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Padrão de Resposta
José Graziano define quatro fases do desenvolvimento da agricultura brasileira: a decomposição do complexo rural (1850 a 1890); o complexo cafeeiro paulista (1890-1930); a
integração do sistema agrícola (1930-1960); e a consolidação do complexo agroindustrial (1960
até hoje). Dessa forma, pode-se entender que, antes do avanço da cafeicultura no território
paulista, predominava, no Brasil, o complexo rural, caracterizado pelo fechamento e pela autossuficiência.
O “complexo rural” predominou na agricultura brasileira durante todo o período colonial e parte do século XIX. Esse modelo caracterizava-se pela predominância da mão de obra
escrava, do latifúndio, além de ser voltado, essencialmente, para o mercado externo, caracterizando o “sentido da colonização”, de acordo com Caio Prado Jr. De acordo com esse autor, a
descoberta do Brasil era um capítulo da história da expansão do capitalismo europeu no início
do século XV. Como consequência da implantação desse modelo pelos portugueses, a configuração territorial brasileira ficou definida pela formação do “Brasil arquipélago”, em que havia
pouca ou nenhuma conexão entre as regiões produtoras do país, que se ligavam diretamente
ao centro consumidor europeu.
O ano de 1850 representou um marco para o início da decomposição do complexo rural, devido à aprovação da Lei Eusébio de Queirós e da Lei de Terras. Além disso, durante meados do século XIX, o café, que começara sua expansão pelo Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro,
durante a década de 1830, ganha proeminência na pauta de exportação brasileira. O ano de
1890 é outro marco desse processo, devido à consolidação do Oeste Paulista como principal
centro produtor do café brasileiro, em cidades como Taubaté e Araraquara.
Em 1890 dá-se, portanto, o início da fase do complexo cafeeiro paulista, que José Graziano da Silva define como momento de transição, devido às transformações introduzidas no
campo. A inovação básica introduzida foi a mão de obra assalariada, abastecida, principalmente, pela mão de obra composta por imigrantes italianos, alemães e, já no século XX, japoneses.
Após a lei Eusébio de Queirós, a importação de escravos para o Brasil tornou-se cada vez mais
cara, incentivando a atração de imigrantes europeus. Primeiramente, tentou-se atrair imigrantes por meio do sistema de parcerias, de iniciativa privada, como demonstram as tentativas do
Senador Vergueiro. Devido ao fracasso dessas tentativas, o estado de São Paulo tomou a frente das iniciativas de atração de imigrantes no final do século XIX. Com a abolição, o Estado
brasileiro também envolveu-se em tal política.
Outro aspecto relevante do complexo cafeeiro paulista é sua ruptura com o fechamento característico do complexo rural. No final do século XIX, notou-se um movimento de integração incipiente do núcleo produtor com os centros financeiros e o porto exportador. Essa
integração é explicada, principalmente, pelo desenvolvimento pelo sistema de transportes,
especialmente das ferrovias. A estrada de ferro Jundiaí-Santos, por exemplo, demonstra um
dos aspectos da evolução tecnológica, em região onde o transporte era feito, anteriormente,
por mulas. Nesse sentido, nota-se também que a cafeicultura paulista buscou aproveitar melhor o solo fértil (solo basáltico ou “terra rossa/roxa”), por meio de sua conservação, em vez de
empreender a expansão vertical radical e a degradação do solo que havia sido levada à cabo
no Vale do Paraíba, e, por fim, levou à decadência da região. O último aspecto relevante do
complexo cafeeiro como ponto de inflexão foi o uso do capital excedente no desenvolvimento
incipiente da industrialização, o que explica a posição de São Paulo como grande polo industrial no início da industrialização brasileira.
Em suma, enquanto o complexo rural fez uso da mão de obra escrava, pouca inovação
tecnológica (predominância do “meio técnico”) e foi essencialmente fechado, o complexo cafeeiro paulista caracterizou-se pela mão de obra assalariada (principal revolução da economia
brasileira, segundo Celso Furtado), pela inovação tecnológica, pelo desenvolvimento dos
transportes e o investimento na indústria. A ruptura com o isolamento abriria caminho para a
expansão da industrialização brasileira, após o enfraquecimento do modelo paulista com a
crise de 1929.