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Padrão de Resposta
A história das duas nações ibéricas sempre esteve correlacionada. Apesar de Portugal
ser Estado mais antigo, os respectivos processos de consolidação nacional de Portugal e
Espanha (séculos XIV e XV) correram paralelos. Ademais, ambos tiveram forte influência
mourisca, distantes socioespacialmente do restante da Europa devido à muralha natural dos
Pirineus. As duas nações lançaram-se na cruzada atlântica dos descobrimentos, sofreram o
retardo dos regimes fascistas (Franco/Salazar) e entraram para a União Européia (UE) na
mesma década de 80.
Hoje países com indicadores socioeconômicos próximos ao da Europa Central,
Portugal e Espanha mais se aproximam do que se diferem em termos de política externa. Três
vertentes básicas de inserção internacional dos dois países podem ser apontados: o
“atlantismo”, o “europeísmo” e a política africanista.
Os laços que unem Portugal e Espanha à América são espirituais, pois compartilham
com as nações do espaço socioeconômico latino-americano as mesmas línguas, a raiz étnica,
cultural e religiosa. Durante os respectivos fascismos, tornaram-se mais introspectivos,
porém afirmando-se vivamente no hemisfério ocidental após a adoção da “cidadania
européia”. Hoje, Portugal e Espanha estão entre os maiores investidores externos na
América Latina, sobretudo na área de telecomunicações. Do ponto de vista político, por
intermédio da s Cúpulas Ibero -Americanas, apresentam-se como facilitadores do diálogo
entre a América Latina e a Europa, principalmente nas negociações comerciais entre o
Mercosul e a UE. Ainda com respeito ao “atlantismo”, os movimentos políticos dos dois
países são tão simétricos que ambos apoiaram Bush em sua aventura iraquiana. A
consequência para a UE de tal cenário pode ser dialética, se de um lado reforça a presença
européia na América Latina, de outro, o alinhamento com os EUA torna o alcance de uma
política externa comunitária algo mais distante.
Quanto ao “europeísmo”, Portugal e Espanha abraçaram com vigor a identidade
continental. É certo que, devido a seu maior peso econômico e demográfico, a Espanha tende
a sobressair-se na construção de um espaço europeu. Os países ibéricos, nesse contexto,
servem como vitrine para os 10 novos países que adentram a UE, algo de forte caráter
simbólico. Ambos, Portugal e Espanha encontram-se tão inseridos no esquema europeu que
os maiores compradores de imóveis nos dois países são alemães, ingleses e escandinavos
interessados no sol do Algarve, das Ilhas Baleares ou da “Cuesta del Sol”. Fator de
preocupação para a UE, no que concerne à Península, é a questão migratória, apesar dos
dois países serem signatários do Acordo de Schengen, que limita a entrada de imigrantes. É
aí que entra o vetor africanista da política externa ibérica.
O estreito de Gibraltar apresenta -se como a área mais sensível na entrada de
imigrantes ilegais para a UE. Apesar dos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, na África,
os nacionais do Magreb (Marrocos, Argélia e Tunísia) usam a região para alojarem-se em
Valência, Barcelona, Marselha ou Paris (a maior cidade islâmica do Ocidente). Assim, as
pressões comunitárias para maior controle migratório espanhol são significativas. Quanto à
política africanista portuguesa, o foco está em aprofundar a presença lusitana, sobretudo
econômica e política, sobre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa –
CPLP. Desta forma, o relacionamento nem sempre harmônico entre a UE e a África passa
pelas duas nações ibéricas.
Apesar de certa desconfiança mútua entre portugueses e espanhóis (sobretudo dos
últimos em relação aos primeiros), os dois povos estão fortemente ligados por razões
geográficas, históricas, cultu rais, econômicas e políticas. Uma UE fortalecida depende
parcialmente da convergência progressiva entre Portugal e Espanha.