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A inflação pode ser definida como o aumento geral dos preços de uma economia. Na teoria econômica, há grandes divergências para que se defina a principal causa do mecanismo inflacionário. Nesse contexto, interessante é analisar a alta inflacionária nos países integrantes do BRIC.
Inicialmente, cabe analisar a chamada inflação de demanda. Para os monetaristas, a inflação tem sua principal causa no aumento da demanda agregada. Geralmente, esse aumento ocorre via elevação dos gastos do governo ou via política monetária expansionista. Conforme observa Milton Friedman, no curto prazo, pode haver algum grau de rigidez nominal que permita a validade do “trade-off” inflação-desemprego. Em outras palavras, no curto prazo, o aumento da demanda agregada, com consequente elevação dos preços (processo inflacionário), pode permitir o aumento do emprego. No longo prazo, no entanto, considera-se válida a hipótese de total flexibilidade de variáveis nominais e do mecanismo de expectativas adaptativas, havendo a tendência de longo prazo de que a inflação esperada seja igual à inflação efetiva (πe=π). De uma perspectiva ortodoxa radical, qualquer política expansionista, seja monetária ou fiscal, conduz ao desequilíbrio das forças de mercado via expansão da demanda agregada e alta dos preços, sem qualquer impacto em variáveis reais da economia.
Os diagnósticos de inflação de custos, por sua vez, entram nas avaliações estruturalistas da economia. Grandes gargalos de infraestrutura ou elevados preços de produtos alimentícios básicos elevam os custos de produção, não permitindo que a oferta agregada acompanhe a expansão da demanda agregada. Por via de outro raciocínio, o aumento de custos de produção, “ceteris paribus”, pode levar a uma retração da oferta agregada, com consequente quadro de estagflação. A inflação de custos também tem importante papel no que alguns economistas consideram análises heterodoxas da inflação. Exemplo histórico é a análise contida no PAEG de que os salários estavam além da capacidade produtiva, isto é, o nível muito alto dos salários criava restrições às possibilidades de expansão da oferta agregada, o que gerava elevação geral de preços.
Para além da consideração de inflação de custo e de demanda, pode-se considerar ainda a influência da taxa de câmbio no processo inflacionário. Com efeito, desvalorizações cambiais (aumento da taxa de câmbio nominal, considerando-se a relação real-dólar) podem levar ao encarecimento dos produtos importados, que também fazem parte da cesta de consumo das famílias. Tal contribui para a elevação geral dos preços via “pass-through”, algo que pode ser considerado para explicar a inflação na China, por exemplo.
A recente tendência de elevação de preços observada nos países do BRIC comporta análises baseadas na inflação de demanda e na inflação de custos. No caso do Brasil, por exemplo, a inflação tem causas internas, como o aumento dos gastos do governo, que tem anunciado grandes projetos de infraestrutura, como as usinas de Jirau e Santo Antônio. Processo semelhante pode ser observado nos outros países do BRIC, constatando-se aumento do gasto público e dos investimentos na China e na Índia e tentativas de amplas reformas urbanas na Rússia, que procura alterar a situação das monogorodas, cidades monofuncionais, muitas em decadência. Ademais, o crescimento acelerado do PIB na Índia e na China contribui para elevar a demanda por bens primários produzidos no Brasil. Como a população daqueles dois países ultrapassa, em conjunto, 2 bilhões, o aumento da demanda em Índia e China tem grande impacto internacional, elevando o preço das “commodities” e alimentos em geral. Nesse aspecto, cabe ressaltar que também se verificam processos inflacionários causados pelo aumento dos custos. A recente elevação do preço internacional dos alimentos encarece a mão-de-obra, já que influenciará nos reajustes salariais. A elevação do custo de mão-de-obra, por sua vez, cria dificuldades de expansão da oferta agregada em contexto de forte crescimento da renda nacional no Brasil, na Índia e na China (a Rússia é uma exceção neste caso, dado o impacto da crise financeira de 2008 em sua economia).
Como fica demonstrado pela análise da inflação nos países do BRIC, nem sempre a inflação terá somente uma causa. Com efeito, as situações reais dos países afiguram-se mais complexas que as hipóteses das teorias econômicas.