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Padrão de Resposta
Recente estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) mapeou os arranjos populacionais brasileiros,
aglomerações que foram definidas com base em dois critérios,
quais sejam: a ocorrência de conurbação entre as cidades ou um
fluxo pendular de dez mil pessoas por dia entre elas. Entre esses
arranjos, podem-se destacar as aglomerações transfronteiriças,
cujo papel na hierarquia urbana nacional se pode avaliar pela sua
importância para que o espaço brasileiro se conecte não apenas
com os vizinhos sul-americanos, mas também com outros países.
Na rede sul-americana, destacam-se as cidades de
fronteira. Antes do rodoviarismo promovido pelo governo de
Juscelino Kubitschek, sabe-se que era quase inexistente a
integração entre os municípios brasileiros, numa lógica de ilhas
econômicas. A existência, nos dias atuais, de fluxos de pessoas,
de mercadorias e de serviços entre cidades brasileiras e cidades
dos países vizinhos atesta o quanto se avançou em termos de
fluidez do espaço geográfico brasileiro. Como exemplo de
aglomeração transfronteiriça relevante, pode-se citar aquela
formada por Foz do Iguaçu, Puerto Iguazú e Cidade do Leste,
no Brasil, na Argentina e no Paraguai, respectivamente, a
chamada região da Tríplice Fronteira.
No começo dos anos 2000, reconhecendo as dificuldades
em expandir sua área de influência até a América Central e o
Caribe, o governo brasileiro substituiu, em suas prioridades, a
noção de América Latina pela de América do Sul. De fato,
América Central e Caribe ligavam-se, tradicionalmente, aos
Estados Unidos, de modo que era mais fácil, para o Brasil,
investir na consolidação de um espaço sul-americano, o que se
buscou fazer por meio da IIRSA, inciativa voltada para a
formação de uma infraestrutura regional sul-americana. A partir
daí, o desenvolvimento da infraestrutura de energia e de
transportes impulsionaria a integração entre as populações,
processo que se evidencia nas cidades de fronteiras, sobretudo.
Quando se analisa um arranjo transfronteiriço como o
formado por Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, fica evidente o
conceito de cidades gêmeas. Trata-se, em linhas gerais, de
aglomerações urbanas que, separadas por um divisor natural,
estão indissoluvelmente ligadas, econômica e socialmente, com
fluxos dinâmicos entre si. Exemplo histórico é o das cidades de
Buda e Peste, cujo vínculo era tão profundo, que resultou na
fusão de ambas, formando Budapeste. Mesmo quando não se
chega a esse ponto, cidades gêmeas dividem possibilidades e
desafios. O desafio evidente, conforme se verifica nas cidades
brasileira e argentina, é a necessidade de combater a
criminalidade transfronteiriça, o que exige coordenação entre as
respectivas forças policiais. As oportunidades, porém, também
são inquestionáveis, como se percebe com o dinamismo
econômico, caracterizado pelo fluxo não apenas de bens, mas
também de mão de obra. Mais do que isso, a Tríplice Fronteira
foi a base de cooperação dos três países com os Estados Unidos,
quando, na esteira do 11 de setembro, o terrorismo determinou a
agenda de segurança internacional.
Nas cidades de fronteira, o desenvolvimento da
infraestrutura de transportes é fundamental, se se quer que essas
aglomerações sirvam de base para a integração de todo o espaço
sul-americano. Sem integrar os transportes, é impossível fazer
que os benefícios da integração nas fronteiras cheguem ao litoral
do Atlântico e ao litoral do Pacífico. Foi essa a razão de a IIRSA
ter sido sempre prioritária, e seu êxito é atestado, por exemplo,
pela existência da chamada rodovia do Pacífico, que liga os
portos brasileiros aos portos do Pacífico, como o porto de
Antofagasta. No modal hidroviário, pode-se destacar a hidrovia
do Tietê-Paraná, a chamada hidrovia do Mercosul. Trata-se de
inciativas que vêm ao encontro do que afirmou Milton Santos,
para quem não basta produzir, sendo necessário pôr em
circulação – ou, em outras palavras, a circulação preside a
produção.
A integração do Atlântico ao Pacífico, passando pelas
cidades de fronteira, ganha ainda mais importância quando se
observa que o Pacífico vai consolidando-se como espaço
privilegiado das trocas comerciais internacionais, e a Ásia, como
o continente mais dinâmico em termos de comércio.
Geopoliticamente, inclusive, a união de ambas as costas
marítimas da América do Sul atende aos interesses brasileiros,
pois o país tem uma imensa massa continental e um litoral
extenso, o que o coloca em posição destacada, seja com base
numa hipótese geoestratégica terrestre, seja com base numa
hipótese geoestratégica marítima.
As cidades de fronteira são essenciais ao desenvolvimento
da economia brasileira. Considerando-se a relevância do
agronegócio para a geração de saldos em conta corrente e que
essa produção, atualmente, se destaca na região Centro-Oeste
do país, não se pode ignorar a importância de tornar mais fluidos
os fluxos com os países vizinhos a essa região. A atualidade dessa
preocupação fica evidente quando se observa o interesse do
governo brasileiro em projetos como o da ferrovia cortando a
região, a desenvolver-se com a participação de capital chinês. O
objetivo, destaque-se, é chegar ao Pacífico.
As aglomerações transfronteiriças são os centros a partir
dos quais se tem viabilizado a integração sul-americana, seja a
integração dos mercados, seja a dos transportes, seja a da
produção energética. Mais do que importância econômica, essas
aglomerações têm importância social e política. Não é outra a
razão de a Tríplice Fronteira, por exemplo, estar
indissoluvelmente associada ao Mercosul. Não se trata de
comércio e de Itaipu apenas, mas da consolidação de uma
verdadeira identidade mercosulina.