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A população brasileira passa por período de transição conhecido como bônus demográfico. Enquanto, nos anos 2000, a estrutura etária indicava uma população jovem, em 2030, é prevista uma estrutura de população adulta e porcentagem significativa de idosos. O período de transição entre os dois momentos é considerado crucial para as finanças públicas, a taxa de poupança e a competitividade internacional do país.
O período do bônus demográfico é caracterizado pela maior quantidade de pessoas em idade ativa do que pessoas fora dessa faixa. Dessa forma, para cada pessoa considerada dependente (crianças ou idosos), há mais de uma pessoa efetivamente no mercado de trabalho. Nesse contexto, observam-se níveis relativamente baixos de desemprego, uma vez que o crescimento econômico e a capacidade ociosa existentes permitiram a inserção de mais pessoas na economia formal. Conforme o bônus chega próximo ao seu fim, contudo, será necessário investir em maior produtividade, especialmente no setor de serviços, responsável por cerca de 70% do PIB, por meio do incentivo à educação, à pesquisa e à inovação.
A grande quantidade de pessoas empregadas em relação às dependentes (baixa taxa de dependência) deveria implicar aumento da poupança nacional. A poupança pode ser considerada função da renda e das expectativas de retorno dos investimentos, em perspectiva análoga à de Keynes. Assim, por um lado, o aumento da renda do trabalhador poderia ser canalizado para a poupança, incentivada, ainda, por altas taxas de juros. Por outro, a cultura inflacionária, a alta propensão ao consumo e as desigualdades ainda persistentes podem justificar que se prefira o consumo à poupança, se não houver maiores incentivos.
A baixa taxa de poupança nacional é uma preocupação para as finanças públicas no contexto de eventual fim da transição. Ao término do bônus, a taxa de dependência aumentará, com menos pessoas no mercado de trabalho para cada dependente. Ainda, o envelhecimento da população significará que os dependentes incluirão mais idosos do que anteriormente. Cria-se, portanto, pressão nas finanças públicas, uma vez que a arrecadação deve diminuir (com a saída de pessoas do mercado de trabalho) e, ao mesmo tempo, crescerão os dispêndios com a Previdência Social. Explicam-se, portanto, reformas feitas para aumentar o período de contribuição, uma vez que se espera o aumento da expectativa de vida e a diminuição da quantidade relativa de contribuintes.
O período da transição demográfica é propício para o aumento da competitividade internacional do Brasil. Com a alta proporção da população em idade ativa, o incentivo ao aprimoramento das habilidades, à transferência de tecnologia e ao aumento da produtividade trariam grandes vantagens comparativas. A economia brasileira é, atualmente, representativa de baixos índices de produtividade, nomeadamente no setor de serviços. Esse cenário é preocupante não só pelo peso dos serviços no valor adicionado do comércio mundial, mas pela tendência de aumento dessa participação em setores de criação de valor, sinalizada, por exemplo, pela assinatura do TPP. O Brasil, para aumentar sua competitividade internacional, precisa encontrar atalhos no momento do bônus demográfico que permitam sua inserção em cadeias globais e regionais de valor no setor upstream, substituindo o foco atual em serviços de consumo final e promovendo a densidade industrial que permitirá a competição nos novos padrões de comércio internacional.
O período do bônus demográfico pode trazer dividendos ao país, se bem administrado. O aumento da massa de trabalhadores poderia favorecer a poupança nacional, incentivando investimentos e desonerando a Previdência Social no futuro. Mais significativa é a urgência que o bônus adiciona à necessidade de melhora da produtividade no mercado doméstico e da qualificação profissional desses novos trabalhadores, a fim de que se insiram em empregos de qualidade e preparem a economia para o fim da transição.