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Padrão de Resposta
Estima-se que, em 2008, mais de 50% da população mundial tornou-se urbana. Tal
número agregado, contudo, dissimula variabilidades complexas na relação de concentração
populacional urbano-rural no mundo. Em certas localidades, diversos fenômenos contribuem
para a estabilização do processo de aumento relativo da concentração populacional no meio
rural, mas, em outros, prossegue acelerada urbanização.
Uma das variáveis contemporâneas é o esgotamento do potencial de êxodo rural. Esse
fenômeno é claro na América Latina, a região mais urbanizada do mundo, com mais de 80% da
população vivendo em cidades. O Brasil, cuja urbanização atinge 84,4% da população, tem
concentrações urbanas que dependem do meio rural para seu abastecimento. Essa rede de
interdependência urbano-rural cria novos incentivos, estimulados inclusive pelo Estado, para
manter os agricultores em suas terras. São exemplo o PRONAF e o Plano Safra da Agricultura
Familiar. Na França, a Política Agrícola Comum também tem esse efeito estabilizador.
Em segundo lugar, o processo de urbanização foi, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, acompanhado pela formação progressiva de deseconomias de aglomeração e de ocupações periferizadas. As metrópoles, tradicionalmente grandes centros de
atração populacional, tiveram seu potencial atrativo reduzido. Conforme outrora disposto por
Ernst Ravenstein na obra “Leis da migração”, questões econômicas são fator central de atração
e de repulsão de população. Na medida em que a especulação imobiliária, a desconcentração
de indústrias, a terciarização precarizada e a favelização avançam, os centros urbanos tornamse menos atrativos, a ponto de repelirem contingentes populacionais rumo a cidades médias
ou para o meio rural.
A nova ênfase no meio rural tem grande vinculação com a íntima e crescente vinculação entre meios urbano e rural no seio da formação de Complexos Agroindustriais. A implementação do meio técnico-científico-informacional no meio rural, sendo a produção agrícola
vinculadas a atividades industriais tipicamente urbanas à montante – máquinas, equipamentos,
insumos – e à jusante – beneficiamento da produção agrícola – gera fator de atração populacional relevante para o meio rural. Em regiões com CAI desenvolvido, os incentivos econômicos
implicam a estabilização e até mesmo a reversão.
Deve-se citar, ainda, o fato de que a população mundial continua em expansão. Essa
dimensão cria crescentes necessidades nutricionais e bioenergéticas. A demanda por biocombustíveis e o aumento no preço mundial dos alimentos gera vantagens relativas para o meio
rural em comparação com o urbano.
Não se pode, contudo, afastar a causalidade do crescimento demográfico. Nas cidades,
devido ao melhor acesso a meios contraceptivos, à consideração dos altos custos para criar
filhos, entre outras, a taxa de fecundidade média encontra-se abaixo da taxa de reposição. Por
trás dessa estatística, há o fato de que, no meio rural, a taxa é superior a 2,1 filhos por mulher,
sendo próxima a 1,5 filho nos centros urbanos. No mundo, essa tendência implica crescimento
vegetativo maior no meio rural que no meio urbano, fato que tem peso primordial no reequilíbrio das concentrações populacionais relativas.
Insta afirmar que o fenômeno da estabilização é presente, fundamentalmente, em
áreas do mundo já predominantemente urbanizadas, e que a pequena reversão relativa em
favor do meio rural é fenômeno demográfico quase que exclusivo em países desenvolvidos
que tenham tradição agrícola, como Suíça e França. Na África e Ásia, ainda predominantemente rurais, o fenômeno de urbanização segue em larga escala, agravando redes urbanas macrocefálicas, como Lagos e Cairo.
As tendências para o futuro, assim vinculam-se às especificidades regionais. Na América Latina, o processo já se encontra em vias de estabilização, e pode haver aumento na população rural, tanto devido ao apoio à agricultura familiar por governos progressistas da região
quanto pela atratividade do paradigma “rurbano” ensejado pelo CAI. A mesma tendência é
possível na Europa e América do Norte, ambos em processo de renovação da PAC para o período 2014-2019 e da “Farm Bill”. Na África e na Ásia, contudo, o processo de urbanização de
matiz periferizada deve prosseguir. Na África subsaariana, estima-se que a população urbana
dobrará nos próximos 40 anos, e a China mantém seu engajamento na política oficial de realocação de camponeses em cidades projetadas.
A estabilização da relação populacional rural-urbana deriva de transformações que
ensejam a repulsão nas cidades e a atração no meio rural. Não é um fenômeno homogêneo no
mundo, contudo. O mundo prosseguirá predominantemente urbano, muito devido ao fato de
que a fronteira entre urbano e rural, cada vez mais, se desfaz.