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As principais razões para o sucesso do Plano Real são a capacidade desse plano de combater os múltiplos aspectos do fenômeno hiperinflacionário brasileiro e a adoção de um conjunto de medidas macroprudenciais rígidas que impediram o retorno da espiral inflacionária. Até a crise de 1999, quando se rompe a âncora cambial, os principais desafios podem ser percebidos na própria manutenção da âncora e na questão da taxa de juros.
O Plano Real propôs uma nova abordagem no enfrentamento da inflação. Diferentemente dos planos que o antecederam, o Plano Real não promoveu congelamento ou confiscos. Baseando-se na experiência implementada por Hermann Schacht para debelar a hiperinflação na Alemanha dos anos 1930, o Plano Real estabeleceu um hiperindexador: a Unidade Real de Valor (URV). A função desse instrumento pode ser analisada em três aspectos: primeiro, buscava-se neutralizar a componente inercial da inflação, restringindo-se os efeitos da inflação passada; segundo, a URV permitiria a retomada do equilíbrio entre os preços relativos, corroído pela inflação; terceiro, isso restauraria a função de unidade de conta da moeda, prejudicada por aquele desequilíbrio. A substituição da URV pelo Real em 1994 resultou no “descolamento” da memória inflacionária atrelada à moeda.
A proposta de um “hiperindexador”, com posterior troca de moeda, já fora aventada pelos economias Pérsio Arida e André Lara Resende; no entanto, apenas esta troca não bastaria para conter as pressões inflacionárias. Para tanto, foram necessárias políticas macroprudenciais rígidas, de matriz ortodoxa, que incluíram: reescalonamento da dívida externa (Plano Brady); aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal; contenção significativa dos gastos públicos e início de um programa de privatização; por fim, adoção de âncora cambial, a qual permitia que importados competissem com produtos nacionais, reduzindo pressões inflacionárias pelo lado da demanda.
Os desafios econômicos enfrentados nesse período foram bastante significativos. Em primeiro lugar, a manutenção da âncora cambial revelou-se bastante dificultosa. De fato, em contextos de fugas de capitais (como foram os contextos das crises dos tigres asiáticos e da Rússia) a manutenção da âncora significou erosão das reservas internacionais brasileiras. A âncora cambial mantinha o país em situação de vulnerabilidade. Em segundo lugar, a atração de capitais estrangeiros, inclusive para manter a âncora, dependia de sustentação de altas taxas de juros. O período, o Brasil chegou a figurar entre os países com maior diferencial entre a taxa doméstica e η taxa internacional. Juros altos desestimulam investimentos e podem comprometer a renda doméstica. Em terceiro lugar, o conjunto de ajustes recessivos, conjugado com um câmbio fixo e com juros altos provocou recessão, além de retardar a retomada do crescimento. No período, o Brasil registrou índices baixos, eventualmente recessivos, de crescimento. Além disso, a âncora cambial, por manter o câmbio valorizado, implicou desequilíbrios no Balanço de Pagamentos, o que tornava ainda mais delicada a situação econômica.
A crise russa de 1999 ensejou tal volume de fuga de capitais que o governo se viu obrigado a romper com a âncora do câmbio. Ainda assim, a espiral inflacionária não retornou, porquanto inexistiam condições para esse tipo de desequilíbrio. Nesse sentido, pode-se apontar o bom êxito do Plano Real no combate à inflação sustentada.