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Padrão de Resposta
As manchas de elevada fertilidade natural verificadas no território foram exploradas pelas
mais tradicionais culturas brasileiras: a cana de açúcar e o café, especialmente o do Oeste
Paulista. As expansões dessas duas culturas foram, respectivamente, essenciais para
definição do modelo de colonização nacional e, ainda, para a expansão da fronteira agrícola,
para a industrialização e para a urbanização, no inicio do século XX.
O solo de massapé verificado na Zona da Mata nordestina, especialmente em
Pernambuco, é solo com elevada deposição de matéria orgânica associado aos regimes de
cheias e baixas dos cursos fluviais meândricos presentes no litoral nordestino. A elevada
produtividade da cana de açúcar nessa região viabilizou a exploração comercial da Colônia e
a sua inserção no comércio Atlântico. A sociedade gerada nessa região teve como figura
central o Senhor de Engenho, o grande proprietário que coordenava o regime de produção
baseado no latifúndio, na mão de obra escrava e na monocultura da cana.
De acordo com Sérgio Buarque de Hollanda, essa estrutura social altamente
concentradora de riquezas moldou as bases de nossa sociabilidade cordial, paternalista e
excludente. Ainda para o autor, o patrimonialismo no trato da res publica teria sus raízes
profundas no modelo social erigido sobre os férteis solos de massapé.
De maneira similar, essa sociedade agrária e patriarcal consolidou, ao menos no
Nordeste, o padrão de urbanização concentrado no litoral, que somente começou a ser
modificado com a exploração aurífera e, especialmente, com a interiorização promovida pelo
café. Igualmente relevante é que esse padrão produtivo legou as bases para o modelo
fundiário nordestino altamente concentrado na Zona da Mata e disperso no Agreste e no
Sertão, locais em que ainda hoje persiste a agricultura de subsistência.
Os solos basálticos do Oeste Paulista e Norte do Paraná, cuja origem remonta às
atividades vulcânicas no Mesozóico, chamados de terra roxa em derivação da alcunha terra
rossa que lhe foi dada pelos imigrantes italianos, serviram de suporte para o café. Essa
cultura agrícola foi fundamental para a industrialização, urbanização e interiorização do
Brasil, tendo empregado amplamente mão de obra imigrante.
Ao contrário da cana de açúcar, o café não tinha produção autárquica, demandando
insumos e favorecendo a construção de infraestruturas de apoio. O café estimulou a
indústria direta ou indiretamente por meio da transferência de capitais auferidos com essa
cultura para a indústria. Ao contrário dos Senhores de Engenho, os empresários do café
habitavam nas cidades e reinvestiram seus lucros na expansão industrial, especialmente em
São Paulo. Além disso, a comercialização do café gerou externalidades significativas como:
ferrovias, armazéns, criação de casas bancárias e comerciais. A expansão do café para
acompanhar os solos férteis permitiu a crescente interiorização do território que se integrava
ao exterior por meio das estradas de ferro. Complementarmente, a utilização do trabalho
imigrante permitiu a incorporação de novos padrões de consumo e lançou as sementes do
mercado interno nacional. Mesmo após a relativa decadência do café com a Crise de 1929,
essa cultura continuaria sua trajetória de expansão para atingir Londrina e Maringá, nas
décadas de 1940 e 1950. Além do crescimento de São Paulo, o café foi fundamental para a
dinamização do Noroeste do Paraná.
Guardadas suas respectivas diferenças, a cana de açúcar e o café foram basilares
para a formação econômica e social brasileira. A primeira cultura viabilizou economicamente
a empresa colonial, ao passo que a segunda criou as condições materiais e financeiras da
sociedade urbana e industrial contemporânea. Os solos férteis de massapé e a terra roxa
ajudam a compreender a dinâmica de expansão territorial dessas culturas.