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Padrão de Resposta
A construção de Brasília, ao longo da administração Juscelino Kubistchek, insere-se
em um longo e antigo processo de interiorização do desenvolvimento brasileiro – até então
praticamente restrito às franjas litorâneas. Considerava-se que a mobilização do aparato
governamental para uma região que se encontrava próxima do centro geográfico do
território fomentaria um movimento de descentralização econômica e populacional.
Conquanto o Brasil ainda apresente pontos de excessiva aglomeração, pode-se dizer que
tais objetivos foram alcançados.
Note-se, de início, que uma proposta dessa natureza já fora concebida
anteriormente. Em verdade, há registros desde ao menos a administração do Marquês de
Pombal em Portugal, no século XVIII, de tentativas de levar-se a capital do país para uma
área distante do litoral, região em que historicamente concentrou-se o dinamismo
econômico brasileiro. Também Vargas constatou a necessidade de aprofundar a ocupação
da hinterlândia, consubstanciada na célebre “Marcha para o Oeste”. Concretamente,
entretanto, essas ideias não lograram transferir o centro do governo para regiões afastadas
da costa.
Tal meta realizou-se em um momento no qual a política desenvolvimentista
alcançava seu paroxismo. Lastreado nas teorias de autores como Celso Furtado, Kubitschek
empenhou-se em industrializar o país, por um lado, e articular as diferentes regiões
produtivas que o compunham, por outro lado. Tratava-se de por fim ao desenvolvimento de
“arquipélagos econômicos” no território brasileiro, promovendo a integração por meio de
pesados investimentos em infra-estrutura – um dos eixos do Plano de Metas. Nesse sentido,
a construção de uma nova capital para o país afigurava-se como passo natural a ser dado,
tendo em conta o processo de macrocefalia urbana que já começava a afetar o Rio de
Janeiro e as gigantescas disparidades entre o Sudeste desenvolvido e o restante do
território. Havia, ademais, a percepção de que a manutenção da sede do governo no Rio de
Janeiro contribuiria para a instabilidade institucional, de vez que as últimas eleições
realizadas no país haviam enfrentado ameaças de setores militares. Nesse particular, devese registrar que a mudança não surtiu o efeito esperado, já que, apenas quatro anos depois,
os militares lograram êxito em afastar João Goulart do poder.
A instalação do aparato de governo no coração do território de Goiás ensejou
alterações significativas nos aspectos econômicos, populacionais e logísticos da região. Já
no processo de construção da cidade, registrou-se um enorme afluxo de migrantes
nordestinos, contratados aos milhares para dar conta do ritmo acelerado requerido por
Juscelino. Esses “candangos” – como ficariam conhecidos – instalaram-se em áreas ao
redor do Plano Piloto, dando origem ao que mais tarde constituiria as cidades-satélites.
Nota-se, nesse fenômeno, a fragilidade do planejamento, que não deu conta de atender às
demandas de uma população que obviamente seria requerida para a construção da cidade
e que, marginalizada após o fim das obras, alimentou o processo de favelização no entorno
de Brasília.
O impacto econômico foi bastante relevante. Brasília detém, hoje, um PIB inferior
apenas ao de São Paulo e Rio de Janeiro no território brasileiro, e um PIB per capita que,
entre as capitais, perde apenas para Vitória (ES). Isso deriva, em larga medida, do enorme
contingente de funcionários públicos bem remunerados que se instalaram na cidade para
atender ao aparato governamental. A conseqüência natural de tal processo é a constituição
de um setor de serviços sólido, estruturado em torna da demanda de uma população com
alto poder aquisitivo. É sintomático que a economia de Brasília esteja praticamente repartida
ao meio entre gastos públicos e setor terciário, sem participação relevante da indústria e da
agricultura. Tal prosperidade, entretanto, enseja um outro dado, menos positivo: trata-se da
região com um dos maiores índices de desigualdade do país, resultado da enorme
discrepância entre os salários do setor público e aqueles do setor privado, precarizado pela
economia informal.
É relevante observar que, erigida em um momento no qual o Brasil começava a
adentrar o meio técnico-científico-informacional – nos termos de Milton Santos -, Brasília
desenvolveu-se em estreita associação com o grande centro emanador de técnicas e
informação do território brasileiro – São Paulo. Nesse sentido, pode-se entender a mudança
da capital como a primeira etapa da instalação do meio técnico-científico-informacional no
Centro-Oeste, processo que se aprofundaria nas décadas seguintes com a expansão da
fronteira agrícola rumo ao cerrado e o estabelecimento do agronegócio altamente
mecanizado nas lavouras de soja. O desenvolvimento de Brasília é, portanto, tanto tributário
quanto propagador da revolução tecnológico-industrial que impulsionou o Sudeste ao longo
das décadas de 1950, 1960 e 1970. Esse fenômeno iria ainda mais longe com a instalação,
em 1967, da Zona Franca de Manaus, polo industrial localizado no centro da Amazônia.
Avaliar o êxito dos objetivos da construção de Brasília é tarefa complexa. O mero fato
de haver um dinamismo econômico tão intenso em uma região anteriormente desocupada já
indica que houve efeitos positivos, potencializados pela posterior pujança do agronegócio
nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Ademais, o deslocamento da
capital contribuiu para desafogar relativamente o Rio de Janeiro, que, ainda assim, dá
mostras de saturação urbana. Deve-se notar, porém, que o Brasil de hoje ainda apresenta
uma concentração desproporcional de riqueza nas regiões Sul e Sudeste – as quais Milton
Santos chama de “região concentrada”. A relativa desconcentração industrial que vem
ocorrendo nas últimas não basta para alterar as distorções regionais geradas por séculos de
ocupação litorânea e, a partir do século XVIII, concentração no Sudeste.
Dessa maneira, não resta dúvida de que a concentração econômica e populacional
no território brasileira seria muito mais intensa não fosse a construção de Brasília – o que
basta para, em um país de extremos, comprovar o relativo êxito da empreitada.