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Padrão de Resposta
O principal produto de exportação do Brasil durante longo período foi o café. Essa mercadoria contava com baixa elasticidade-preço e baixa elasticidade-renda, o que significava que, no longo prazo, a expansão da oferta levaria à queda nos preços. Durante o período Imperial, o preço se manteve viável para os produtores, porque o café estava atingindo novos mercados. Na República, as quedas de preços em conseqüência do excesso de oferta começaram a ocorrer, e o governo adotou medidas de sustentação dos preços internacionais do produto por meio da compra e da estocagem das safras, visando a controlar a oferta. Essa política foi financiada, na sua maior parte, por empréstimos externos.
Em 1929, com o início da crise mundial, a demanda pelo produto se reduziu, ao mesmo tempo em que a produção crescia (o tempo de maturação de um pé de café é de cinco anos, tornando as respostas a mudanças na demanda bastante lentas), impulsionada pelas políticas dos anos anteriores. Somou-se a isso a escassez de crédito internacional que interrompeu o fluxo de empréstimos para o Brasil. A crise mundial prejudicou as vendas daquele produto que era a maior fonte de renda do país e que impulsionava o dinamismo econômico, além de limitar as políticas governamentais.
O Governo de 1930 poderia optar por abandonar o setor cafeeiro às forças do mercado, o que seria inviável política e economicamente, pois os proprietários tinham grande influência política e a crise se aprofundaria, uma vez que a maior parte das atividades internas estava ligada ao desenvolvimento do setor cafeeiro. Assim, o governo optou por seguir defendendo os interesses do café. No entanto, já não havia financiamento internacional disponível para que o governo sustentasse o preço da produção e a solução encontrada, uma vez que o sistema de crédito interno era bastante reduzido, foi a emissão de moeda. Aumentando a oferta de moeda na economia, a relação entre a quantidade de moeda nacional e de moeda estrangeira foi rapidamente aumentando, provocando a desvalorização da moeda brasileira. A escassez de divisas internacionais foi aumentada, também, pela queda nas receitas do setor exportador no início da crise.
A opção de política governamental foi assegurar o preço de compra do café aos produtores, permitindo a colheita (que cobriu, pelo menos, o custo variável médio de produção). Apresentaram-se três opções quanto ao que fazer com o café colhido: vender, estocar ou destruir. A primeira delas, vender, levaria a maior queda nos preços, prejudicando ainda mais os produtores e o governo. A segunda, estocar, representava uma série de custos para o governo, sem perspectiva de venda, uma vez que a produção aumentava e a crise se configurava como longa e profunda. Queimar o café foi então a opção escolhida, pois diminuiria a oferta e não oneraria ainda mais o governo.
Ao sustentar a renda cafeeira, o governo acabou por sustentar o nível de renda de toda a economia, dada sua interdependência com o setor do café. Dessa ação surge a idéia de que o governo brasileiro tivesse utilizado o “keynesianismo antes de Keynes”, efetuando gastos públicos para manter a renda interna, com a diferença que Keynes descreveu a sustentação do setor interno, e o governo brasileiro atuou na sustentação das exportações.
A desvalorização cambial implicou o aumento no preço das importações, o que favoreceu o desenvolvimento da produção nacional, com o crescente estímulo da demanda interna, que havia sido mantida. Os capitais, antes concentrados no café, passaram a dirigirse para investimentos voltados para o consumo interno, com melhor perspectiva de retorno que aqueles realizados no setor cafeeiro. Com a sustentação da renda interna, a queda dos preços do café e a desvalorização cambial, o Brasil entrou em uma nova fase de desenvolvimento econômico, que transferiu o centro dinâmico da economia do setor exportador para o mercado interno baseado na industrialização.
A recuperação rápida da economia brasileira foi, segundo a interpretação de Celso Furtado, resultado da conjunção de políticas para manter a renda dos produtores cafeeiros após a crise e que, sem que houvesse intenção deliberada, acabaram por impulsionar as atividades do setor interno da economia. Furtado classifica esse período como o ponto de inflexão fundamental das características do desenvolvimento econômico brasileiro. A atuação “keynesiana” inconsciente do governo permitiu que o país fosse um dos primeiros a se recuperar da crise e que a economia se voltasse para dentro.