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O Brasil chegou a 1946 sob a chamada “ilusão de divisas”, acumuladas no decorrer da Segunda Guerra Mundial – boa parte delas viria a provar-se não conversíveis. Além disso, o país vivera anos de inflação, e não poderia prescindir do câmbio fixo atrelado ao padrão exigido pelo então nascente sistema de Bretton Woods. Foi nesse cenário que o governo Dutra, dentro do projeto desenvolvimentista, viria a adotar sua política econômica.
De início, em 1946, o governo optou pelo mercado livre de câmbio, mas fixou a taxa cambial na paridade de 1939. Isso valorizou a moeda brasileira, pois a inflação acumulada em seis anos no Brasil superou em muito a norte-americana.
A intenção dessa política era combater a inflação, cumprir os ditames de Bretton Woods e evitar a queda dos preços do café; quanto à indústria, a intenção era expor a produção nacional às mercadorias estrangeiras.
Porém, os impactos sobre a balança comercial foram nefastos: com o expressivo aumento das importações provenientes dos Estados Unidos, a balança comercial passou a ter constantes déficits; a manutenção do câmbio apreciado, por sua vez, consumiu rapidamente as reservas internacionais.
Com isso, seria adotado, em 1948, um sistema de licenças prévias de importação, por meio das quais seriam vendidos dólares com grande deságio a um número limitado de importadores. A limitação dessas quotas variaria conforme o grau de essencialidade dos bens a serem importados: a prioridade se daria a bens de capital, fundamentais para a consolidação de uma indústria ainda incipiente; assim se faria o avanço do processo de substituição de importações. Tratava-se, na prática, de subsídio à indústria.
As medidas adotadas pela política econômica de Dutra teriam uma série de efeitos sobre o processo de industrialização, ligados às políticas cambiais acima: o efeito subsídio, o efeito proteção e o efeito rentabilidade.
O efeito subsídio se mostrou pelo fato de a indústria nacional ter prioridade na obtenção das licenças de importação, utilizadas tanto na aquisição de bens de capital quanto na obtenção e insumos; por outro lado, tanto bens intermediários quanto bens de consumo não receberam a mesma atenção.
O efeito proteção se explica pela restrição no número de licenças, o que conferiu à indústria doméstica certo grau de preservação. Finalmente, como síntese dos dois primeiros efeitos, o efeito rentabilidade se verificou pelo aumento da rentabilidade da produção industrial ao mercado interno em comparação aos produtos primários tradicionalmente exportados.
Porém, a industrialização nacional também dependia do capital estrangeiro, o que levou Dutra a acreditar que os EUA, tendo apoiado o desenvolvimento da CSN durante a Segunda Guerra, poderia também financiar a produção nacional. A esperança não se concretizou: a resposta inicial de Washington, focado na reconstrução europeia, foi a instituição da Missão Abbink-Bulhões, que teve o intuito de identificar gargalos produtivos no país, além de tímido montante via Eximbank. Para os EUA, o investimento no Brasil teria de ser majoritariamente privado; a Missão redundaria na Comissão Mista Brasil-EUA, que começa a operar em 1951.
Na parte final de seu governo, Dutra formularia um plano de desenvolvimento econômico, o Plano Salte, com fundamento em quatro setores estratégicos para o desenvolvimento brasileiro: saúde, alimentação, transportes e educação. Porém, o plano não viria a concretizar-se, novamente pela ausência de investimentos.
A política cambial também viria a ser flexibilizada, em momento de reversão do ímpeto liberal adotado nos primeiros anos, fruto do liberalismo político; o diálogo e embate entre nacional-desenvolvimentismo e liberalismo foi uma tônica do período.
Tendo assumido o poder diante de cenário de euforia pós-guerra, mas inflação e necessidade de industrializar-se, a política econômica de Dutra levou as reservas internacionais a esvaziarem-se, além de, pela adoção de câmbio apreciado, seguidos déficits com os EUA. A adoção do sistema de quotas, com a emissão de licenças prévias de importação prioritariamente às indústrias, mitigou o problema e permitiu o avanço do processo de substituição de importações, ao facilitar a importação de bens de capital. Malgrado o fracasso do Plano Salte, algumas das medidas cambiais de Dutra inspirariam novas decisões da SUMOC até o fim da República Liberal.