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Padrão de Resposta
Dentre os maiores desafios atuais da União Européia (UE), destacam-se o processo
de alargamento e a possível entrada da Turquia no bloco. Os sinais de apoio ao pronto
ingresso desse país, por parte do Reino Unido, contrastam com as reticências da França e da
Alemanha.
O próprio Reino Unido teria diversos motivos para opor-se à entrada da Turquia na
UE. Ao ponderar, contudo, as vantagens e desvantagens do ingresso de Istambul, Londres
tem defendido os benefícios desse alargamento do bloco. São diversas as razões geopolíticas
para esse apoio.
Em primeiro lugar, Londres percebe a importância da Turquia como região de
contato, de modo geral, entre o Oriente e o Ocidente e, mais especificamente, entre o Oriente
Médio e a Europa. Trazer os turcos para o lado europeu implica o simultâneo distanciamento
do mundo árabe-islâmico. A entrada da Turquia na UE poderia, ao mesmo tempo, facilitar o
diálogo do bloco com o Oriente Próximo e impedir a migração oriunda dos países
fronteiriços. A Turquia exerceria, assim, papel similar ao da Espanha em relação aos países
do Magreb.
Em segundo lugar, a Turquia representa complementaridade econômica à GrãBretanha. Os dois países já têm intensos fluxos comerciais que seriam potencializados com o
alargamento. A Turquia possui taxas significativas de crescimento e é grande a presença de
empresas britânicas no País.
Além disso, a região representa, há mais de século, uma área estratégica de influência
britânica. Londres percebe a importância de ampliar sua presença política nesse “rimland”,
lembrando a obra de Nicholas Spykman, entre o Mar Mediterrâneo e a área pivô da Eurásia.
Alemanha e França, as maiores economias continentais, mostram-se, entretanto,
reticentes quanto à entrada da Turquia no bloco. A presença de Istambul alteraria o
equilíbrio de poder entre as potências européias, no qual o Reino Unido se apresenta como o
fiel da balança. A adesão dos turcos implicaria rearranjos institucionais relevantes nos
órgãos comunitários que Paris e Berlim se indispõem a realizar. A alteração mais
significativa ocorreria no Parlamento Europeu, onde, segundo as regras atuais, a Turquia
teria direito a elevado número de eurodeputados, senão até mesmo superior ao número de
assentos franceses ou alemães.
A Turquia, ademais, ao ter status de membro pleno, poderia levar ao aumento no
número de emigrantes turcos nos outros países continentais, especialmente na Alemanha,
onde se situa a maior comunidade turca fora do País. Dispostos a trabalhar por salários
inferiores, os turcos são vistos, por muitos, como ameaça ao emprego de alemães e franceses.
Há ainda a questão religiosa e cultural. Embora seja laico o Estado, a Turquia possui
a população predominantemente mulçumana. O islã é tido com certo temor na Europa, que
associa a religião ao fundamentalismo, à falta de liberdades, ao terrorismo.
Durante sua presidência rotativa da UE, o Reino Unido promoveu importantes
avanços com relação à entrada da Turquia, a despeito de protestos na Áustria e da aparente
relutância da França e da Itália. Essa divisão entre as principais potências européias indica,
no entanto, que o processo de ingresso de Istambul será lento e penoso. Malgrado o entrave
entre as nações no velho mundo, muitos analistas afirmam, em uníssono, que a entrada da
Turquia na UE é inevitável.