×
Padrão de Resposta
O Brasil é considerado “celeiro agrícola” do mundo, muito embora a área destinada
à agricultura no país seja ainda pequena, relativamente a países como China e Estados
Unidos. Não mais do que 20% do território brasileiro destina-se à produção agrícola, mas as
taxas anuais de crescimento da produção superam a média mundial. A agroindústria
brasileira, altamente intensiva, mecanizada e competitiva no mercado global, esbarra em
entraves existentes para a expansão das terras agricultáveis.
Desde a Colônia, o Brasil caracteriza-se por ser país agroexportador. Sem encontrar
minerais preciosos, os portugueses introduziram a cultura da cana-de-açúcar para povoar a
terra. Estabelecida nas franjas litorâneas, a cultura perduraria até depois da independência
e dos ciclos do ouro e do café, embora com menor importância na pauta exportadora. O café,
no Vale do Ribeira e depois no Oeste Paulista, adentrou um pouco mais o território. O
algodão no Maranhão, o cacau no sul da Bahia e a borracha na Amazônia eram núcleos do
arquipélago territorial de então. As características de equatoriedade e de tropicalidade do
Brasil, com alta incidência solar e abundância de recursos hídricos, além da presença de
terras férteis, como os latossolos massapé e terra roxa, favoreceram a agricultura brasileira,
que servia a lógica “alienígena” e “extrovertida” (Milton Santos).
Hodiernamente, a pauta exportadora brasileira também apresenta produtos agrícolas
no topo, como a soja, embora a agricultura componha hoje parcela bem menor do PIB
brasileiro. A economia do país é mais diversificada e o Brasil exporta produtos de alto valor
agregado, como aviões da Embraer. Os produtos agrícolas continuam a ser produzidos em
grande parte do Brasil. Na atualidade, contudo, as técnicas evoluíram muito.
Desde os anos da década de 1940, a Revolução Verde melhorou os maquinários e
fertilizantes, a montante da cadeia de produção agrícola. Nos anos de 1970, surgem os
complexos agroindustriais no Brasil, como define Francisco Graziano: a indústria a
montante do processo agrícola e a jusante, de beneficiamento dos produtos. A agroindústria
pôde acelerar os tempos da natureza e introduzir o meio técnico-científico-informacional no
campo. No Brasil, a criação da EMBRAPA, em 1972, evidencia esse fenômeno. A soja, por
exemplo, passou a ser cultivada nos ácidos solos do Centro Oeste por meio do método
conhecido como calagem. Essas tecnologias permitiram que a agricultura brasileira se
tornasse altamente intensiva e ocupasse áreas mais exíguas, embora subsista agricultura
familiar no Sul e no Nordeste baseada em técnicas mais simples – há “acumulação desigual
de tempos” no espaço, de acordo com Milton Santos.
Um dos entraves atuais para expansão de terras agrícolas, contudo, é a existência de
grandes latifúndios improdutivos. Muitas vezes, a produção de alimentos concentra-se em
uma pequena parte dessas terras e destina-se à exportação, ao contrário da produção
familiar nordestina (mandioca, feijão) e sulina, que abastecem o mercado interno. A
especulação fundiária prejudica a expansão da agroindústria e a reforma agrária constitui
questão de difícil dirimição política no Brasil.
Outro empecilho para a expansão das terras agricultáveis é a pecuária altamente
extensiva no Brasil. O gado criado solto em largas pastagens pode ser uma vantagem
comparativa, pois evita problemas como o da “vaca louca”, mas também devasta vegetações
e ocupa grandes espaços que poderiam ser utilizados para expandir terras agricultáveis.
Um terceiro quesito que dificulta a expansão de terras agricultáveis é a prudente
política de conservação ambiental. Em 2000, o SNUC – Sistema Nacional de Unidades de
Conservação – estabeleceu no Brasil áreas preservacionistas, como estações ecológicas, e
áreas conservacionistas, como as florestas nacionais (flonas), a fim de conter problemas de
devastação ambiental, como o desmatamento. O bioma biodiverso da Amazônia é ameaçado
ao longo da BR-364, “rodovia da soja”, onde observa-se o desmatamento “espinha de
peixe”. Ao longo da BR-163, o gado pasta livremente no sul do Pará, estado que emite muito
CO2 devido ao desmatamento.
Os parques nacionais podem conter essa devastação, como bem exemplifica o Parque
Indígena do Xingu, no norte do Mato Grosso, uma mancha verde em meio a região devastada
pelo cultivo mecanizado da soja. Cabe diferenciar parques preservacionistas, como o Xingu,
de áreas conservacionistas, como as flonas, em que atividades econômicas de
desenvolvimento sustentável são permitidas.
Dessa feita, latifúndios improdutivos, pecuária extensiva e a questão ambiental são
exemplos de entraves para a expansão de terras agricultáveis no Brasil. No entanto, mesmo
assim as taxas anuais de crescimento da produção de alimentos são elevadas, porque a
agroindústria brasileira é altamente produtiva e competitiva no mercado de commodities
globais, caracterizado por subsídios de nações desenvolvidas, do qual a PAC- Política
Agrícola Comum – européia é exemplo. Há produção familiar com técnicas arcaicas, mas a
produção de soja no Mato Grosso, de cana-de-açúcar em São Paulo, de manga e de melão no
Rio Grande do Norte e de café em Minas Gerais evidenciam quão intensiva e mecanizada
pode ser a agricultura brasileira.