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Padrão de Resposta
Com a intensificação do processo de globalização, as cadeias globais de valor alteraram profundamente o paradigma produtivo até então vigente. A redução relativa dos custos logísticos, a atenuação das barreiras ao comércio internacional e a expansão da atividade industrial para novas fronteiras geográficas fragmentaram as cadeias produtivas mundiais. A constante busca por vantagens competitivas levou as empresas multinacionais a descentralizarem sua estrutura produtiva. Assim, passaram a buscar novos locais que oferecessem custos mais baixos, favorecendo o estabelecimento de verdadeiras cadeias produtivas globais. Isso intensificou o comércio internacional de componentes, cuja produção foi deslocada para a periferia do mundo, em geral. Por outro lado, o domínio tecnológico passou a ser o fator fundamental para a criação de valor. A inserção internacional dos países nessa nova lógica produtiva relaciona-se, portanto, com suas perspectivas de desenvolvimento econômico.
A intensificação da concorrência internacional por investimentos produtivos levou à redução dos custos de produção de bens e serviços. Dessa forma, houve uma certa commoditização da atividade produtiva, com o incremento do processo de terceirização da produção, por exemplo. Com isso, a industrialização, tradicionalmente associada ao desenvolvimento econômico, atingiu novas zonas do globo, sem, no entanto, engendrar desenvolvimento. A proliferação de indústrias “maquiladoras” na fronteira mexicana e de meras montadoras de equipamentos no Sudeste Asiático a partir da importação de componentes é emblemática desse processo. Dado o baixo valor agregado atribuído a essas atividades, a geração de bem estar social oriunda desse novo esquema produtivo é reduzida. Em compensação, os grandes centros produtores de tecnologia concentram os ganhos da maior parte da cadeia, beneficiando-se das reduções de custos e do aumento de suas margens. Portanto, contemporaneamente, o desenvolvimento econômico está associado à forma como as economias domésticas aderem à lógica das cadeias globais de valor.
O Brasil realmente ainda apresenta tímida participação nas cadeias globais de valor. Historicamente, o desenvolvimento econômico nacional deu-se por meio da substituição de importações, processo que se esgotou durante a década de 1980. Com a abertura comercial empreendida no início dos anos 1990 e as iniciativas de integração econômica regional, como o MERCOSUL, o país buscou rever sua inserção internacional, participando mais ativamente no comércio internacional. Entretanto, ainda se pode reconhecer que o consumo interno tem sido o principal motor do crescimento brasileiro nos últimos anos, apesar de esforços para se diversificar parcerias comerciais. No mercado automobilístico, um exemplo clássico de cadeia global de valor, o país ainda pratica taxas de importação acima da média mundial, o que ocasiona uma relativa baixa competitividade mundial, apesar da escala da produção nacional e da importância do mercado interno brasileiro. Nesse sentido, ainda se verifica a predominância de um modelo de crescimento voltado para dentro.
De qualquer forma, não se pode comparar a participação brasileira nas cadeias globais com a de países como Singapura e Holanda, que baseiam sua inserção econômica em forte atividade portuária e possuem um diminuto potencial de consumo interno. Países de dimensões continentais, como Canadá, os EUA, a Austrália e a Índia, localizam-se, no ranking apresentado pelo enunciado, em posição similar à do Brasil. É de certa forma compreensível que a participação do componente upstream seja menor do que a verificada em países que não contam com um parque industrial tão completo quanto o brasileiro. Nesse sentido, a diversidade presente na composição do produto brasileiro determina, em alguma medida, uma menor integração de sua produção nas cadeias globais de valor.
Com relação às implicações econômicas, constata-se ainda um peso baixo do comércio exterior brasileiro no PIB, bem como um resultado em transações correntes deficitário na maior parte do tempo (superávits em transações correntes são mais uma exceção do que a norma, no caso brasileiro). A balança de serviços brasileira também é estruturalmente deficitária, dada à baixa presença de empresas brasileiras nos setores de fretes e seguros internacionais, por exemplo. Se por um lado, a força do mercado interno torna o país menos vulnerável à economia internacional, um risco possível da tímida participação brasileira nas cadeias globais de valor é a queda de competitividade das empresas nacionais. Sabe-se que o contato com a concorrência é um dos fatores que estimula a inovação, pois a busca de vantagens competitivas incentiva o surgimento de novas tecnologias, que ampliam a fronteira das possibilidades de produção. Nesse sentido, a baixa participação brasileira nas cadeias globais de valor não deixa de ser um obstáculo à internacionalização de empresas brasileiras, tanto como fornecedoras de componentes, quanto como consumidores de bens intermediários e exportadoras de produtos finais.