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Padrão de Resposta
O conceito de frente pioneira foi importante para explicar os processos de ocupação
e de integração de porções do território brasileiro ao que Golbery do Couto e Silva, em obra
sobre a geopolítica do Brasil, definiu como ecúmeno nacional. Esse conceito foi utilizado
para descrever a ocupação de importantes regiões do território brasileiro, especialmente o
movimento de ocupação de áreas mais afastadas e menos integradas à tradicional zona de
ocupação do território nacional, a área próxima à costa. É no contexto da chamada marcha
para oeste que a noção de frente pioneira foi mais utilizada como instrumento de explicação
e descrição da recriação humana de territórios pouco integrados às zonas concentradas,
polarizadas, já naquela época, pelas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Desde então,
não apenas o território nacional passou por profundas mutações, mas também houve
significativa evolução da técnica, que permite a integração de territórios ao ecúmeno,
mesmo sem a ocupação populacional. Desse modo, o conceito de zona pioneira perde parte
de seu potencial explicativo face às realidades contemporâneas, ainda que certos
fenômenos atuais tenham certas semelhanças com fatos de outrora.
Um exemplo clássico do uso do conceito de frente pioneira pode ser encontrado na
obra do geógrafo Pierre Monbeig, que participou da instalação da Universidade de São
Paulo, na década de 1930, e que pesquisou a ocupação do norte do Paraná e do oeste de
São Paulo, no contexto da marcha para oeste. A frente pioneira sucede a frente de
expansão. Esta consiste na simples expansão do que se poderia chamar de fronteira
econômica, por meio da integração de novas faixas de terra ao mercado imobiliário. No caso
do Norte do Paraná, a frente de expansão foi liderada por empreendedores ingleses, que
compraram terra na região e passaram a comercializá-las por meio da Companhia de Terras
Norte do Paraná, o instrumento de integração dessa nova área ao mercado. Desse modo,
houve o loteamento da região e os lotes foram vendidos, inicialmente, para pequenos e
médios agricultores, entre eles, indivíduos que trabalhavam no regime de colonato na
cafeicultura paulista, especialmente imigrantes. Esses pequenos e médios agricultores
foram o que se pode designar propriamente de frente pioneira, movimento que, por meio da
ocupação populacional, integra uma porção do território ao ecúmeno, por meio da produção
agrícola, geralmente. No norte do Paraná, o cultivo do café, um prolongamento da
cafeicultura paulista, foi a base da integração. A frente pioneira norte-paranaense, baseada
na cafeicultura, criou novas cidades, como Londrina (fundada no início da década de 1930),
ligou a região a sistemas técnicos (especialmente de transportes, meio de escoar a
produção) e consolidou a integração da região às zonas mais concentradas do território
nacional.
O conceito de frente pioneira pode ser aplicado a outros movimentos no território
nacional, geralmente inscritos no marco da marcha para oeste. Um exemplo significativo é a
fundação de Brasília, que também contou com uma frente de expansão inicial, que
efetivamente construiu a cidade e estabeleceu as conexões com o resto do país, e com uma
frente pioneira, que promoveu a integração da nova capital, por meio de atividades
econômicas e governamentais, ao ecúmeno. Outro exemplo, este fora do contexto da
marcha para oeste, foi a tentativa de colonização da Amazônia durante a década de 1970.
Nesse caso, houve a frente de expansão, simbolizada pela abertura da rodovia
Transamazônica, porém não houve frente pioneira que consolidasse a integração da região
ao restante do país.
O avanço da técnica transformou a percepção do espaço e os modos de sua
apropriação. Todo o território nacional está, atualmente, mapeado, conhecido, monitorado e
já são planejados os aproveitamentos econômicos de cada região. Nesse contexto, a ideia
de frente pioneira, entendida como movimento populacional para novas áreas que integram
novas faixas do território ao ecúmeno nacional, perde sua força explicativa de certo
fenômeno geográfico, pois, ainda que não ocupado, todo o território está integrado por meio
de sistemas de informação e de gestão, sejam privados, sejam públicos.
Por exemplo, o avanço da soja no norte de Mato Grosso, ocorre de maneira diversa
da expansão do café no norte do Paraná na década de 1930. A expansão que ora acontece
no Mato Grosso é feita com muito mais densidade técnica, científica e informacional, em um
processo que não promove a integração de um território ao ecúmeno. Ao contrário, trata-se
de uma ocupação populacional de um território já conhecido e de integração ao complexo
agroindustrial, por meio de empresas que atuam em escala global.
A frente pioneira foi um meio de promoção da integração nacional, por meio do
aproveitamento econômico e da ocupação de regiões do território. Atualmente, na era do
meio técnico-científico-informacional, todo o território já é conhecido, inclusive em suas
potencialidades econômicas e, portanto, integrado ao território nacional. A ocupação
populacional não é mais uma questão de integração ao ecúmeno, mas, antes, uma decisão
que se funda, principalmente, em um cálculo econômico. Nesse sentido, perde força a ideia
de frente pioneira motivada pelo desbravamento e integração, e ganha destaque a de
movimentos motivados por decisões tomadas nos chamados centros de pensar.