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A relação entre a economia cafeeira e o processo de industrialização no Brasil é objeto de intenso debate na historiografia da Formação Econômica do Brasil. Devido à complexidade do tema, as principais teorias que buscam explicar essa relação, como a teoria da industrialização incentivada por exportações e a teoria dos choques adversos, são mais complementares entre si do que mutuamente excludentes.
A evolução da economia cafeeira passa pelo fim do trabalho escravo e a transição para diversas formas de trabalho livre, incluindo o assalariado. Se, antes, a quase totalidade da renda era empregada em importações, surgia agora um mercado interno cada vez mais dinâmico. Mercado interno é uma das condições para a industrialização, assim como a infraestrutura ferroviária e de comunicações, cada vez mais presente. Os imigrantes tanto dinamizaram esse contexto como aproveitaram-se dele. Segundo Bresser, 85% dos industriais paulistas eram imigrantes ou descendentes. Nesse cenário insere-se a teoria das industrialização incentivada por exportações. Era em momentos de expansão da exportação de café que crescia o investimento industrial, via importação de máquina s e equipamentos que era permitida pela disponibilidade de moeda estrangeira. Exemplo desse momento é o governo de Afonso Pena e Nilo Peçanha, quando a Caixa de Conversão interrompeu a valorização do mil-reis, que prejudicava os cafeicultores, e deu fôlego para o setor.
Se, nos momentos de disponibilidade de moeda estrangeira pelo aumento das exportações, aumentava-se o investimento industrial, nos momentos de crise da economia cafeeira, utilizava-se a capacidade instalada anteriormente. É disso que trata a teoria dos choques adversos. Um bom exemplo é a Primeira Guerra Mundial e seus efeitos sobre a industrialização do Brasil. Com a dificuldade de importar e de exportar café, utilizaram-se as máquinas importadas durante os governos de Afonso Pena para produzir internamente o que antes era importado. Além disso, a pauta exportadora diversificou-se, para atender novos mercados com, por exemplo, alimentos processados. Deu-se um surto industrial. Assim, em momentos de crise na economia agrário-exportadora, da qual decorria a redução da capacidade de importar, devido a falta de divisas de exportação, a solução era produzir internamente. A indústria surgia, portanto, nas franjas da economia cafeeira.
A política econômica do Estado Novo e de Dutra teve grande impacto da Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, em 1937, Vargas tentou promover certa rigidez no acesso ao câmbio, mas após a Missão Aranha aos EUA e pressão norte-americana, houve certa flexibilização a partir de 1939. O câmbio dependia do comércio exterior, e a guerra alterou o cenário. Para importações, houve uma perda imediata do mercado europeu, mas ainda havia outros. No entanto, até 1941, se havia algum mercado, não havia divisas para importar; já após 1941, o Brasil tinha divisas, mas não havia mercado, pois os EUA entraram na Guerra. As divisas provinham da reorientação das exportações: exportavam-se materiais estratégicos para os EUA, mais café após o Acordo Interamericano, carne e outros produtos para a Inglaterra e atendiam-se mercados anteriormente supridos pelos aliados. Nesse contexto, aumentaram a s Reser va s Internacionais, a renda e a inflação. A política monetária e fiscal foi expansionista, uma das causas da inflação. Houve, portanto, aumento da produção industrial no período.
Dutra, para reduzir a inflação e permitir a importação de bens de capital, equipamentos e bens de consumo que a guerra impedia, flexibilizou o acesso ao câmbio, acreditando nas Reservas Internacionais que o país possuía. No entanto, grande parte delas era inconversível, como libras bloqueadas e ouro no exterior, e isso levou a uma crise cambial em 1947. O governo passou a estabelecer as Licenças de Importação, uma forma de selecionar o que se importava. Isso foi bom para o desenvolvimento industrial, pois era uma forma de protecionismo. Com a saída de Corrêa e Castro, em 1949, desfez-se de vez a ilusão liberal e adotou-se uma política econômica expansionista e o plano SALTE. No entanto, com inflação, moeda fixada em nível valorizado e desvalorizações pelo mundo, a indústria brasileira era pouco competitiva.
Competitividade nos traz para o momento atual da indústria brasileira. Assim como em Dutra, atualmente a inflação, a moeda até pouco tempo supervalorizada e desvalorizações de outras moedas pelo mundo, fruto de políticas monetárias expansionistas, minam a competitividade da indústria brasileira, o que se reflete na pauta do comércio exterior: exportamos produtos básicos e importamos produtos manufaturados. As Licenças de Importação de Dutra só foram extintas com Collor, quando nossa protegida indústria sofreu com a competição internacional e ainda não se recuperou. Se entre 1930 e 1980 crescemos quase 6% ao ano, entre 1980 e 2012, o crescimento não passou de 2%. Os impactos do nosso desenvolvimento industrial histórico continuam até o presente.