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Argentina: Política Externa e Relações com o Brasil — Evolução Histórica, Parceria Estratégica e Dinâmicas Contemporâneas

Introdução: A Centralidade do Eixo Brasília-Buenos Aires na Geopolítica Sul-Americana

A relação bilateral entre a República Federativa do Brasil e a República Argentina constitui o eixo estruturante da arquitetura geopolítica da América do Sul. Para o analista de política externa e, fundamentalmente, para o candidato ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), a compreensão deste binômio transcende a mera análise de vizinhança contígua; trata-se de um estudo de caso sobre como uma rivalidade sistêmica secular foi transmutada, através de engenharia diplomática sofisticada, vontade política e imperativos econômicos, em uma Aliança Estratégica que hoje abrange desde a integração nuclear e defesa até cadeias produtivas industriais complexas e segurança energética.

O presente relatório propõe uma exegese exaustiva da trajetória das relações Brasília-Buenos Aires. A análise parte da superação das desconfianças geopolíticas na Bacia do Prata, consolidadas pelo histórico Acordo Tripartite de 1979, atravessa a construção da confiança mútua durante a redemocratização com a Declaração do Iguaçu, e culmina nos desafios contemporâneos impostos pelas divergências ideológicas entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei (2024-2025). Serão examinados em minúcia os mecanismos de cooperação nuclear (ABACC), a integração energética via Vaca Muerta, e as profundas transformações no regime de comércio exterior argentino com a extinção do sistema SIRA e a implementação do regime liberal em 2025.

A tese central que permeia este documento é a da “resiliência institucional”: apesar das oscilações pendulares nos governos de ambos os países, que transitam entre o nacional-estatismo e o liberalismo radical, a infraestrutura de cooperação bilateral atingiu um grau de maturidade e interdependência tal que impõe limites pragmáticos até mesmo às retóricas mais disruptivas.

1. A Gênese e a Superação da Rivalidade: Do Século XIX ao Acordo Tripartite (1820-1979)

A historiografia das relações internacionais no Cone Sul é frequentemente periodizada em duas grandes eras: a fase de rivalidade hegemônica e a fase de cooperação e integração. A transição entre esses dois paradigmas não foi linear, mas fruto de cálculos geopolíticos realistas e da convergência de interesses de segurança nacional.

1.1. O Paradigma da Rivalidade Platina e a Doutrina dos Estados-Tampão

Durante o século XIX e a maior parte do século XX, a lógica do “equilíbrio de poder” (balance of power) regeu as interações entre as duas nações. Desde a Guerra da Cisplatina (1825-1828), que resultou na independência do Uruguai como um Estado-tampão, até as disputas por influência no Paraguai e na Bolívia, Brasil e Argentina percebiam-se mutuamente como a principal ameaça à sua segurança e integridade territorial.

No imaginário geopolítico argentino, o Brasil — monárquico e escravocrata no XIX, e expansionista no XX — representava uma barreira à reconstituição, ainda que informal, da grandeza do Vice-Reinado do Rio da Prata. A doutrina geopolítica brasileira, por sua vez, via na Argentina o principal desafio no flanco sul, temendo o cerco por uma aliança hispânica. Essa percepção moldou a infraestrutura de ambos os países; as ferrovias, por exemplo, foram construídas com bitolas diferentes, em parte para dificultar uma eventual invasão militar rápida.

A rivalidade estendeu-se à era nuclear nas décadas de 1970 e 1980. Ambos os regimes militares desenvolveram programas nucleares autônomos e recusaram-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), considerado discriminatório por congelar o poder mundial. Isso gerou temores internacionais de uma corrida armamentista na América do Sul, onde a “bomba atômica” seria o equalizador de poder definitivo.

1.2. O Precursor Esquecido: O Encontro de Uruguaiana (1961)

Embora a rivalidade fosse a tônica, houve tentativas seminais de aproximação. O encontro histórico de Uruguaiana, em 1961, entre os presidentes Jânio Quadros e Arturo Frondizi, representa um precursor crucial da diplomacia de integração. Na ocasião, foi assinado o Convênio de Amizade e Consulta, que estabelecia um sistema de troca de informações e coordenação política.

Do ângulo da Política Externa Independente (PEI) do período Quadros-Goulart, a aproximação com a Argentina visava criar um polo de poder sul-americano capaz de negociar com mais autonomia frente aos Estados Unidos e no sistema internacional. Contudo, a instabilidade doméstica em ambos os países — que culminou em golpes militares — abortou essa iniciativa embrionária, devolvendo a relação ao congelamento da desconfiança mútua.

1.3. O Ponto de Inflexão Estratégico: O Acordo Tripartite de 1979

Para fins de análise diplomática, o marco zero da mudança estrutural de paradigma reside na resolução do contencioso hidroelétrico na Bacia do Prata. A decisão do Brasil de construir a Usina Hidrelétrica de Itaipu em parceria com o Paraguai (Tratado de Itaipu, 1973) gerou protestos veementes da Argentina. Buenos Aires alegava que a obra, pela sua magnitude, alteraria o regime de águas do Rio Paraná, inviabilizando seus próprios projetos a jusante, especificamente a projetada represa de Corpus.

A disputa diplomática foi intensa e perpassou a maior parte da década de 1970. A resolução veio com o Acordo Tripartite Itaipu-Corpus, assinado em 19 de outubro de 1979 por Brasil, Argentina e Paraguai. Este acordo técnico é, na verdade, o documento político mais importante do período militar, pois removeu o principal irritante geopolítico da relação bilateral.

Os Termos Técnicos e seu Significado Político:

O Acordo Tripartite estabeleceu parâmetros rígidos de engenharia que permitiram a coexistência dos projetos:

  • Nível Operacional de Corpus: Foi fixado que a barragem de Corpus, a ser construída pela Argentina e Paraguai, teria um nível máximo de 105 metros acima do nível do mar.
  • Operação de Itaipu: O acordo garantiu que Itaipu poderia operar com 18 turbinas (unidades turbo-geradoras de 700 MW cada) sem que o remanso de Corpus prejudicasse sua queda d’água e, consequentemente, sua eficiência energética.
  • Gestão de Vazão: Estabeleceram-se regras para a variação do nível do rio, garantindo a navegabilidade e a segurança ecológica.

A importância deste acordo não pode ser subestimada. Como destaca a literatura especializada, a resolução técnica de 1979 foi a conditio sine qua non para a integração posterior. Sem resolver a disputa sobre os recursos hídricos da Bacia do Prata — um jogo de soma zero onde o ganho de um era visto como perda do outro —, qualquer conversa sobre mercado comum ou integração nuclear teria sido inviável. O sucesso da negociação, conduzida pelo Chanceler Saraiva Guerreiro, permitiu que a diplomacia brasileira e a argentina iniciassem um degelo (détente) que culminaria na aproximação dos governos civis.

2. A Diplomacia da Redemocratização e a Construção da Confiança (1985-1991)

Com o retorno da democracia — Raúl Alfonsín na Argentina (1983) e José Sarney no Brasil (1985) — a cooperação ganhou um novo componente axiológico e ideológico: a defesa das instituições democráticas como base para a paz regional. A percepção de ameaça mudou; o inimigo não era mais o vizinho, mas sim a instabilidade interna e o subdesenvolvimento econômico.

2.1. A Declaração do Iguaçu (1985): A Pedra Angular

Em 30 de novembro de 1985, os presidentes Sarney e Alfonsín encontraram-se na fronteira para inaugurar a Ponte Tancredo Neves e assinar a Declaração do Iguaçu. Este documento é considerado a certidão de nascimento do processo que levaria ao Mercosul.

Diferente de tratados comerciais frios, a Declaração do Iguaçu é carregada de simbolismo político. O texto afirma categoricamente que, para a América do Sul, a democracia deve significar “Paz, Liberdade e Justiça Social” e que o processo de democratização deve conduzir, inexoravelmente, à integração.

Mecanismos Criados: A declaração criou uma Comissão Mista de Alto Nível para estudar a integração econômica, que evoluiria rapidamente para o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE) em 1986. O PICE inovou ao propor uma integração setorial e progressiva, focada inicialmente em bens de capital e trigo, rompendo com o modelo de grandes acordos tarifários multilaterais da ALALC/ALADI que haviam falhado anteriormente.

2.2. A Cooperação Nuclear e a Criação da ABACC

Paralelamente à integração econômica, os governos civis precisavam neutralizar a desconfiança nuclear herdada dos militares. A estratégia adotada foi a da transparência e das visitas recíprocas. Em um gesto de confiança sem precedentes, Sarney visitou a usina secreta de enriquecimento de urânio de Pilcaniyeu (Argentina) em 1987, e Alfonsín visitou o centro experimental de Aramar (Brasil) em 1988.

Esse processo diplomático, conhecido como “Diplomacia Nuclear”, culminou na criação de uma arquitetura institucional única no mundo: a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC).

2.2.1. O Acordo de Guadalajara e o Acordo Quadripartite (1991)

A ABACC foi formalmente estabelecida pelo Acordo de Guadalajara, assinado em julho de 1991. No entanto, sua inserção no sistema internacional de não proliferação foi consolidada pelo Acordo Quadripartite, assinado em 13 de dezembro de 1991, envolvendo Brasil, Argentina, a ABACC e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Estrutura e Funcionamento da ABACC:

A ABACC opera sob um sistema de “vizinhos vigiando vizinhos” (neighbors watching neighbors), que garante a verificação mútua sem depender exclusivamente das potências nucleares tradicionais.

  • Inspeções Cruzadas: O mecanismo central baseia-se no fato de que inspetores argentinos verificam as instalações nucleares brasileiras e inspetores brasileiros verificam as argentinas. Isso assegura que o conhecimento técnico permaneça na região e cria uma barreira contra a dissimulação.
  • Independência e Financiamento: A agência possui independência institucional, financiada igualmente pelos dois países. Seus técnicos e equipamentos de medição são de última geração, permitindo auditorias precisas sobre o inventário de materiais físseis.
  • Relação com a AIEA: Pelo Acordo Quadripartite, a ABACC e a AIEA coordenam suas atividades para evitar duplicação desnecessária, mas mantêm a capacidade de chegar a conclusões independentes. A AIEA tem o direito de observar as inspeções da ABACC e realizar medições independentes, validando o sistema perante a comunidade internacional.

Esta arquitetura permitiu que Brasil e Argentina ratificassem o Tratado de Tlatelolco (proscrição de armas nucleares na América Latina) e, posteriormente, aderissem ao TNP, não como uma imposição externa, mas como um ato soberano de dois parceiros que confiaram um no outro.

3. A Cooperação Nuclear no Século XXI: Do Controle ao Desenvolvimento Conjunto

Se nas décadas de 1980 e 1990 o foco era o controle e a não proliferação, no século XXI a ênfase deslocou-se para o desenvolvimento tecnológico conjunto e a autonomia estratégica. A Comissão Binacional de Energia Nuclear (COBEN) tem sido o foro para revitalizar essa agenda.

3.1. O Projeto Estratégico RMB e RA-10

O símbolo máximo dessa nova fase é a construção coordenada de dois reatores de pesquisa multipropósito: o RA-10 na Argentina e o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro) no Brasil. Ambos os projetos baseiam-se na tecnologia do reator OPAL (Open Pool Australian Light-water reactor), desenvolvida pela estatal argentina INVAP.

Tabela 1: Comparativo e Sinergia dos Projetos Nucleares (RMB e RA-10)
Característica Reator RA-10 (Argentina) Reator RMB (Brasil)
Localização Centro Atômico Ezeiza (Buenos Aires) Iperó (São Paulo)
Tecnologia Base Reator OPAL (Austrália/INVAP) – 30 MWt Reator OPAL (Austrália/INVAP) – 30 MWt
Objetivo Principal Produção de Radioisótopos (Mo-99), Pesquisa de Materiais, Feixes de Nêutrons Autossuficiência em Radioisótopos (Mo-99), Teste de Combustível Nuclear, Pesquisa
Empresa Envolvida INVAP (Engenharia e Construção) INVAP (Parceria com CNEN/Amazul/Fundação Pátria)
Status (2025) Previsão de operação em 2025 Início das obras civis e contratos de engenharia detalhada assinados em 2025; operação prevista c. 2030/31
Impacto Estratégico Consolida Argentina como exportadora de tecnologia nuclear de ponta Garante soberania brasileira em medicina nuclear e insumos para o programa do submarino nuclear (Labgene)

Análise de Sinergia:

A cooperação aqui é profunda. O Brasil contratou a empresa argentina INVAP para desenvolver a engenharia básica e detalhada do RMB, num contrato de alto valor estratégico. Em 2025, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) do Brasil assinou um Memorando de Entendimento e contratos adicionais com a INVAP para acelerar a “unidade de processamento de radioisótopos” do RMB.

Insight de Segunda Ordem: A manutenção desses contratos sob o governo de Javier Milei — que ideologicamente prega o corte de gastos estatais e a privatização — demonstra que o setor nuclear é tratado como uma Política de Estado em ambos os países, blindado das oscilações partidárias. A interdependência tecnológica (o Brasil precisa do know-how da INVAP; a Argentina precisa dos contratos brasileiros para financiar sua indústria nuclear) cria uma âncora de estabilidade na relação.

4. A Nova Dinâmica Política: O Governo Milei e a Relação com o Brasil (2023-2025)

A ascensão de Javier Milei à presidência da Argentina em dezembro de 2023 introduziu uma variável de incerteza e tensão inédita nas relações bilaterais contemporâneas. Autodeclarado “anarcocapitalista” e alinhado automaticamente aos Estados Unidos e Israel, Milei rompeu retoricamente com a tradição diplomática de priorizar a relação com o Brasil, chegando a trocar insultos pessoais com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha.

4.1. O Pragmatismo Forçado e o Papel de Daniel Scioli

Apesar da retórica inflamada, a realidade da interdependência econômica impôs um “freio de arrumação” imediato. O Brasil continua sendo o maior parceiro comercial da Argentina e o principal destino de suas exportações industriais (especialmente automotivas), essenciais para a entrada de divisas em uma economia carente de dólares.

A peça-chave para a manutenção do diálogo foi a permanência de Daniel Scioli como embaixador da Argentina em Brasília. Scioli, um peronista histórico, ex-governador de Buenos Aires e ex-candidato à presidência, havia servido sob o governo de Alberto Fernández. Surpreendentemente, Milei o convidou para continuar no cargo, transformando-o no Secretário de Turismo, Ambiente e Esportes, e posteriormente mantendo sua influência na embaixada para gerir a relação crítica com o Brasil.

Scioli atuou como um “amortecedor” eficaz. Quando Milei chamou Lula de “corrupto” e “comunista”, Scioli foi à imprensa brasileira e ao Itamaraty para contextualizar as falas, reafirmando que “Lula não é corrupto” e que a relação de Estado estava acima das opiniões pessoais. Sua atuação garantiu que os canais diplomáticos, especialmente com o chanceler brasileiro Mauro Vieira, permanecessem abertos e operacionais para tratar de temas práticos como fronteiras e energia.

4.2. A Rejeição ao BRICS: Uma Divergência Geopolítica

Uma das rupturas mais significativas na política externa argentina sob Milei foi a recusa formal ao convite para integrar o grupo BRICS+ (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O Brasil havia investido capital político considerável para patrocinar a entrada da Argentina no bloco, vendo nisso uma forma de fortalecer a representatividade sul-americana e oferecer à Argentina acesso a fontes de financiamento alternativas (Novo Banco de Desenvolvimento).

No entanto, em dezembro de 2023, Milei oficializou a recusa, argumentando incompatibilidade ideológica com regimes não democráticos (China, Irã, Rússia) e uma preferência estrita por alianças com o “Ocidente liberal”.

Análise de Impacto: A decisão isolou o Brasil em sua estratégia de fortalecimento do BRICS na região. Contudo, o Itamaraty adotou uma postura de “paciência estratégica”, evitando retaliações públicas e mantendo o foco na agenda bilateral e regional sul-americana, como demonstrado no Consenso de Brasília de 2023, onde se buscou reativar o diálogo regional com foco em resultados concretos, a despeito das diferenças ideológicas.

4.3. A Agenda de Segurança: O Combate ao Crime Transnacional como Ponto de Convergência

Curiosamente, em meio às divergências, a agenda de segurança pública emergiu como um ponto de forte convergência pragmática. Em seus discursos nas Cúpulas do Mercosul de 2024 e 2025, Milei enfatizou a ameaça existencial do crime organizado transnacional. O presidente argentino citou explicitamente as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como ameaças que haviam se alastrado pelo continente, classificando o crime organizado como um “câncer” regional.

A Proposta da Agência Regional:

Milei propôs formalmente a criação de uma Agência do Mercosul contra o Crime Organizado Transnacional, inspirada em modelos como a Europol ou agências federais americanas. O objetivo seria compartilhar inteligência em tempo real, coordenar operações de fronteira e padronizar legislações penais para evitar que criminosos explorem as assimetrias legais entre os países.

Embora a proposta ainda careça de detalhamento técnico completo, ela ressoa profundamente com as preocupações do governo brasileiro sobre a segurança nas fronteiras e a rota do narcotráfico, criando uma agenda positiva onde ministros da Justiça e Segurança de ambos os lados podem cooperar intensamente, contornando a frieza das relações presidenciais.

5. Comércio e Economia: A Transição do Protecionismo para o Liberalismo (2023-2025)

O intercâmbio comercial, historicamente marcado pelo comércio administrado no setor automotivo e por barreiras não tarifárias recorrentes, atravessa em 2024-2025 uma fase de reestruturação profunda devido às reformas liberais de Milei (“Motosserra” e “Licuadora”).

5.1. O Fim do SIRA e a Revolução nos Regimes de Importação

Um dos maiores entraves ao comércio bilateral durante o governo de Alberto Fernández foi o Sistema de Importações da República Argentina (SIRA). Este sistema funcionava, na prática, como uma barreira não tarifária discricionária: o governo argentino utilizava a concessão de licenças de importação para controlar a saída de dólares do Banco Central. Isso gerou atrasos massivos nos pagamentos a exportadores brasileiros e uma dívida comercial bilionária.

A Transição para o Regime Liberal (2023-2025):

  • Extinção do SIRA e Criação do SEDI (Dez/2023): Logo após a posse, o governo Milei aboliu o SIRA e instituiu o Sistema Estatístico de Importações (SEDI). O objetivo inicial era eliminar a discricionariedade (a necessidade de “aprovação” política para importar) e apenas registrar estatisticamente as operações, visando desburocratizar o fluxo.
  • A Solução da Dívida (Bopreal): Para lidar com o estoque de dívida comercial herdada dos importadores (que afetava duramente empresas brasileiras), o Banco Central argentino criou os títulos Bopreal (Bonos para la Reconstrucción de una Argentina Libre), instrumentos em dólares oferecidos aos importadores para quitar débitos com fornecedores estrangeiros.
  • Extinção do SEDI e Liberalização Total (Fev/2025): Em um movimento audacioso em fevereiro de 2025, através da Resolução Geral Conjunta 5651/2025, o governo argentino revogou também o SEDI. Isso eliminou a necessidade de declarações juramentadas prévias para a grande maioria das importações.
  • Fim do “Cepo” Cambial (Abr/2025): Complementando a reforma comercial, em abril de 2025, a Argentina levantou a maioria dos controles de capital (“cepo cambiario”), permitindo que empresas e indivíduos acessassem dólares livremente para pagar importações.
Tabela 2: Evolução dos Sistemas de Importação na Argentina (2022-2025)
Sistema Período de Vigência Característica Principal Impacto no Comércio com o Brasil
SIRA (Sistema de Importações da Rep. Argentina) Out/2022 – Dez/2023 Licenças não automáticas; aprovação discricionária; controle rígido de câmbio. Queda nas exportações brasileiras; acúmulo de dívida comercial; imprevisibilidade total.
SEDI (Sistema Estatístico de Importações) Dez/2023 – Fev/2025 Registro estatístico; fim das licenças discricionárias; cronograma de pagamentos (30/60/90/120 dias). Retomada gradual da previsibilidade; início da regularização de pagamentos via Bopreal.
Regime Liberal (Pós-SEDI) Fev/2025 – Presente Liberdade de importação sem declaração prévia; fim do controle de capitais (cepo). Facilitação total do fluxo; exposição da indústria argentina à concorrência; recuperação das exportações brasileiras (+52% no 1º semestre de 2025).

Impacto para o Brasil:

A medida foi recebida com otimismo pela indústria brasileira (CNI e FIESP). A normalização dos pagamentos e a eliminação das barreiras burocráticas permitiram que as exportações brasileiras para a Argentina crescessem 52% nos primeiros cinco meses de 2025 em comparação ao ano anterior, gerando um superávit comercial para o Brasil. No entanto, a abertura abrupta da economia argentina também expõe seus produtores locais à competição, o que pode alterar a estrutura de longo prazo do comércio bilateral, historicamente pautado pela complementação industrial.

5.2. O Setor Automotivo e o Acordo de Olivos

Apesar da liberalização geral, o comércio automotivo — que representa a maior fatia do intercâmbio de manufaturados — permanece regido por acordos de complementação econômica que estabelecem um comércio administrado. O Acordo de Olivos (e seus protocolos subsequentes, como o 44º Protocolo Adicional ao ACE-14) define que o comércio de veículos e peças é livre de tarifas, desde que respeite uma proporção de importação/exportação, conhecida como coeficiente “flex”.

Em 2025, as discussões sobre a renovação e ampliação deste acordo continuam sendo centrais. O objetivo de longo prazo sempre foi o livre comércio automotivo pleno, mas as assimetrias de competitividade e as crises macroeconômicas recorrentes levaram a sucessivos adiamentos e renovações do sistema flex. Com a política liberal de Milei, a pressão para eliminar o flex e instaurar o livre comércio total aumentou, desafiando os industriais de ambos os lados a aumentarem sua eficiência produtiva.

6. Integração Energética: O Vetor Estratégico de Vaca Muerta

A integração energética emergiu como o projeto de infraestrutura mais estratégico da década para a relação bilateral. O Brasil, enfrentando o declínio da produção de gás na Bolívia e a necessidade de gás natural a preços competitivos para reindustrializar seu parque químico (fertilizantes, vidro, cerâmica), olha para a Argentina como a solução natural. A Argentina, por sua vez, possui em Vaca Muerta (Província de Neuquén) a segunda maior reserva de gás de xisto (shale gas) do mundo, mas carece de infraestrutura de transporte e demanda interna suficiente para monetizar todo esse potencial.

6.1. A Geopolítica dos Gasodutos e o Memorando de 2024

As negociações avançaram significativamente com a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) em novembro de 2024, à margem da Cúpula do G20 no Rio de Janeiro, visando viabilizar a exportação do gás argentino para o Brasil.

O desafio central é logístico. Existem duas rotas principais em discussão:

  • Inversão do Gasoduto Norte: A rota mais viável a curto prazo envolve o uso da infraestrutura existente que liga a Argentina à Bolívia. Com a queda na produção boliviana, o gasoduto que antes levava gás da Bolívia para a Argentina agora teve seu fluxo invertido. A ideia é enviar o gás de Vaca Muerta até a Bolívia e, de lá, utilizar o Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol) para chegar ao Mato Grosso do Sul e São Paulo.
  • Rota Uruguaiana-Porto Alegre: A construção ou ampliação de trechos de gasoduto para conectar Vaca Muerta diretamente ao Rio Grande do Sul, passando por Uruguaiana.

6.2. O Debate sobre Financiamento: BNDES vs. Setor Privado

Houve debates intensos sobre o financiamento da infraestrutura necessária, especificamente o segundo trecho do Gasoduto Néstor Kirchner na Argentina. O governo anterior (Fernández/Massa) buscou ativamente financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do Brasil para a compra dos tubos de aço e obras civis.

No entanto, o governo Milei sinalizou uma mudança de paradigma: a preferência por investimentos privados ou arranjos que não envolvessem endividamento estatal direto, alinhado à sua política de déficit zero. Apesar disso, Milei reconhece o interesse estratégico no mercado brasileiro. O Ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, e o Chanceler Mauro Vieira indicaram que o Brasil tem interesse em facilitar a operação, pois o gás de Vaca Muerta pode chegar ao mercado brasileiro a preços estimados abaixo de US$ 5 por milhão de BTU (unidade térmica britânica), o que seria altamente competitivo em comparação ao GNL importado.

Para o Brasil, o acesso a esse gás é uma questão de segurança nacional e competitividade industrial. Para a Argentina, é a chance de equilibrar sua balança comercial energética e obter superávits comerciais sustentáveis com o Brasil.

7. O Mercosul em Disputa e o Acordo com a União Europeia

A visão do governo Milei sobre o Mercosul difere radicalmente da perspectiva tradicional brasileira. Enquanto o Brasil, que exerceu a presidência pro tempore em períodos cruciais de 2024 e 2025, busca fortalecer a união aduaneira e a integração produtiva, Milei enxerga o bloco, em sua configuração atual, como uma “união aduaneira imperfeita” que aprisiona a economia argentina e impede sua inserção global.

7.1. O Debate sobre Flexibilização

O governo argentino alinhou-se à posição histórica do Uruguai (governo Lacalle Pou) em defesa da flexibilização do bloco. Isso significaria permitir que os Estados-membros negociem acordos de livre comércio unilateralmente com terceiros países (como a China ou os EUA) sem o aval dos demais sócios, rompendo com a Regra do Consenso e a Tarifa Externa Comum (TEC).

Milei chegou a declarar que a Argentina poderia “sair do Mercosul” se o bloco fosse um obstáculo intransponível para um eventual acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Contudo, na prática diplomática, a Argentina manteve sua participação nos órgãos técnicos e nas cúpulas, utilizando a ameaça de saída mais como alavanca de negociação para forçar a modernização do bloco do que como um plano imediato. O Brasil, por sua vez, atua como o fiador da integridade do bloco, oferecendo concessões na estrutura tarifária para evitar uma ruptura formal.

7.2. A Convergência Improvável: O Acordo Mercosul-União Europeia (UE)

No final de 2024 e ao longo de 2025, a negociação do acordo Mercosul-UE entrou em uma fase decisiva e dramática. Paradoxalmente, este tema gerou uma convergência pragmática entre Lula e Milei.

O governo Milei tornou-se um defensor entusiasta da ratificação rápida do acordo, rompendo com o protecionismo industrial que caracterizava o peronismo/kirchnerismo, que temia a competição europeia. Milei vê no acordo uma âncora institucional para suas reformas liberais e uma fonte de investimento estrangeiro direto.

O Bloqueio Francês:

A principal resistência ao acordo deslocou-se da América do Sul para a Europa. A França, sob pressão doméstica de seu poderoso setor agrícola e enfrentando a ascensão da extrema-direita, liderou um movimento para bloquear a assinatura do acordo em novembro de 2025, exigindo a reabertura de cláusulas ambientais e de salvaguardas para seus agricultores.

Neste cenário, Brasil e Argentina atuaram de forma coordenada para pressionar a Comissão Europeia (especialmente Ursula von der Leyen) e os países favoráveis (Alemanha e Espanha) a contornarem o veto francês, argumentando que o Mercosul já havia cedido o suficiente e que a credibilidade da UE como parceiro comercial estava em jogo.

Conclusão: A Resiliência da Aliança Estratégica em Tempos de Ruptura

As relações entre Brasil e Argentina no biênio 2024-2025 oferecem um laboratório fascinante para o estudo das Relações Internacionais. A despeito da retórica inflamada e das divergências ideológicas abismais entre o social-desenvolvimentismo do governo Lula e o libertarismo radical do governo Milei, a “força da gravidade” dos interesses de Estado prevaleceu sobre as idiossincrasias governamentais.

A análise exaustiva dos dados e fatos permite concluir que a relação bilateral evoluiu de uma dependência política (onde a afinidade pessoal entre presidentes era condição necessária para o avanço) para uma interdependência estrutural.

A infraestrutura de cooperação construída pacientemente desde 1985 — consubstanciada na independência técnica da ABACC e nos projetos nucleares comuns (RMB/RA-10), na integração física e energética (Vaca Muerta), e na complexidade das cadeias de valor industriais (setor automotivo) — provou ser robusta o suficiente para absorver choques políticos severos.

Para o candidato ao CACD, quatro vetores de força devem ser retidos como essenciais para a compreensão do cenário atual e futuro:

  • O Lastro Nuclear: A cooperação nuclear permanece como a reserva moral e estratégica da relação, blindada das disputas políticas pela ação de burocracias estatais especializadas (CNEN, CNEA, INVAP, Marinhas) e mecanismos internacionais (ABACC/AIEA).
  • A Nova Geopolítica da Energia: A inversão do fluxo de gás da Argentina para o Brasil redefine a integração física, criando uma dependência mútua positiva (segurança de demanda para a Argentina, segurança de oferta para o Brasil).
  • O Choque de Liberalização: A transição argentina para um modelo comercial liberal (pós-SEDI) oferece oportunidades imediatas para o exportador brasileiro, mas desafia a lógica de proteção regional do Mercosul a longo prazo.
  • A Segurança como Aglutinador: A proposta de uma agência regional contra o crime organizado demonstra que, mesmo governos ideologicamente opostos, encontram terreno comum quando confrontados com ameaças transnacionais concretas.

Em suma, a parceria Brasil-Argentina confirma, em 2025, seu caráter de Política de Estado. A vizinhança não é uma escolha, mas uma fatalidade geográfica; a cooperação, no entanto, é uma construção diplomática contínua que, mais uma vez, demonstrou sua indispensabilidade.