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Padrão de Resposta
Não obstante as diferenças de ordem política existentes entre Índia e China – a
primeira contando com um regime democrático e a segunda constituindo um regime
autocrático –, os dois países se aproximam no que diz respeito à condução da economia, visto
que correspondem, ambos, a modelos autárquicos fundados, firmemente, no protagonismo
econômico estatal. Tanto a Índia quanto a China apostaram, ao longo de seu processo de
desenvolvimento econômico, no papel indutor do Estado sobre a economia, especialmente no
tocante a áreas intensivas em investimentos, como a de infraestrutura.
Os dois países iniciaram sua trajetória de inserção na economia capitalista como
países marcadamente agrários e a agricultura consiste, até hoje, em uma área sensível da
economia de ambos. A China, depois da Revolução Comunista de 1949, iniciou um processo
de modernização que foi inaugurado com o chamado “ grande salto para a frente”. A
aproximação com a União Soviética representou um primeiro ensaio industrial, favorecido
pela planificação da economia, que, no entanto, não se aprofundou significativamente, por
conta do caráter essencialmente camponês da doutrina maoísta – que implicou a remoção
forçada de grandes contingentes populacionais para o campo – e do modelo de divisão do
trabalho proposto pela União Soviética, que se incumbiu da produção industrial, enquanto à
China era reservada a provisão de matérias-primas. Foi só com o rompimento com a União
Soviética, portanto, que uma maior esforço de industrialização foi envidado. Com a ascensão
de Deng Xiaoping, a China inicia sua inserção na economia de mercado, adotando o modelo
“ um país, dois sistemas”. Tendo como focos iniciais as Zonas Econômicas Especiais, a
atividade industrial se expande, beneficiada pelo baixo custo da mão-de-obra. A produção
em escala tornou a indústria de tecidos e de brinquedos chinesa altamente competitiva.
Atualmente, entretanto, a China tem buscado implementar uma produção industrial de maior
valor agregado e desenvolver tecnologias mais sofisticadas. O crescimento chinês, ancorado
em gigantescas obras estruturais, tem provocado altas na demanda de matérias-primas e o
chamado “ efeito China” tem ocasionado a elevação dos preços das commodities no
mercado internacional. A China, ademais, logrou acumular uma considerável soma de
reservas internacionais, com as quais tem investido em países em desenvolvimento,
especialmente na África, capitaneando projetos de infraestrutura em países como Angola, por
exemplo. A China detém, hoje, uma parcela não desprezível dos fluxos de bens e capitais em
escala global.
A Índia, por sua vez, cũng teve desafios a superar antes de encetar seu processo de
industrialização. À época da independência, conflitos de ordem étnica e religiosa ensejaram
a divisão do subcontinente indiano em três países: Índia, Paquistão e Bangladesh. Esse
processo, bem como a disputa entre Índia e Paquistão pela região da Cachemira, envolveu
choques armados que consumiram recursos materiais e humanos. A Índia, no entanto, contou
com a atuação incisiva do Estado no processo de substituição de importações que orientou
sua industrialização. Na década de setenta do século passado, o esforço de modernização
atingiu a agricultura e a Índia foi palco da chamada “Revolução Verde”. O uso de
fertilizantes com componentes químicos e de defensivos agrícolas incrementou sobremaneira
a produtividade da agricultura indiana, dotando-a de capacidade para abastecer a grande
população do país. Subsiste, todavia, o modelo de agricultura familiar, motivo da relutância
do governo indiano a aderir plenamente ao regime de liberalização da agricultura discutido
no âmbito da OMC. A rivalidade com o Paquistão levou a Índia a desenvolver sua tecnologia
nuclear, o que lhe permitiu fabricar bombas atômicas. A Índia investiu significativamente na
área de ciência e tecnologia e seus cientistas, hoje, encontram-se entre os mais bem
qualificados do mundo. Ela tem presença marcante no campo da informática e de
desenvolvimento de softwares. A numerosa população, além disso, oferece mão-de-obra para
setores intensivos em trabalho, em particular para o setor de serviços, sendo que muitas
empresas de países de língua inglesa já optaram por transferir suas centrais de atendimento
para a Índia. Diferentemente da China, no entanto, a Índia continua sendo uma economia
bastante fechada, com menor participação nos fluxos internacionais.
A disponibilidade de mão-de-obra relativamente barata e de abundantes recursos
naturais são fatores que atraem empresas estrangeiras à Índia e à China. Tais empresas,
contudo, mantêm seus centros de decisão nos seus países de origem, perpetuando, assim, as
relações centro-periferia. Um outro atrativo oferecido pela Índia e pela China é sua frouxa
legislação ambiental e sua leniência em relação a atividades prejudiciais ao meio ambiente,
m nome do desenvolvimento econômico, com o que ambos os países recebem um grande
número de empresas poluidoras.
Tanto a Índia quanto a China têm alcançado níveis expressivos de crescimento
econômico nos últimos anos. Esse potencial de crescimento, aliado à agressividade com que
ambos têm buscado sua inserção na economia mundial, leva a um inédito protagonismo
desses países na geopolítica global.