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Padrão de Resposta
Em 1916 e, portanto, em meio a Primeira Guerra Mundial, França e Grã-Bretanha celebraram, secretamente, o acordo de Sykes-Picot, que definiria a partilha dos territórios do
Oriente Médio em zonas de domínio e influência dos dois países. À época, a grande preocupação era a contenção da Rússia, que ambicionava avançar sobre o território do decadente Império Otomano, com vistas a obter uma saída para mares quentes. Para além do imperialismo
francês e britânico, havia a tentativa de conservar o predomínio inglês nos mares mediante a
contenção da Rússia, que remanesceria, assim, como potência unicamente continental.
Já em 1904, Sir Halford Mackinder havia apresentado diante da Sociedade Inglesa de
Geografia sua tese “O pivô geográfico da historia”. Segundo Mackinder, quem controlasse o
heartland mundial, que indicava como sendo a região compreendida entre o Ártico e o Himalaia, o Volga e o Yang-Tsé, dominaria o mundo. Dominando a maior parcela dessa massa territorial, a Rússia era a grande ameaça à hegemonia mundial inglesa. Tratava-se, com efeito, do
embate entre o urso e a baleia, esta sempre cuidadosa com as saídas para os mares, mas ainda
mais precavida no tocante à chegada de sua grande rival nos mares quentes. Havia sido essa a
motivação subjacente ao conflito da Crimeia em 1853 – o pequeno interregno da pax britânica
do século XIX -, quando o czar russo declarou-se protetor dos povos ortodoxos do cambaleante
Império Otomano, buscando com isso o domínio da saída para o Mediterrâneo. Apenas incorporando parcela do território otomano, poderiam os russos adentrar aquela que era a grande
rota marítima da segunda metade do século XIX, de vez que já em operação o canal de Suez.
Atingiriam, assim, o seu intento, controlando os estreitos de Bósforo e Dardanelos, que lhes
assegurariam a passagem para o mar de Mármara e, dali, para o Mediterrâneo.
Não imaginavam, contudo, que no grande conflito que os espreitava lutariam lado a
lado. As rivalidades anteriores, ainda que postas em suspenso durante o grande conflito mundial, remanesciam latentes, como se comprovou com a divulgação do Acordo de Sykes Picot.
Unindo forças com a França, a Inglaterra definia partilha de todo o território do Império TurcoOtomano e adjacências, chancelado no pós-guerra no tratado de Lausanne. O humilhante retalhamento territorial – os otomanos teriam na Europa tão somente a Trácia Oriental e no Oriente Médio manteriam apenas o Curdistão, além de uma área core deveras reduzida – levou ao
exacerbamento do nacionalismo turco , que encontrou na figura de Mustafa Kemal seu grande
defensor. Kemal lograria anular o tratado de Lausanne e restabelecer o orgulho nacional turco.
No período em que esteve a frente da Turquia, foi responsável por estabelecer as bases do
moderno Estado turco.
Outra grande liderança à época havia sido Lawrence das Árabias, representante do
Estado inglês que havia negociado a autonomia dos povos submetidos ao antigo Império Otomano em troca de sua participação na guerra. As promessas de Lawrence das Arábias estavam,
todavia, em frontal contradição com o que dispunha o Acordo de Sykes-Picot. O lobby judaico
era extremamente forte na Inglaterra, uma vez que integrado pelos grandes financistas da
empreitada bélica britânica, dentre os quais, por exemplo, o Barão de Rotschild. A salvaguarda
do território para o povo judaico na terra prometida era condição incontornável de partilha
territorial no Oriente Médio.
Para além da separação de território que deveria ficar sob a tutela britânica e que viria
a dar origem a Israel no pós-Segunda Guerra Mundial, o acordo de Sykes-Picot estabelecia o
domínio inglês também sobre a região do Iraque e deixava intocado seu domínio sobre o Egito,
acertado com a França em período anterior. À Franca caberia a tutela sobre a Síria e o Líbano.
As divisões entre os domínios britânicos e franceses eram, assim, cuidadosamente delimitadas
de acordo com seus interesses imperialistas, sem que se levasse em conta os interesses dos
povos locais ou mesmo as promessas de Lawrence das Arábias.
Encerrada a guerra, os Catorze Pontos de Wilson pareciam sinalizar em direção oposta
ao acordo das duas potenciais europeias. Entretanto, a menção à autodeterminação dos povos
na maior parte dos casos não ganharia contornos práticos, mormente na divisão dos destroços
do Império Otomano. O sistema de tutelas que seria administrado pela Liga das Nações chancelaria a grande maioria dos dispositivos do Acordo de Sykes-Picot, assegurando, assim, o domínio anglo-francês sobre o Oriente Médio e evitando o avanço da Rússia em direção ao Mediterrâneo.
A despeito da sustentação de algumas lideranças locais, como, por exemplo, a dinastia
hashemita que formaria o governo do Iraque com Faisal a sua frente, tratava-se tão somente
de protogovernos, amparados que eram pelas potências europeias. Ademais, a desconsideração de sentimentos autonomistas de certos grupos, como os curdos – que, dominados à época
pelo Iraque, passaram posteriormente ao domínio da Turquia – ou mesmo os alauitas sírios,
submetidos a longo domínio da maioria sunita até sua ascensão ao poder na segunda metade
do século XX, acirraria as tensões locais. O resultado, no longo prazo, foi a instabilidade que se
observa ainda na contemporaneidade, numa região que se afigura como um mosaico étnico,
cultural e religioso, submetida a longo período de dominação imperialista, a minar as possibilidades da experiência construtiva de auto-organização e governo.
O acordo de Sykes-Picot de 1916 foi apenas o prelúdio de longa história de dominação
externa e instabilidade interna no Oriente Médio. A diversidade étnica, cultural e religiosa na
região, desconsiderada na partilha territorial anglo-francesa, estaria na origem dos diversos
conflitos que ainda hoje emergem no Oriente Médio, para além da questão israelense, cujas
bases seriam postas no pós-Segunda Guerra, acirrando ainda mais as tensões regionais. A
grande preocupação geopolítica de britânicos e franceses à época era tão somente a contenção russa e, desse modo, a preservação de seu poderio.