×
Padrão de Resposta
O caso da anexação da Crimeia pela Rússia suscita a análise de
elementos geopolíticos relacionados à disputa de poder entre potências. Esse
caso resgata a necessidade de se recorrer a conceitos clássicos de geopolítica,
principalmente aquele de Sir Halford Mackinder sobre a importância da Eurásia
para o controle do mundo. Nesse contexto, convém discorrer sobre a
polarização entre os Estados Unidos e a União Europeia (UE), de um lado, e a
Rússia de outro no que concerne à questão da Crimeia e outras variáveis.
De acordo com o Mackinder, a potência que controlar a região da Eurásia,
o que inclui a localização geográfica da Ucrânia e da Rússia, dominará o
mundo. Nesse sentido, a anexação da República Autônoma da Crimeia pela
Rússia ressalta a tentativa russa de influenciar a geopolítica mundial com base
em dois fatores principais: a energia e o poderio bélico. No que se refere à
energia, a Rússia implementa a diplomacia dos hidrocarbonetos como
mecanismo de pressão sobre vizinhos e sobre a UE. A Rússia detém reservas
gigantescas de hidrocarbonetos, sendo o maior exportador de gás mundial. Por
meio de suas estatais, como a Gazprom, a Rússia tem gasodutos que ligam o
país a mercados distantes, como o europeu, e que passam por países como a
Ucrânia, uma vez que o gasoduto Nord Stream ainda não está em pleno
funcionamento. Ademais, a Gazprom já explora petróleo nas águas do Ártico,
uma das últimas fronteiras mundiais e que serve de ponto de passagem
marítima para navios que ligam a Europa à Ásia.
A Rússia, herdeira da ex-União Soviética, reconhece que a influência de
dissuasão de poder sobre vizinhos, como a Ucrânia, passa pela avançada
indústria bélica do país, como ilustram os caças SUKOI-35, e pelo poderio das
Forças Armadas russas, que têm no porto de Sebastopol, na Crimeia, área
estratégica para o domínio do mar Negro, ponto de contato entre o mar Morto e
a bacia do Mediterrâneo. Sendo assim, a Rússia almeja controlar não apenas o
centro da chamada Eurásia, que tinha em tempos distantes a presença do
Império Otomano, mas o acesso marítimo à região – o que se coaduna com as
ideias do almirante Haushofer sobre o domínio dos mares e o poderio
hegemônico.
Por outro lado, os Estados Unidos, apoiados pela UE, tentam conter o
expansionismo russo. Nesse sentido, a UE negocia com a Ucrânia a adesão ao
bloco, que já tem membros como os Estados Bálticos, ex-satélites soviéticos.
Ademais, os norte-americanos e os europeus tentam trazer, cada vez mais, os
ex-países comunistas para a área de influência ocidental por meio da adesão à
OTAN, que negociava a adesão ucraniana. A ação de contenção norteamericana, no entanto, avança para o Oriente Médio, em que o conflito sírio
prova a necessidade de negociação dos Estados Unidos e da Rússia. Estes
negociaram o fim das armas químicas sírias e a adesão síria à OPAQ. Ambas
as potências têm interesses na região, seja pelo petróleo, seja pela localização
geográfica, propícia para a base naval russa ali presente e para a segurança
de Israel, maior aliado norte-americano no Oriente Médio.
Outra questão pertinente ao contexto é o “pivot” dos Estados Unidos para
a Ásia. O governo Obama entende que essa política estratégica de influência
depende de negociações com os russos e com os chineses. Por isso, os
Estados Unidos negociaram um novo Acordo de Redução de Armas
Estratégicas (START) com a Rússia e hesita em aplicar sanções severas
contra o país pela anexação da Crimeia. Tanto os Estados Unidos quanto a
Rússia sabem que a dissuasão nuclear de ambos impede uma guerra bilateral
em termos convencionais, mas não ações estratégicas como o veto no
Conselho de Segurança da ONU quando necessário. A influência sobre a
Eurásia passa pela concertação entre essas duas potências.
A situação da Crimeia reafirma as ideias de Mackinder, em cenário de
disputas geopolíticas de poder entre os EUA e a Rússia. Essas disputas são
heranças da Guerra Fria e obedecem à lógica da influência dissuasória para
controlar regiões. A atual geopolítica mundial, nesse sentido, decorre da
rivalidade entre norte-americanos e russos e da emergência de novos atores.