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Padrão de Resposta
Aziz Ab’Sáber, em sua concepção de grandes domínios paisagísticos, identifica, na
zona costeira brasileira, uma heterogeneidade que não se apresenta de forma tão patente em
outros ecossistemas do Brasil. A costa brasileira, em seus mais de 7.500 quilômetros, a
margear o Oceano Atlântico, caracteriza-se por uma diversidade múltipla de paisagens, a
partir da foz do rio Oiapoque, no Amapá, até a foz do arroio Chuí, no Rio Grande do Sul.
Devemos incluir, por óbvio, as ilhas oceânicas brasileiras, que possuem características
bastante peculiares.
Traçando um panorama de norte a sul, temos, de início, do norte do Amapá ao litoral
do Pará, complexo paisagístico que compreende os rios que formam o delta do Amazonas, ao
qual se soma a confluência do rio Tocantins com o rio Pará. Ali, entremeia-se a exuberância
da floresta amazônica com a vegetação típica de litoral. No rio Pará, ocorre o fenômeno da
Pororoca, que é a entrada de água marítima no curso baixo do rio, em época de maré alta,
sendo motivo de atração para turistas do Brasil e do mundo (surfistas, em sua maioria). O
turismo, aliás, é explorado principalmente com a locação de “bugues” e catamarãs,
propiciando, ao público, maior conhecimento de tais paisagens. A atividade portuária é
intensa na região (Macapá e Belém), assim como a pesca fluvial, que representam as mais
importantes atividades econômicas da região.
Ao longo do litoral do Meio-Norte nordestino (do Maranhão ao Rio Grande do
Norte), predominam as grandes formações de dunas, fruto da intensa atividade eólica na
região (graças ao anticiclone dos Açores), além da floresta de coqueiros. A atividade
turística nessas áreas vem crescendo muito ultimamente (Lençóis Maranhenses, delta do
Parnaíba, Genipabu), o que resulta em fonte significativa de renda para a população. A
atividade portuária não é menos intensa. Itaqui, no Maranhão, é o escoadouro do minério
extraído de Carajás e o porto de Pecém, no Ceará, tornou-se o principal porto do Meio-Norte
nordestino depois de Itaqui, sobretudo após se concluírem as obras do braço norte da
Ferrovia Transnordestina.
Do litoral da Paraíba ao Recôncavo Baiano, a paisagem litorânea dos manguezais
passa a predominar; não é para menos que a cidade de Recife é conhecida como “MangueTown”. O mangue é um dos ecossistemas mais biodiversos do mundo, sendo fundamental
para evitar o assoreamento dos rios que deságuam no oceano, embora a degradação
ambiental esteja a ameaçar a existência desse rico ecossistema. O litoral norte da região
Nordeste é o mais apreciado em matéria de turismo. Além das famosas praias de Porto de
Galinhas, Sauípe e Forte, vale destacar o arquipélago de Fernando de Noronha, que vem
sendo explorado turisticamente com cautela, além da Reserva Biológica do Atol das Rocas,
situada relativamente próxima ao arquipélago, destinada somente à pesquisa científica.
Seguindo mais ao sul, do litoral sul da Bahia até o norte do Espírito Santo,
encontramos a região em que outrora se configurava a Mata Atlântica de planície. É de se
destacar o arquipélago dos Abrolhos – na altura da cidade de Caravelas, na Bahia –, que
abriga o Parque Nacional Marinho homônimo, sendo um importante santuário destinado à
reprodução de peixes, aves e mamíferos marinhos. A cerca de 1.000 quilômetros do litoral
capixaba, situam-se as Ilhas da Trindade e Martim Vaz, sendo a primeira delas uma estação
naval da Marinha do Brasil. Nela, desafortunadamente, introduziram-se cabras, há quase
dois séculos, que praticamente extinguiram a vegetação original.
Do sul do Espírito Santo ao sul de São Paulo, a vegetação de Mata Atlântica – ou o
que restou dela – convive com os manguezais. É uma região mais heterogênea, pois
compreende as formações lacustres do litoral norte fluminense, as escarpas oceânicas
próximas à baía de Guanabara e a Serra do Mar, cujas formações serranas praticamente
desembocam no oceano. É a região mais dinâmica do litoral brasileiro, não só por
compreender três regiões metropolitanas (Vitória, Rio de Janeiro e Santos/Baixada Santista),
mas também por abrigar o maior complexo de extração de petróleo e gás natural do país
(Bacia de Campos), fato que re-dinamizou a economia do estado do Rio de Janeiro, que se
encontrava em decadência após a transferência da capital federal para Brasília. A ocupação
imobiliária na região é intensa e é fator de grande preocupação para que se mantenham os
escassos traços de Mata Atlântica nativa e os frágeis, mas não menos importantes,
manguezais.
Por último, no litoral da região Sul, no Paraná e em Santa Catarina verifica-se um
prolongamento da Serra do Mar, com sua vegetação exuberante até a altura da ilha de Santa
Catarina, área que abriga grandes portos, como Paranaguá e Imbituba. Já em direção ao
Rio Grande do Sul, temos um litoral escarpado, chamado pelos navegadores espanhóis que
ali chegaram, há séculos, de acantilados, i.e., falésias constituídas pelo afloramento de
rochas cristalinas moldadas pela atividade das ondas. Esses acantilados tornar-se-ão
freqüentes no restante do litoral atlântico sul-americano em direção à Patagônia. Na altura
da cidade de Osório, no Rio Grande do Sul, até o arroio Chuí, observa-se interessante
ambiente lacustre, de vegetação ciliar rasteira e arbustiva (Lagoa dos Patos, Lagoa Mirim
etc.), com abertura ao oceano, a servir de pouso para aves migratórias, sobre as quais,
hodiernamente, deposita-se certa preocupação, em virtude do risco de propagação da gripe
aviária. No que tange à atividade portuária, vale destacar o Porto de Rio Grande, na
abertura da Lagoa dos Patos, e a cidade de Porto Alegre, na foz do rio Guaíba, que são os
principais escoadouros da porção extrema meridional do país.