], paga o preço da hiperdependência em setores de segurança alimentar, principalmente fertilizantes, que expõem o país a riscos de coerção externa e sanções secundárias [5]. A análise detalhada da relação revela que, embora a convergência política em fóruns multilaterais seja evidente, a assimetria bilateral impõe custos estratégicos consideráveis a Brasília.
1.2. Metodologia e Estrutura Analítica
Para desvendar a complexidade desta parceria, a metodologia empregada recorre a quadros teóricos dualísticos. O Realismo Estrutural é utilizado para interpretar a busca russa por status geopolítico e a lógica do poder subjacente à Doutrina Primakov, que visa a recolocação da Rússia como polo indispensável no cenário mundial. Complementarmente, a teoria da Interdependência Complexa é aplicada para mapear as vulnerabilidades setoriais e os custos de transação na relação bilateral.
Observa-se que a parceria, apesar dos desafios institucionais (como o fracasso na cooperação militar [10]), tem sido mantida devido a um imperativo estratégico brasileiro de longo prazo: a obtenção de autonomia tecnológica em áreas críticas, como a nuclear e a espacial, que somente parceiros como a Rússia estão dispostos a fornecer [3]. Esta busca por uma via de desenvolvimento tecnológico alternativa, que permite ao Brasil negociar a estrutura de poder global, leva o país a absorver riscos diplomáticos, como a crítica explícita dos Estados Unidos à sua postura sobre a Guerra na Ucrânia [11]. A decisão brasileira de prosseguir com uma parceria de alto risco demonstra que a obtenção de tecnologia para a soberania é um objetivo político prioritário, atuando como o principal motor da relação.
II. Os Pilares Doutrinários da Política Externa Russa (Pós-1991)
A política externa russa pós-soviética é caracterizada por uma evolução pragmática e resiliente, cujo objetivo central é restaurar a Rússia como um polo de poder inquestionável em um mundo multipolar. Essa visão estratégica é codificada em doutrinas interligadas, que guiam a ação de Moscou, desde o mais alto nível diplomático até as táticas de guerra híbrida.
2.1. A Doutrina Primakov (1996): O Imperativo Multipolar
A Doutrina Primakov, nomeada em homenagem ao ex-Ministro das Relações Exteriores e Primeiro-Ministro Yevgeny Primakov, representa a guinada estratégica da Rússia após a fase inicial de subordinação ocidental no início dos anos 90. O princípio fundamental desta doutrina é a rejeição explícita de um mundo unipolar dominado pelos Estados Unidos.
Primakov postulou que a Rússia deveria empenhar-se na construção de um mundo multipolar, gerenciado por um “concerto de grandes potências” capaz de contrabalançar o poder unilateral norte-americano. O conceito central estabelece que a Federação Russa deve ser um polo de poder indispensável e que a Organização das Nações Unidas (ONU) deve ser fortalecida para se colocar efetivamente acima de todo e qualquer país. O sucesso desta visão é notório, pois a doutrina de Primakov foi vitoriosa no sentido de recolocar o país numa posição de destaque no cenário político internacional.
Geopoliticamente, a doutrina insiste na primazia russa no espaço pós-soviético, liderando a integração regional, e mantém uma forte oposição à expansão da OTAN. A busca por alianças estratégicas é um corolário direto; a formação da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), estabelecendo uma parceria estratégica com a China, é considerada uma culminação da visão multipolar de Primakov. Embora a Rússia ainda enfrente fragilidades estruturais no plano econômico em comparação com seu principal parceiro estratégico, a China [8], a prioridade dada ao status geopolítico em detrimento de uma recuperação econômica completa confirma que os objetivos de Primakov são ideologicamente rígidos e servem como a base conceitual da política de Vladimir Putin.
2.2. Doutrina Gerasimov: O Conceito Operacional da Confrontação
Em contraste com a Doutrina Primakov, que define a visão de mundo e os objetivos estratégicos de Moscou, a Doutrina Gerasimov (2013), nomeada em homenagem ao Chefe do Estado-Maior Geral Valery Gerasimov, é um conceito operacional desenvolvido para a confrontação em curso com o Ocidente. Ela serve como o manual tático para a execução dos objetivos multipolares de Primakov, especialmente no contexto de competição estratégica.
Essa estratégia é notoriamente associada à guerra híbrida e enfatiza a superioridade de informações. A doutrina postula um “conjunto de ações indiretas” que caracterizam o “novo tipo de guerra” e indica que a proporção entre medidas não-militares e militares na guerra futura seria de quatro para uma. Isto significa que a influência, a desinformação, as ferramentas econômicas e a coerção política são os vetores primários de ação estratégica, com a força militar permanecendo sempre no background para dissuasão. A Doutrina Gerasimov, portanto, é a ferramenta pela qual a Rússia busca atingir seus objetivos estratégicos de Primakov, gerenciando o risco e evitando a aplicação direta de hard power quando os custos são excessivos.
2.3. Soft Power e o Cultivo da Identidade Global
A projeção de poder russo se manifesta também através da diplomacia cultural, uma importante ferramenta de soft power para difundir sua cultura e seus valores, e os do BRICS, em um esforço para influenciar a percepção internacional e desafiar a hegemonia cultural ocidental.
A diplomacia cultural russa busca uma projeção sintética de sua identidade, que glorifica a profundidade intelectual e a força militar. Um exemplo notório foi a cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, onde grandes escritores clássicos russos, como Fiódor Dostoiévski e Anton Pavlovitch Tchekhov, foram homenageados ao lado de símbolos de poderio militar, como o fuzil Kalashnikov. Esta combinação cultural-militar visa legitimar a assertividade russa através de sua rica tradição histórica. Canais de mídia como a Sputnik Brasil atuam como plataformas diretas de influência, difundindo conteúdo e entrevistando especialistas que analisam como a diplomacia cultural é usada para modificar a ordem cultural global.
III. A Trajetória Histórica e a Construção da Parceria Estratégica Bilateral
3.1. O Legado de Desconfiança: Ruptura e Recuos
As relações diplomáticas entre o Brasil e a Rússia (então União Soviética) têm uma história marcada por longos períodos de distanciamento, inicialmente geográfico no século XIX e, predominantemente, ideológico no século XX.
O período pós-Segunda Guerra Mundial foi de particular tensão. O Brasil, sob a influência da crescente Guerra Fria e do realinhamento com os Estados Unidos no governo Dutra [17], rompeu formalmente as relações diplomáticas com a União Soviética em 1947 [18]. Embora o rompimento tenha sido justificado pelo fechamento do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pela crescente polarização ideológica, a análise dos registros da época sugere a existência de motivações geopolíticas mais profundas e relacionadas à segurança estratégica nacional.
O período de 1947 a 1949 foi marcado por debates internos no Brasil sobre o controle de recursos minerais estratégicos. Sob a influência do almirante Álvaro Alberto, tramitou no Congresso Nacional um projeto que visava vedar a exportação de monazita in natura, um insumo estratégico para a produção de tório, material passível de fissão nuclear [19]. O rompimento com a URSS ocorreu no contexto da consolidação desta agenda de segurança de recursos. A desconfiança mútua não era meramente ideológica, mas incluía preocupações de segurança estratégica em torno do controle de tecnologia e matérias-primas críticas. As relações só foram reatadas em 1961.
3.2. Consolidação da Aliança Estratégica (Pós-2005)
O novo século marcou a aproximação decisiva entre os dois países [16], culminando na formalização da Declaração de Aliança Estratégica em 2005, que foi reconsolidada em 2017 [20].
O diálogo político bilateral é robusto. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 3 de outubro de 1828 (185 anos completados em 2013) e foram intensificadas nos anos recentes. O presidente Vladimir Putin visitou o Brasil em 2014 para participar da VI Cúpula BRICS, e a presidente Dilma Rousseff visitou a Rússia em 2012. Posteriormente, em 2017, o presidente Michel Temer realizou uma visita oficial à Rússia [21].
Para a política externa russa, a parceria com o Brasil possui um significado geopolítico particular. O Brasil é visto como um parceiro estratégico fundamental, funcionando como a “porta de entrada” russa para a América Latina. Essa parceria auxilia Moscou em seu processo de expansão geopolítica regional [20], alinhando-se diretamente aos objetivos da Doutrina Primakov de consolidar polos de poder fora da esfera de influência ocidental. A cooperação abrange áreas vitais como economia e finanças, energia, defesa, ciência e tecnologia, agricultura, cultura, educação e esporte [21].
IV. A Coordenação Diplomática e as Tensões na Governança Global
4.1. BRICS: O Eixo do Financiamento Global e a Geopolítica da Expansão
O BRICS não é apenas uma plataforma de cooperação econômica, mas um instrumento de política externa para contestar o unilateralismo [2]. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) é o marco institucional mais significativo dessa cooperação, promovendo o uso de moedas locais e financiamento para o desenvolvimento sustentável, conforme enfatizado pelo Presidente Lula [1].
No entanto, as divergências internas sobre a expansão do bloco revelam as tensões geopolíticas. Em um contexto de sanções ocidentais à Rússia, Moscou busca utilizar o BRICS para desafiar a ordem internacional, promovendo a inclusão de países que foram excluídos pela ordem internacional estabelecida [22]. Exemplo disso é a questão da adesão da Venezuela. O presidente Nicolás Maduro, buscando uma reaproximação com a comunidade internacional e a reestruturação econômica, fez uma visita surpresa a Kazan e recebeu o apoio explícito de Vladimir Putin para a entrada no bloco. No entanto, o veto à adesão da Venezuela foi considerado inesperado pelo país sul-americano, expondo a divergência entre a postura brasileira, que geralmente prioriza a estabilidade regional e o consenso, e o foco russo em usar o bloco para fins de confronto geopolítico e superação de sanções [22].
4.2. Padrões de Voto na ONU: A Aliança de Não-Intervenção
A coordenação diplomática entre a Rússia e o Brasil, embora não formalmente alinhada em todos os aspectos, converge significativamente na defesa do princípio da não-intervenção, em consonância com os pilares da Doutrina Primakov.
A Rússia e a China demonstram uma atuação em bloco no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) para vetar resoluções que pudessem legitimar intervenções ocidentais. Um marco dessa atuação conjunta ocorreu na Guerra Civil da Síria [23]. A Rússia, defendendo que o conflito deveria ser resolvido internamente pelo governo sírio, se opôs firmemente a qualquer interferência externa que condenasse o regime de Bashar al-Assad [24]. Em outubro de 2011, uma proposta de resolução no CSNU que condenava a violência e as violações dos direitos humanos na Síria foi derrotada pelos vetos da Rússia e da China [23].
Neste contexto, o Brasil, que ocupava uma cadeira não-permanente, desempenhou um papel funcionalmente convergente com Moscou e Pequim ao se abster da votação em 2011 [26]. A então embaixadora brasileira, Maria Luiza Ribeiro Viotti, justificou a abstenção afirmando que o texto da resolução necessitava de mais tempo de reflexão. A abstenção brasileira, ao lado da Índia e da África do Sul, foi interpretada como uma rejeição implícita à “fórmula líbia” de intervenção militar patrocinada pela OTAN [25].
4.3. O Desafio da Guerra na Ucrânia: A “Neutralidade” Questionada
A postura brasileira em relação à Guerra da Ucrânia, iniciada em 2022, é o exemplo mais recente da política de não-alinhamento ativo que, na prática, beneficia os interesses geopolíticos russos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs, em 2023, formar um “Clube da Paz” composto por países neutros no conflito, com o objetivo de costurar um Acordo de Paz [27]. Lula também gerou controvérsia ao afirmar que tanto a Ucrânia quanto a Rússia eram responsáveis pela guerra e que os EUA e a União Europeia ajudaram a prolongar o conflito [11].
Essa postura foi alvo de críticas diretas dos Estados Unidos. A Secretária de Imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, declarou que o tom do Brasil “não é de neutralidade” e que o governo brasileiro “erra” ao sugerir que as potências ocidentais estimulam o prolongamento da guerra [11].
A política externa brasileira, ao adotar a narrativa de co-responsabilidade e buscar a mediação sem aderir às sanções ocidentais ou fornecer apoio militar à Ucrânia (tendo recusado a venda de armas) [27], oferece um importante soft leverage diplomático à Rússia. Este posicionamento mitiga a pressão internacional sobre Moscou e valida a visão russa de que a crise é um produto da expansão ocidental, alinhando-se perfeitamente aos objetivos da Doutrina Primakov de contestar a primazia unilateral.
V. Análise Setorial Estratégica: Economia, Defesa e Tecnologia
A relação bilateral é caracterizada por uma profunda assimetria de pauta comercial e, ao mesmo tempo, por uma cooperação de alto nível em setores estratégicos de infraestrutura e soberania.
5.1. Relações Econômico-Comerciais: A Hiperdependência em Insumos Críticos
O intercâmbio comercial entre Brasil e Rússia é marcado pela dependência brasileira de insumos vitais para o agronegócio, enquanto a Rússia obtém acesso garantido a produtos agrícolas.
No acumulado de Janeiro a Novembro de 2025, o Brasil registrou um aumento de 7,9% nas importações, totalizando US$ 249,37 bilhões [28]. Este crescimento na importação é impulsionado, em parte, pela necessidade contínua de insumos, como adubos e fertilizantes, devido ao crescimento da produção agrícola e da demanda interna aquecida [29].
A vulnerabilidade brasileira reside na concentração do fornecimento de Fertilizantes (NPK). O país importa 95% do Nitrogênio, 91% do Potássio e 75% do Fosfato consumidos [7]. A Rússia e a Bielorrússia dominam o mercado global de Potássio [7]. A Rússia é o principal fornecedor, responsável por mais de um terço do insumo agrícola utilizado em estados chave como São Paulo (35,9%) e Minas Gerais (33,1%) [6]. A guerra na Ucrânia, em 2022, resultou diretamente na elevação do preço desses insumos no mercado internacional [30].
A dependência russa deixa o agronegócio brasileiro, que sustenta grande parte do saldo da balança comercial, exposto ao risco de coerção externa. O Brasil pode ser alvo de taxações secundárias por parte dos Estados Unidos, como ocorreu com a Índia devido à compra de petróleo russo, sob a alegação de contribuir para a manutenção da guerra [7].
Em contraste com a massiva importação de insumos, o valor das exportações brasileiras para a Rússia é relativamente baixo, evidenciando a assimetria da pauta. Nos primeiros três meses de 2025, o Brasil exportou US$ 338,7 milhões para a Rússia [31], um valor modesto em comparação com o total importado pelo agronegócio.
A dimensão da vulnerabilidade do Brasil é ilustrada na Tabela V.1:
| Tabela V.1: Vulnerabilidade Brasileira na Importação de Fertilizantes (NPK) e Fontes | |||
|---|---|---|---|
| Insumo Crítico (NPK) | Percentual Importado pelo Brasil | Concentração de Mercado | Dependência Estratégica |
| Nitrogênio (N) | 95% [7] | Produção exige gás natural barato (Rússia, EUA, Catar) [7] | Alto |
| Fosfato (P) | 75% [7] | Reservas nacionais de baixa qualidade [7] | Alto (Supply Chain) |
| Potássio (K) | 91% [7] | Concentrado em Canadá, Rússia, Bielorrússia [7] | Crítica |
| Dependência Localizada (SP e MG) | >33% do volume total de insumos [6] | Rússia [6] | Localizada e Crítica |
5.2. O Paradoxo Institucional na Cooperação em Defesa
A cooperação em defesa, embora formalmente prevista na aliança estratégica, tem enfrentado obstáculos institucionais significativos. Em 2013, as negociações foram iniciadas para a aquisição brasileira dos sistemas antiaéreos Pantsir-S1 e dos mísseis portáteis Igla, com a promessa russa de transferência de tecnologia (TT) e a instalação de uma fábrica no Brasil [32].
No entanto, o Brasil acabou abandonando as negociações para a aquisição do Pantsir-S1 [33]. A decisão de descontinuação, tomada pelo Comando da Aeronáutica, foi fundamentada na avaliação de que as especificações do Pantsir-S1 (com perímetro de defesa de até 30 km) não respondiam às verdadeiras necessidades da Defesa Aérea Brasileira, que exigia parâmetros mais ambiciosos, como os do sistema S-300 (com alcance de até 300 km) [34]. A Força Aérea Brasileira (FAB) buscou um salto qualitativo que garantisse a proteção de área (e não apenas defesa de ponto), mesmo que isso implicasse a aquisição sem a total transferência de tecnologia [34].
O insucesso desta iniciativa demonstra uma tensão inerente à política de defesa brasileira. Apesar de a Rússia ter sido a única a oferecer transferência de tecnologia integral [34], o projeto foi rejeitado. Essa falha sugere que a prioridade da capacidade operacional imediata (necessidade de alcance do S-300) sobre a soberania tecnológica (oferta de TT do Pantsir-S1) persiste nas Forças Armadas Brasileiras. Estudos indicam que a cooperação foi limitada, além de fatores políticos e econômicos, pela priorização histórica brasileira na aquisição de armamentos ocidentais [10]. A persistência dessa socialização militar com modelos ocidentais restringe a autonomia nacional e impede o pleno desenvolvimento da parceria russa neste setor.
5.3. Cooperação Tecnológica de Alto Nível: O Sucesso em Setores Civis
Em setores não-militares, a cooperação tecnológica entre Brasil e Rússia tem demonstrado robustez e sucesso, particularmente onde a liderança é exercida por agências civis e científicas.
5.3.1. Programa Nuclear Civil
A parceria no setor nuclear avançou significativamente em 2025, com acordos firmados durante a visita oficial do presidente Lula a Moscou em maio. A cooperação com a Rosatom, a Corporação Estatal Russa de Energia Nuclear, é estratégica [4]. Os memorandos preveem a construção de reatores nucleares modulares no Brasil, pesquisas em segurança energética, ciclo do combustível, gestão de resíduos radioativos, e apoio na mineração e enriquecimento de urânio através da empresa Tenex [4]. A Rússia é vista como uma referência mundial em tecnologias de reaproveitamento nuclear.
Essa cooperação é considerada vital para o desenvolvimento de capacidade industrial em um setor geopoliticamente relevante, como o programa nuclear brasileiro [35]. A Rosatom atua como parceira na expansão da capacidade nuclear civil brasileira (Angra 3), reforçando o objetivo do Brasil de alcançar a soberania energética.
5.3.2. Cooperação Espacial
A parceria espacial é de longa data, remontando a 1988, quando o Brasil e a então União Soviética assinaram um protocolo de cooperação [36]. Após o trágico acidente do Veículo Lançador de Satélites (VLS-1) na base de Alcântara em 2003, a Rússia desempenhou um papel crucial, auxiliando na revisão crítica do lançador brasileiro [3].
Em 2006, foi assinado o Acordo de Proteção Mútua de Tecnologias, marcando um novo estágio na cooperação para o desenvolvimento de um novo lançador, substituindo o estágio de propulsão sólida por propulsão líquida, uma área na qual o Brasil buscou especialização russa [3].
Adicionalmente, em 2017, a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Corporação Estatal Russa de Atividades Espaciais (Roscosmos) instalaram uma estação russa de monitoramento de detritos espaciais em Itajubá (MG) [36]. Esta estação integra o Sistema Eletro-Óptico Panorâmico para Detecção de Detritos Espaciais (PanEOS), crucial para a mitigação de riscos em órbita, demonstrando a confiança mútua e a coordenação em segurança espacial.
A distinção setorial na cooperação é clara: a robustez da parceria nuclear e espacial [3] contrasta com a fragilidade na defesa [34]. Isso sugere que a Rússia consegue transferir tecnologia com sucesso em setores controlados por agências civis onde o Itamaraty e os setores científicos lideram, alinhando-se ao objetivo de Primakov de projetar poder através de parcerias tecnológicas sem enfrentar as barreiras institucionais e a concorrência de lobby que dominam o setor militar brasileiro.
VI. Conclusões e Análise de Impacto (Policy Implications)
6.1. Síntese dos Vetores da Parceria Rússia-Brasil
A análise da política externa russa e suas relações com o Brasil revela uma parceria complexa, sustentada por uma convergência geopolítica na busca por um mundo multipolar (Doutrina Primakov), mas limitada por assimetrias estruturais e culturais.
O balanço estratégico demonstra que o Brasil obtém um parceiro P5 (Rússia) que valida sua ambição de liderança do Sul Global e que fornece apoio técnico especializado em tecnologias de soberania (nuclear, espacial). No entanto, o custo estratégico fundamental reside na hiperdependência econômica em insumos agrícolas críticos (NPK), o que confere à Rússia uma alavancagem suave (soft leverage) sobre a política externa brasileira. A vulnerabilidade do agronegócio funciona como um seguro indireto para a Rússia, garantindo a moderação e a neutralidade ativa brasileira em crises como a da Ucrânia, pois o Brasil precisa garantir o fluxo ininterrupto de fertilizantes, essenciais para a segurança alimentar e o saldo da balança comercial [7].
A política externa russa utiliza o Brasil como um pilar de sua estratégia de contestação à ordem unilateral, mas a capacidade do Brasil de traduzir a oferta de transferência de tecnologia russa em autonomia é setorialmente restrita. O sucesso ocorre em áreas civis de alta tecnologia, enquanto a cooperação falha em setores militares devido à persistência de padrões institucionais de aquisição orientados para o Ocidente.
6.2. Recomendações Estratégicas para Brasília
Com base na análise das tensões e convergências, o Brasil deve adotar um conjunto de ações políticas e econômicas para mitigar vulnerabilidades e maximizar a autonomia relativa:
6.2.1. Estratégia de Mitigação de Insumos (Fertilizantes)
O Brasil precisa transformar sua dependência russa em um impulso para a soberania agrícola. É crucial lançar um programa de diversificação acelerada e investimento maciço na produção nacional de Potássio e Nitrogênio, aproveitando a cooperação com a Rosatom, particularmente em mineração e processamento de recursos nucleares e minerais [4]. A política deve focar em reduzir a vulnerabilidade do agronegócio para que o Brasil possa exercer uma política externa genuinamente neutra e evitar o risco de taxações secundárias impostas por terceiros países em retaliação ao comércio com a Rússia [7].
6.2.2. Consolidação da Soberania Tecnológica
A parceria com a Rússia deve ser capitalizada onde já demonstrou eficácia. É essencial priorizar o financiamento e a expansão dos projetos com a Rosatom (construção de reatores modulares e domínio do ciclo do combustível) e o fortalecimento da Agência Espacial Brasileira (AEB), focando no desenvolvimento do propulsor líquido para o VLS [3]. O sucesso da TT ocorre onde a resistência institucional é menor, o que exige que Brasília mantenha o foco em canais de cooperação civil.
6.2.3. Revisão da Doutrina de Defesa
O Brasil deve realizar uma revisão estratégica que pondere o valor intrínseco da autonomia tecnológica, mesmo que em equipamentos de capacidade operacional inicialmente inferior (como o Pantsir-S1), contra a capacidade operacional imediata de sistemas ocidentais ou russos avançados (como o S-300) [10]. A oferta russa de transferência de tecnologia deve ser utilizada como ferramenta de negociação para exigir termos semelhantes de outros fornecedores globais, visando romper a dependência histórica dos modelos ocidentais [10] e aumentar a base tecnológica da indústria de defesa nacional. A sustentabilidade da aliança estratégica com a Rússia, no longo prazo, dependerá da capacidade do Brasil de converter a dependência econômica em autonomia tecnológica.