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Na transição do governo Geisel para o governo Figueiredo, a economia brasileira sofreu os efeitos do segundo choque do petróleo (1979), que restringiu a oferta mundial do produto – essencial para a economia brasileira e para muitos outros países – e fez com que seu preço mais que dobrasse rapidamente. Ao contrário do primeiro choque, em 1974, em que a reciclagem dos petrodólares havia proporcionado amplo financiamento externo para o II PND, o segundo choque diminuiu severamente a disponibilidade de capital externo, causando vertiginoso aumento das taxas de juros, o que impactaria com força a economia brasileira, desde sua balança comercial até o balanço de pagamentos, passando pela dívida externa. Não por acaso a década de 1980 ficaria conhecida como "a década perdida".
Logo após uma breve tentativa de ajuste ortodoxo, assume o Ministério da Fazenda Delfim Netto, o "artífice do Milagre". A esperança era de que ele promovesse um ajuste heterodoxo, reeditando o crescimento de 1968-1973. Foi o que ele tentou fazer: expandiu o crédito e seguiu estimulando o crescimento. A economia cresceu bastante em 1980, mas era algo passageiro. O modelo de crescimento forçado do II PND já não era mais possível, à luz da restrição de liquidez externa. A moratória mexicana de 1982 piorou ainda mais a disponibilidade de capitais. O Brasil recorre ao FMI e assina uma série de cartas de intenção a fim de obter crédito para aliviar a situação das suas reservas internacionais. Serão sete cartas em menos de dois anos. Delfim se convence de que o único ajuste possível seria o recessivo, o que o leva a adotar política econômica ortodoxa – o "milagre" se frustrava. A economia entra em recessão entre 1981-1983, em ambiente no qual a inflação já se anunciava em trajetória preocupante.
A princípio, o aumento no preço do petróleo piora η situação da balança comercial brasileira, visto que o país era amplamente dependente do produto. Na sequência, porém, Delfim Netto promove uma maxidesvalorização cambial de 30%, o que contribui para a melhoria da balança. O câmbio desvalorizado, a recessão econômica e a maturação dos investimentos feitos ainda na época do II PND (1974-1979) conduziram a balança comercial a um superávit recorde, com pico em 1984. Esse foi um dos poucos dados econômicos positivos da década de 1980, embora o fenômeno também tenha sido passageiro. O crescimento da inflação e a perda do poder de compra marcaram o fim dos anos 80.
No âmbito da dívida externa, a situação pós-79 era extremamente preocupante. O Brasil havia crescido em "marcha forçada" nos anos anteriores, com grande aumento do endividamento externo. A maior parte da dívida, além disso, fora contratada a juros flutuantes. Quando a crise do petróleo de 1979 estoura, os juros da dívida sobem vertiginosamente, e a dívida externa cresce de forma explosiva. A crise mexicana gera fuga de capitais, e o país se vê em situação preocupante em relação às suas reservas, recorrendo ao FMI para saldar seus compromissos. A crise da dívida, no entanto, prolongar-se-ia até atingir o ápice em 1987, quando o país, que havia sobrevivido a duras penas à moratória mexicana de 1982, faz o mesmo que o México e decreta a moratória dos pagamentos da dívida, sob Sarney. Somente as negociações no Plano Brady, no final dos anos 80 e início dos anos 90, dariam encaminhamento definitivo ao problema.
O balanço de pagamentos brasileiro, nesse período, sofreu os efeitos do movimento da balança comercial, acima exposto, e, sobretudo, as vicissitudes da deterioração de sua conta capital e financeira, ante a pesada restrição de poupança externa e a grande saída líquida de capitais. A balança de rendas seguiu negativa, como sempre foi, vindo da sequência de um grande saldo negativo oriundo do financiamento externo no II PND. A balança de serviços, por fim, também seguiu negativa, inalterado seu déficit crônico na história da economia brasileira. No geral, o saldo foi negativo e as reservas atingiram níveis extremamente preocupantes, resultando nos acordos com o FMI e na moratória de 1987.
A segunda metade da década de 1980 herdou inúmeros problemas dessa época. A receita do II PND – a despeito de seus alegados benefícios à estrutura produtiva brasileira – cobrou a sua conta. Estagnação econômica e inflação foram as tônicas do período. A inflação seria a vilã a partir de Sarney, em cujo governo sucederam-se Ministros da Fazenda e planos econômicos (Cruzado, Cruzadinho, Bresser, Verão) que buscavam trazer a economia de volta aos eixos. Se o primeiro choque do petróleo foi absorvido com crescimento, o segundo resultou em frustração, retração e inflação.
As reflexões econômicas sobre esse período da história brasileira reforçam a necessidade de repensar as decisões de crescer economicamente à custa de alto endividamento e a importância de dotar o país de fontes energéticas amplas, sustentáveis e autônomas. Se a lição for efetivamente aprendida, talvez se possa dizer que a década de 80 não foi de todo "perdida".