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Padrão de Resposta
Ao longo da crise mundial, que se desenrola desde o final de 2008, diversos países adotaram políticas anticíclicas de caráter keynesiano. Assim, passaram a usar instrumentos estatais para compensar os desequilíbrios financeiros do mercado, e, desse modo, atuar no sentido da manutenção da renda, do estímulo do consumo e, portanto, do estímulo ao crescimento. Além da política fiscal expansionista, esses países têm recorrido a políticas monetárias expansionistas, que promovem a ampliação da oferta de moeda nacional, estimulando tanto o consumo e os investimentos (componentes internos da demanda agregada) quando o aumento do saldo as exportações líquidas (componente externo da demanda agregada). Essa expansão dos meios de pagamento em países grandes, como Estados Unidos e China, alteram a configuração dos preços relativos, na medida em que os produtos nacionais ficam mais competitivos. As consequências das diversas formas de “quantitative easing” tem inegáveis impactos na economia e no comércio mundial.
Desde 2008, as políticas monetárias expansionistas, por promoverem a desvalorização das moedas nacionais, têm dado causa ao que se convencionou chamar de “currency war”, ou guerra cambial. Internamente, a expansão monetária, que pode ser feita, por exemplo, pela compra de títulos pelo governo, determina uma redução dos juros, o que, por sua vez, desestimula a poupança e estimula o consumo (já que o custo de oportunidade do consumo atual em relação ao consumo futuro é pequeno), promovendo também os investimentos. De acordo com a teoria keynesiana, a expansão da demanda agregada estimula o crescimento das atividades produtivas e, assim, a geração de emprego e de renda, sobretudo devido ao multiplicador keynesiano dos investimentos iniciais. No fim do processo, tem-se expansão econômica e aumento da arrecadação tributária do governo, o que lhe confere maior poder para debelar a crise. Externamente, a desvalorização das moedas nacionais desestimula as importações e estimula as exportações, tornando superavitário o saldo da balança comercial e da balança de serviços, o que certamente contribui para um saldo positivo em transações correntes. Diante disso, o país tem condições de tornar-se um exportador de poupança, pela aquisição de ativos estrangeiros por agentes nacionais.
Os países em desenvolvimento estão especialmente expostos à guerra cambial, devido à tendência de valorização de suas moedas frente ao dólar (desvalorização pela política norteamericana de Quantitative Easing), o que estimula um desequilíbrio na conta de transações correntes do balanço de pagamentos. Os investidores internacionais respondem à redução da taxa de juros norte-americana buscando mercados onde a rentabilidade compense a assunção de maiores riscos (existentes nos países em desenvolvimento). A entrada de dólares, na forma de investimentos contabilizados na conta financeira, causa a valorização da moeda nacional e, consequentemente, altera os preços relativos entre os produtos nacionais (tornados mais caros) e os estrangeiros (que ficam mais baratos). Aumentam as importações e reduzem-se as exportações, deteriorando o saldo das balanças comercial e de serviços. Nos países desenvolvidos, onde a balança de rendas tende, na maioria dos casos, ao déficit histórico, devido à repatriação de lucros e ao pagamento de despesas com empréstimos, o saldo de transações correntes sofre importante redução, o que obriga o país a recorrer à poupança estrangeira (estimulando os investimentos estrangeiros ou contraindo os empréstimos) para manter o equilíbrio do balanço de pagamentos. A necessidade de aumentar os juros internos, além de prejudicar o investimento e comprometer o investimento futuro da economia, aumenta o endividamento do governo.
As relações entre a guerra cambial e o comércio internacional referem-se justamente à alteração dos preços relativos dos produtos nacionais e estrangeiros. De certa forma, a desvalorização da moeda nacional funciona como subsídio às exportações nacionais. Se essa desvalorização ocorre em países de economia grande, o aumento das exportações aumentará a quantidade ofertada de produtos no mercado internacional, o que reduzirá seu preço. Os países cujas moedas estão valorizadas sofrem duas vezes: com a dificuldade de exportar (porque seus produtos serão menos competitivos internacionalmente) e com a criação de demanda pelos produtos estrangeiros, que estarão mais baratos. Em um quadro de livre comércio (em grande parte promovido pela OMC), os preços internos dos países de moedas desvalorizadas aumentam, o que instiga a produção nacional, enquanto os preços internos dos países de moedas valorizadas se reduzem, o que desestimula a produção nacional. No longo e no médio prazo, esse quadro pode levar a dinâmicas de desindustrialização e de deslocamento de suas moedas, em detrimento daqueles onde isso não ocorre.
O Brasil tem tentado incluir o problema do câmbio nos debates da OMC, já que as políticas cambiais, como visto, servem como instrumentos protecionistas no âmbito do comércio internacional. De acordo com a visão brasileira, o câmbio, se desvalorizado o suficiente, é capaz de suplantar a redução das tarifas e minar a liberalização comercial já alcançada.