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Padrão de Resposta
Para Milton Santos e Maria Laura Silveira, existem quarto macrorregiões no Brasil:
Norte, Nordeste, Centro-Oeste e região concentrada, que engloba o Sul e o Sudeste. A lógica
dessa regionalização foi a polarização histórica do centro dinâmico do país e sua relação com
áreas deprimidas, periferias e fronteiras. A desconcentração incompleta da economia
brasileira fez que essa divisão ainda impere; as dinâmicas atuais, porém, complexificam os
fluxo e redirecionam os vetores, de modo que se pode observar, em certos espaços, uma
nova regionalização do território brasileiro.
A região concentrada é constituída pelos Estados do Sul e Sudeste e caracteriza-se
pela densidade de sistemas técnicos, dinamismo econômico-industrial, a polaridade e
integração à ordem econômica global. Passa, por um lado, por processo de desconcentração
concentrada, com a reterritorilização intrarregional das indústrias. Sintomático é o dado de
que São Paulo e Rio Grande do Sul estavam entre os cinco Estados cujo número de empresas
mais aumentou, ambos de industrialização tradicional. Assim, trata-se do espaço do mandar
brasileiro, que articula e coordena as demais regiões. As principais metrópoles, São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, segundo o último REGIC, apresentam
abrangência significativa para além dos limites estaduais, muitas vezes a despeito de cidades
mais próximas.
Área tradicionalmente deprimida, a região Nordeste consiste em região de ocupação
antiga, com grandes rugosidades econômicas, bem como sociais, mas que sofre surto muito
recente de industrialização. A chamada “guerra dos lugares” e as economias de aglomeração
possibilitam certo transbordamento de capitais da região concentrada. O modelo de
industrialização, no entanto, é alienado da tecnologia e pouco integrado ao espaço que
ocupa. As rugosidades, por sua vez, dificultam a fluidez do capital e a maior interiorização do
desenvolvimento. A articulação entre Nordeste e Norte tem ocorrido, nos últimos anos, por
meio da integração física, com a construção de linhões que ligam Tucuruí ao sistema CHESF,
a interligação do gasoduto a ligações rodoviárias e ferroviárias ainda projetadas. Com o
Centro – Oeste, por sua vez, passa a ter pontos de contato em sua hinterlândia, com a
expansão da soja às franjas da Caatinga na região do Bico do Papagaio, entre Maranhão,
Piauí e o sul baiano.
Contrastando as rugosidades nordestinas, encontra-se a Região Norte, zona de
fronteiras brasileira. De ocupação rarefeita e concentrada, constitui “anecúmeno
superpovoado” na expressão de Bertha Becker. À exceção de Manaus, o eixo oeste de Belém
goza de presença industrial quase insignificante, apenas com enclaves mineradoras
extrativistas totalmente desterritorializados. A falta de sistemas técnicos impede a
desconcentração mais contundente para a região, mas novas potencialidades hidrelétricas
tornam-na foz dos excedentes de capital da área core brasileira. O Centro-Oeste também
expande sua fronteira agrícola na Amazônia setentrional e oriental.
A região Centro-Oeste é a região mais articulada à região concentrada, uma vez que
seu dinamismo atual decorre, em grande parte, do transbordamento populacional e
financeiro do Sul e do Sudeste. A ocupação ocorreu pela chamada “diáspora sulina”, que deu
dinamismo ao agronegócio após a adaptação técnica da soja ao Cerrado. É, por sua vez, alvo
prioritário da drenagem de capitais, consistindo em uma “periferia integrada”.
Apresentam-se, assim, duas tendências que levam à reflexão da regionalização
brasileira. Por um lado, o dinamismo do agronegócio e a importância de Brasília e Goiânia
estariam permitindo uma acumulação primitiva de capital e crescimento de modo a integrar
a região Centro-Oeste à região concentrada, conformando-se a ideia de região Centro-sul,
conforme Pedro Geiger. Por outro, a expansão do Centro-Oeste às franjas do Norte e do
Nordeste parece mais ser o transbordamento do capital e da lógica da região concentrada
que uma integração birregional mais igualitária.
Milton Santos tende a concordar com Edward Soja na ideia de que o capitalismo
necessita não só da diferença de classes e da exploração de uma sobre a outra, mas também
da exploração entre regiões e espaços. A regionalização de Santos parece seguir essa lógica,
a região concentrada polariza e coordena as demais regiões, deprimidas, como é o Nordeste,
ou de fronteira, ocupada, no caso do Centro-Oeste, e em processo de fechamento, na
Amazônia. A nova dinâmica capitalista parece reforçar a centralização da área core,
enquanto integra sob sua lógica e seus ditames a região Centro-Oeste, descaracterizando-a.