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Padrão de Resposta
Quando da instalação em peso da indústria automobilística no Brasil, em meados do
século XX, São Paulo já era, de longe, a zona industrial mais dinâmica do país. A maior
presença de infraestrutura, serviços, mão de obra e mercado consumidor fez da Região
Metropolitana de São Paulo a área preferencial para a instalação da indústria
automobilística que aportava no Brasil naquele momento. Nas décadas seguintes, essa
supremacia se consolidou, a ponto de gerar uma concentração de mais de 75% da produção
nacional de automóveis no subespaço paulista. Trata-se do processo tradicional de
concentração verificado no Brasil, em que a modernização prévia do espaço atrai as
atividades mais modernas, ampliando ainda mais as desigualdades entre as diversas
localidades do território nacional.
A diminuição da participação paulista na produção automobilística nacional, a partir
de então, pode ser explicada pelas chamadas “deseconomias de aglomeração”: com a alta
dos custos de vida, a mão de obra se torna extremamente cara; a especulação fundiária dos
centros urbanos encarece brutalmente os terrenos; o crescimento populacional e econômico
gera congestionamentos e aumenta as despesas com transporte. Nesse contexto, a alocação
industrial passa a privilegiar novas zonas, que contem com a infraestrutura necessária mas
não sejam ainda alvo desses problemas. É o que se denomina, comumente, de
desconcentração industrial.
Esse processo de desconcentração é amplificado, na década de 1990, pela agudização
da chamada “guerra dos lugares”. Áreas até então pouco expressivas como zonas de
produção industrial buscam compensar suas deficiências por meio de uma política agressiva
de benefícios fiscais, incluindo a isenção de tributos e a concessão de subsídios, além de
acenarem com a construção de infraestrutura moderna. É esse o caso, por exemplo, da Ford
na Bahia, da Peugeot em Porto Real e, já há algum tempo, da Fiat em Betim.
Isso não significa, no entanto, que essas novas indústrias tenham-se deslocado de São
Paulo para ocupar novas áreas. Na maior parte dos casos, como nos três exemplos citados
acima, trata-se de novas fábricas que, ao invés de optar pela tradicional área industrial
paulista, preferiram buscar novos espaços, em busca de ganhos comparativos. É verdade que
há, também, o caso de indústrias que se deslocam de São Paulo para novas áreas, buscando
evitar as deseconomias de aglomeração (o próprio ABCD paulista já foi abandonado por
muitas indústrias de automóveis), mas essas perdas são superadas pelos ganhos resultantes
do aumento de produtividade. Dessa forma, o fenômeno de desconcentração industrial é
apenas relativo: o aumento da produção em outras áreas diminui a participação paulista na
produção total, mas não representa uma queda da produção automobilística de São Paulo em
números absolutos.
Essa relativização do processo de desconcentração também pode ser atestado em
maior escala: a maioria das fábricas que, de fato, deixam São Paulo irá se alocar no que
Milton Santos e Maria Laura da Silveira chamam de “Região Concentrada”. Afinal, a
discrepância ainda é gritante no que tange à infraestrutura, permitindo que os municípios da
região tenham melhor sucesso na “guerra dos lugares”. Na indústria automobilística, em
especial, a fábrica da Ford na Bahia, acima citada, é uma das poucas exceções.
O processo de desconcentração industrial pode induzir à ideia de que a enorme
desigualdade regional verificável no território brasileiro poderia, enfim, ser superada. No
entanto, uma análise mais pormenorizada leva à conclusão contrária: de um lado, as áreas
industriais tradicionais mantém seu habitual poderio, com destaque para a Região
Metropolitana de São Paulo; de outro, a discrepância infraestrutural entre as regiões
brasileiras leva a uma “desconcentração concentrada”, que não beneficia as regiões
periféricas deprimidas. A superação dessa desigualdade só será possível mediante a atuação
do governo no sentido de dotar essas áreas de condições de atração das atividades mais
modernas, permitindo, ao menos, que elas participem da “guerra dos lugares” em igualdade
de condições.