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Padrão de Resposta
A Questão Palestina é dos temais mais complexos das relações internacionais atuais,
porque entrelaça aspectos econômicos, políticos, culturais e religiosos. Dentre as diferentes
condicionantes do problema, um dos mais sensíveis é o do direito de retorno dos refugiados
palestinos e seus descendentes. Durante a gestão Clinton nos EUA, chegou-se a avançar
bastante no projeto de criação do Estado Palestino, mas a recusa de Yasser Arafat em aceitar
e extinção do direito de retorno, condição exigida pelos israelenses, entravou as negociações.
Atualmente, a retomada das negociações em um quadro internacional tenso soma-se
às dificuldades materiais de se chegar a um acordo. As duas regiões palestinas, a Faixa de
Gaza e a Cisjordânia, são áreas altamente povoadas, também porque foram destino de
refugiados do território israelense nas duas grandes diásporas palestinas, após a criação do
Estado de Israel, em 1948, e após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Se, por um lado, o
retorno dos milhões de refugiados não poderia ser revertido para os territórios atualmente
controlados por palestinos, o retorno aos territórios originalmente ocupados por Israel, onde
assentamentos e colônias foram implantados, e que é o que os palestinos reivindicam, suporia
uma pressão demográfica sobre os recursos naturais e uma disputa pelas parcas terras
agriculturáveis tendentes a levar a graves conflitos.
Tal retorno maciço exacerbaria, ainda, a disputa por recursos hídricos que já ocorre
no Estado de Israel, em que as populações palestinas acusam o Estado de desviar volumes
desproporcionais de águas da região, especialmente do Rio Jordão, para os modernos
projetos de agricultura irrigada israelenses, resultando em disparidade no consumo entre
palestinos e israelenses, com grave prejuízo para os primeiros. Tal disputa, em caso de
pressão demográfica ainda maior sobre os recursos, levaria à tentativa de tomada do
controle das fontes, hoje israelense, ensejando sérias consequências.
Há ainda outra questão relacionada à demografia palestina, mas de ordem política.
Com um crescimento vegetativo muito inferior ao das populações palestinas, o povo judeu já
pressente o crescente protagonismo dos palestinos com cidadania israelense e direito a voto
na vida política do país. O retorno dos refugiados, que só faria sentido em caso de concessão
de direitos civis, políticos e sociais equivalentes, criaria uma súbita mudança na correlação
de forças eleitorais do país. Há o medo da polarização brusca que seria causada e da enorme
mudança no sistema político; se minorias tornarem-se maiorias, o próprio sentido de um
“Estado para o povo judeu”, que motivou sua criação, ficaria comprometido.
O povo israelense tem um direito histórico de retorno às terras de que saíram,
semelhante ao reivindicado pelos sionistas quando da criação de Israel, mas muito mais
recente. No entanto, no atual quadro de polarização e mesmo de ódio entre os dois povos, o
exercício desse direito em bases completas causaria seríssimos conflitos. O entendimento
prévio sobre questões relativas a disputas econômicas e políticas decorrentes da enorme
pressão demográfica resultante seria imperativo, assim como o tratamento realista de
quantos, e para onde, refugiados poderiam voltar.