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Padrão de Resposta
A região do Sahel africano tem grande importância geopolítica em razão de estar
situada entre a porção norte do continente, majoritariamente muçulmana, e a porção sul,
majoritariamente cristã e animista, de modo que sua posição de interface pode tanto
contribuir para maior interação e integração do continente como um todo quanto pode
representar fratura espacial, bloqueando iniciativas de aproximação entre os países
africanos das duas porções. O fato de ter havido, recentemente, processo de secessão de
país da região (Sudão, dando origem ao Sudão do Sul) incrementa o valor estratégico do
Sahel e sua função de interface. Uma das grandes questões geopolíticas envolvidas é saber
se a secessão promoverá possibilidade de maior interação entre as duas porções africanas
ou se reforçará a fratura continental entre norte e sul.
A secessão ocorreu no Sudão, país rico em petróleo, mas flagelado por desafiadores
traumas sociais. Como resultado do processo de secessão, a porção norte do território
permaneceu como o Sudão, e a porção sul surgiu como o mais novo membro da
comunidade de nações, denominado Sudão do Sul. Após anos de conflitos entre as
populações muçulmanas e nômades do norte (que controlavam todos os recursos
territoriais, inclusive os do sul) e a população de etnias cristãs e animistas do sul, foi
organizado plebiscito para que se escolhesse pela secessão ou pela continuidade dos
vínculos políticos com a administração do norte. A maioria esmagadora da população do sul
(mais de 90%) votou pela secessão, de modo que surgia então o Sudão do Sul.
A princípio, o processo pacífico de secessão, que resultou no plebiscito e na criação
do novo Estado, poderia significar o fim das tensões que, durante muitos anos, agravaram
as condições sociais da região. Infelizmente, subsistem problemas geopolíticos entre Sudão
e Sudão do Sul, os quais, se não forem equacionados, põem em risco a estabilidade da
região do Sahel, o que pode comprometer os esforços de estabilização da África toda, tendo
em vista a posição estratégica de interface do Sahel, do Sudão e do Sudão do Sul.
O principal problema geopolítico entre Sudão e Sudão do Sul se refere ao controle
da região denominada Abiey. Essa região é extremamente rica em petróleo e, por situar-se
no entroncamento entre norte e sul, é reivindicada por ambos os países. Na realidade, a
discórdia se materializa na escolha das regras que determinariam o plebiscito em Abiey.
Essa região tem a particularidade de ser habitada por grupos étnicos pertencentes ao Sudão
do Sul. No entanto, transitam pela região grandes contingentes de etnias nômades, que
possuem maiores vínculos com o Sudão. Desse modo, o resultado do plebiscito em Abiey
sempre dependeu de definir quem estaria habilitado a participar do plebiscito. Se apenas as
populações de etnias cristãs e animistas, fixas na área e vinculadas ao sul, ou se também
as populações nômades (vinculadas ao norte) poderiam votar no plebiscito. No primeiro
caso, é evidente que a vitória é do Sudão do Sul; no segundo, do Sudão. Assim, a disputa
pelo controle de Abiey continua como séria controvérsia entre os Estados. O fato de a região
ser rica em petróleo agrava as tensões, pois introduz na dinâmica local um componente
geopolítico extrarregional, tendo em vista o valor estratégico que o petróleo tem para as
potências econômicas, militares e políticas do mundo globalizado.
Especificamente no Sudão, ainda não foram controladas graves crises humanitárias,
como na região de Darfur, o que implica grandes dificuldades no que tange ao objetivo de
estabilizar a região e fazer que ela se torne faixa de interação entre a porção norte e a
porção sul do continente africano. No caso de Darfur, não se trata de separatismo motivado
por diferenças étnicas, mas se trata de demanda por maior autonomia administrativa por
parte da população de Darfur. A crise humanitária, de qualquer modo, atinge o paroxismo,
na medida em que muitos analistas de direitos humanos afirmam tratar-se de genocídio em
curso.
Tomadas conjunturalmente, essas dificuldades locais maximizam as repercussões
geopolíticas que têm os eventos da região. A sobreposição de camadas de tensões tornase, em seu conjunto, muito determinante para o destino do continente africano, tendo em
vista a posição estratégica do Sudão e do Sudão do Sul. Caso ambos os Estados cheguem
a um consenso a respeito de Abiey, e caso o Sudão equacione adequadamente seus
problemas internos, então terá sido dado passo determinante no desejável projeto de maior
interação africana, em especial entre a porção norte e porção sul do continente. Caso esses
problemas se exacerbem e não se chegue a denominador comum, então a tentativa de
proporcionar maior união continental restará severamente prejudicada.