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Padrão de Resposta
O processo de participação do Brasil na elaboração de uma ordem econômica internacional nova tem sido crescente. Esse processo ganhou momento a partir das crises conjuntas dos emergentes na década de 1990, que demonstraram a insuficiência dos consensos de Washington e de suas medidas para a promoção da estabilidade econômica duradoura e do desenvolvimento econômico sustentado. A crise financeira recente corrobora a necessidade de reforma da governança econômica global, o que reforça o papel do Brasil nos foros econômicos internacionais.
Em um cenário de inflação descontrolada e dívidas crescentes na década de 1980, países na América Latina necessitavam de uma solução econômica urgente. O modelo de substituição de importações, adotado por estes países em consonância com as recomendações cepalinas, contrastava-se crescentemente com o modelo liberal induzido pelo Estado abraçado pelos tigres asiáticos. Nesse sentido, e em um contexto de prevalência das ideias econômicas liberais, tais países latino-americanos adotaram uma série de medidas econômicas condicionantes do refinanciamento de suas dívidas. Essas medidas incluíam liberalização comercial e financeiras, políticas fiscal e monetária contracionistas, entre outras, naquilo que se resumiu, posteriormente, em “Consenso de Washington”.
A afoção desse modelo não veio, entretanto, livre de senões. No sentido de manejar a inflação, muitos países associaram à liberalização comercial taxas mais ou menos fixas de câmbio (taxa fixa no México, livre conversibilidade na Argentina, âncora cambial no Brasil). Isso gerou um padrão vicioso do balanço de pagamentos: os déficits em conta corrente, expandidos vertiginosamente, dependiam da entrada de divisas via conta capital e financeira para saneamento das contas externas. Em 1994, a crise mexicana demonstrava a vulnerabilidade desses países às oscilações de expectativas do mercado mundial. A crise russa posterior e a crise brasileira confirmaram a fragilidade dos países emergentes aos fluxos financeiros internacionais. Os países asiáticos, que adotaram pioneiramente o modelo, não deixaram de apresentar os mesmos vícios de seus pares: crises de confiança levaram a fugas massivas de capitais que imediatamente impunham desequilíbrios ao balanço de pagamentos, afetando a capacidade de crescimento desses países. Fazia-se necessário, assim, rever as recomendações do Consenso de Washington.
Nesse contexto, em 1999, iniciaram-se as primeiras medidas de construção de uma liderança compartilhada, Nesse ano, cria-se o G-20, a partir de experiências prévias de participação de um ou mais emergentes no âmbito do G-8. Prevalecem, nesse momento, como destaca Paul Krugman, as recomendações dos países desenvolvidos. Afinal, em um cenário de fragilidade dos emergentes, percebia-se, por muitos, a oportunidade para avançar ainda mais as medidas de liberalização que haviam gerado, em última instância, as crises da década de 1990.
O aumento da importância dos emergentes para a economia mundial e a eclosão da crise econômica de 2009 reverteu essa balança. Elevando o peso de países em desenvolvimento nos órgãos econômicos internacionais. Os BRICS respondem atualmente, por exemplo, por 50% do crescimento mundial, e quase 20% do PIB mundial. Esse fato, somado à fragilização dos países centrais causada pela recente crise, levou à elevação do G-20 a nível de cúpula, em 2008, e a uma atenção maior às propostas de países como o Brasil.
O Brasil tem contribuído com o avanço da reforma dos órgãos econômicos internacionais. Apoiou as mais recentes reformas do FMI, órgão do que é atualmente credor e cotista “top ten”. No tocante ao G-20, há grande ênfase à necessidade de adotar políticas fiscais menos austeras na zona Euro, no sentido de acelerar a retomada do crescimento. Além disso, seu governo enfatiza a necessidade, central na economia atual, de rever as regulações de Basileia, dotando-as de maior capacidade (contemplando nelas, por exemplo, as instituições que hoje são protegidas pelo “shadow banking”.)
As crises da década de 1990 demonstraram, portanto, a incapacidade de uma ordem econômica verticalizada, em que poucos países formulem recomendações econômicas genéricas. A partir disso, o Brasil vem defendendo a revisão dos atuais órgãos econômicos internacionais, no sentido de adequar suas agendas e diretrizes aos interesses econômicos nacionais.