A lavoura cafeeira foi o objetivo da ocupação de vastas áreas do território brasileiro.
Apresente uma cronologia do movimento de expansão dessa cultura, identificando as regiões
incorporadas no processo e caracterizando as relações de produção dominantes nos distintos
períodos.
Padrão de Resposta
O café não é nativo do Brasil mas encontrou em solo brasileiro condições singulares
para o desenvolvimento da lavoura. Embora a pauta de exportações brasileira não se
concentre mais na produção de café, o país ainda figura como principal exportador do
produto, em decorrência da abundância de terras, de condições climáticas favoráveis e da
mecanização da produção. Esse panorama é deveras distinto daquele observado no início do
século XIX, quando a lavoura cafeeira foi instalada na região do Vale do Paraíba
fluminense. De uma produção rudimentar, que acarretava o empobrecimento dos solos, o
café tornou-se objeto de produção agrícola cientifizada,, desenvolvida em solos de alta
fertilidade.
Durante a primeira metade do século XIX, o café se transforma de cultura de pouca
importância em cultura dominante na região fluminense, ensejando a formação da classe dos
“barões do café”, de grande influência na política do Império. Utilizando-se de mão-de-obra
escravista, a produção do café requisitava capital inicial considerável (a colheita só ocorria
cerca de 4 anos após o plantio) oriundo, em grande parte, da renda gerada pelo comércio de
escravos. A cultura de café era freqüentemente intercalada com a produção de gêneros de
subsistência, como a mandioca, mas se caracterizava pela produção extensiva e pela
precária tecnificação. O esgotamento dos solos da região do Vale do Paraíba propiciou o
deslocamento da produção para o Oeste Paulista, onde terras ricas em basalto, de grande
fertilidade, foram ulteriormente denominadas de terra rossa (terra roxa) pelos imigrantes
italianos que viriam a trabalhar nessas lavouras.
Em contraste com os “barões do café”, os produtores paulistas seriam denominados
de “burgueses do café”, devido ao emprego de métodos de produção capitalistas. Observa-se
a consolidação do meio técnico, com a implantação do arado, de métodos para revolver a
terra e do uso de depolpadoras. O deslocamento da produção ganha ímpeto nos anos de 1870
e contribuiria para desestabilizar a base de apoio político da monarquia. Cientes da
inevitável suplantação do regime escravista, os cafeeiros se congregaram para subsidiar a
vinda de mão-de-obra imigrante. A fundação do Departamento de Imigração e Colonização
de São Paulo é um marco nesse processo, e os anos de 1880 testemunhariam o massivo
influxo de imigrantes, direcionados principalmente para as lavouras de café. A grande
fertilidade do solo e a tecnificação da produção tornaram o café principal produto da pauta
de exportações brasileiras na virada para o século XX.
No início do século XX, a produção cafeeira se eleva devido à política de valorização
do café, cujo início remonta ao Convênio de Taubaté, de 1906. Essa política estimulou
sobremaneira a expansão da lavoura cafeeira, acarretando a “socialização das perdas” dos
cafeicultores, na nomenclatura do Celso Furtado. Novas levas de imigrantes são
incorporadas à produção, como destaque para os japoneses a partir de 1908. A cafeicultura
também se espraia gradualmente para o noroeste paranaense, onde a continuidade da terra
roxa propicia a elevação da produção. A instalação de estradas de ferro, ainda no século
XIX, revoluciona os métodos de escoamento da produção, antes dependentes do transporte
sobre mulas. A estrada de ferro Santos-Jundiaí torna-se meio de circulação, e cidades como
Ribeirão Preto e Sorocaba são incorporadas à malha ferroviária, provocando adensamento
dos fluxos com base na instalação de sistemas de engenharias (os fixos, na denominação de
Milton Santos).
A expansão da cafeicultura, todavia, chegou à saturação com a crise de 1929 e o
arrefecimento da exportação. O governo instaurado em 1930 decide adotar uma política de
queima de estoques de café, de modo a manter a renda monetária da lavoura cafeeira e
utilizar-se dos excedentes acumulados na produção para o desenvolvimento da indústria.
Observa-se, portanto, um estímulo efetivo para a transição da produção agrícola para a
industrial, de forma que o café não ocuparia mais papel predominante para a economia do
país. A lavoura cafeeira não seria abandonada, sendo inclusive objeto da política agrícola de
Kubitschek nos anos de 1950, mas a verdadeira modificação nas relações de produção
ocorreria durante o regime militar.
No período pós-1964, instaurou-se o modelo da agroindústria, ressaltada por José
Graziano da Silva, com intensa mecanização da produção e aumento da concentração
fundiária. Créditos rurais e subsídios agrícolas foram utilizados na geração da Revolução
Verde brasileira, que incluiu também a lavoura cafeeira. Previamente utilizando-se de mãode-obra intensiva, a cafeicultura beneficia-se com a cientifização e quimização do campo
(uso de semoventes e de defensivos agrícolas), liberando mão-de-obra que migraria para as
cidades e engrossando as fileiras do êxodo rural. O sul de Minas Gerais se beneficiaria dessa
transformação, abrigando até os dias de hoje a cafeicultura agroindustrial (destaque para a
região de Patos de Minas), onde se observa um transbordamento da produção para o CentroOeste.
No contexto contemporâneo, a produção do Espírito Santo também ganha relevo,
ocupando o posto de um dos principais Estados produtores. O fenômeno da agroindústria é
observado por meio do estímulo à produção industrial a jusante (indústria de tratores,
arados mecânicos, pesticidas) e a montante (produção de café solúvel) da lavoura cafeeira,
de modo que as plantações de café se encontram hoje plenamente integradas ao modelo
industrial. A cafeicultura tem por base, portanto, a relação de produção capitalista, em que a
agricultura familiar tem significado diminuto. Como as outras culturas de exportação, a
produção cafeeira vem ganhando espaço em relação à produção de gêneros de subsistência
(feijão, mandioca), cujo declínio relativo na produção agrícola nacional é notável. Isso se
deve ao fortalecimento econômico dos poucos produtores que controlam essas áreas de
lavoura, integrados aos interesses da indústria agrícola.
A produção de café sofreu significativas transformações no decorrer de cerca de dois
séculos de cafeicultura brasileira. Inicialmente baseada na mão-de-obra escrava e na
produção rudimentar, despreocupada com o incremento da produtividade dos solos, a
cafeicultura configura hoje exemplo premente de agricultura altamente mecanizada, típica
das culturas de exportação brasileiras, empregando reduzida mão-de-obra. Locais
tradicionais de plantação foram suplantados por outros onde o meio técnico-científicoinformacional pôde se instalar diretamente sobre o meio natural, ensejando a agricultura
cientifizada que propicia níveis expressivos de produtividade do café.