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Padrão de Resposta
A urbanização, contemporaneamente, caracteriza-se como fenômeno de
abrangência global. Impulsionado pelas novas formas de reprodução do capital e pelas
necessidades e imperativos impostos pela globalização, o aumento percentual da quantia
da população global vivendo em cidades ocasiona impactos e novas dinâmicas a nível
global, regional e local, impactando não somente a vida cotidiana de cidadãos, mas também
impactando de modo relevante os sistemas socioeconômicos vigentes.
Os geógrafos Roberto Lobato Correa, em O Espaço Urbano, e Rogério Haesbaert,
em Globalização e fragmentação no mundo contemporâneo, consideram o atual impeto
urbano do mundo como decorrência histórica do desenvolvimento e expansão do sistema
capitalista em âmbito global. De maneira sintética, argumentamos acadêmicos que a
urbanização ocorrida nos países centrais adveio dos processos socioeconômicos
desencadeados pela 1ª e 2ª revoluções industriais, ocorridas no final do século XVIII e a
partir da década de 1840, aproximadamente. Esse fenômeno mundial, ainda que
localizado, teria culminado na divisão internacional clássica do trabalho, que pressupunha
áreas periféricas como fornecedoras de matéria primas e produtos primários. De maneira
análoga, todavia, sustentam ambos os geógrafos que a relativa superação do paradigma
fordista, com o posterior advento da flexibilização produtiva do capital (“Toyotismo just in
time”), na 2ª metade do século XX, contribuiu sobremaneira para o advento de uma nova
divisão internacional do trabalho que, explorando menores passivos trabalhistas e
ambientais nos países periféricos, impulsionou a alocação de cadeias produtivas no “sul
global”, imiscuindo-se e potencializand processos urbanos pelos quais essas nações já
passavam.
Confirmando essa tendência de aceleração da urbanização em Estados periféricos
ao longo do século XX, documento publicado pelas agências funcionais da ONU
(Organização das Nações Unidas) entitulado World Population Prospect confirma que, pela
primeira vez na história, a humanidade mostra-se predominantemente urbana. No
entando, conforme demonstra o professor Milton Santos, ao tratdo do tema em A
urbanização brasileira, o processo de desenvolvimento das cidades mostra-se
extremamente iníquo e desigual entre as nações ricas e as em desenvolvimento. Ao passo
que os países do “Norte geopolítico” contaram com um desenvolvimento contínuo, que
pode ser dirigido e cujos problemas puderam ser mitigados, ao longo de dois séculos, os
Estados periféricos, impulsionados pelos requisitos dos mercados globais e dotadas de
bases estruturais voltadas a demandas externas, completaram caminho de urbanização
análogo, mas percorrido ao longo de poucas décadas, ocasionando o desenvolvimento de
metrópoles com relevantes desafios e problemas estruturais e, mais recentemente,
levando ao que o próprio professor Milton Santos classificou como uma “involução
metropolitana”.
O exemplo brasileiro ilustra, de maneira consistente, as peculiaridades do
processo de urbanização pelo qual tem passado o munod em desenvolvimento. O primeiro
censo brasileiro, imperial, de 1872, indicava que somente 7% da população brasileira, então,
vivia em cidades. Confirmando a aceleração do crescimento das cidades experimentado ao
longo do século XX, é relevante que o 1º censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
de Estatística) que mostra o predomínio da população urbana do país, o censo de 1970,
tenha dado lugar a dados do censo de 2010, que revela, de modo importante, que mais de
84% da população brasileira, atualmente, resida em cidades. Esse processo, mais do que
mera referência numérica, evidencia decorrências importantes da urbanização no país: ao
passo que houve o decréscimo da natalidade (atualmente em 1,9 filhos por mulher),
corolários da vida urbana, a exemplo da diminuição de famílias e da inserção da mulher
no mercado de trabalho acarretaram a desaceleração do crescimento populacional
brasileiro (atualmente, em 1,17% ao ano).
Maria Laura da Silveira, assim como Milton Santos, em Brasil: território e
sociedade no início do século XXI, identificam diversas tendências e impactos da
urbanização no sistema urbano brasileiro. De maneira específica, os acadêmicos lançam
luz acerca da rapidez com qe o processo se deu e nos problemas e desafios estruturais
ocasionados pelo processo em questão. O aumento da participaçãode atividades terciárias
no PIB brasileiro, assim comoo desenvolvimento de novas metrópoles (como Brasília,
Goiânia e Manaus, que não constavam inicialmente nos estudos do IBGE ednominados
“REGIC”). Porém, conforme explicam ambos os autores, o desorganizado crescimento
metropolitano, no Brasil, ocasionou o advento de deseconomias de escalas, que, cominadas
com incentivos fiscais de áreas não tão centrais à economia nacional (a “guerra dos
lugares”) e à implantação do que José Graziano da Silva (A nova dinâmica da Agricultura
Brasileira) designou como Complexo Agroindustrial, levou a relativa “involução
metropolitana” e ganho de importância das cidades médias, a partir dos anos 1980.
Essas novas dinâmicas, entretanto, acarretam mudanças significativas à
organização dos espaços intraurbanos e à vida cotidiana dos habitantes de cidades. David
Harvey, em Social Justice and the city, elucida que, por conta da lógica muitas vezes
excludentes da globalização e da reprodução de capital, é cada vez mais comum que o
espaço urbano seja colocado a serviço de interesses corporativos e/ou de grupos
internacionais. O acadêmico menciona, como exemplo, dessa dinâmica, a coexistência, em
Londres, na “City’ financeira, assim como na Costa Oeste dos EUA (o “vale do silício”), entre
megacorporações tecnológicas e financeiras com uma parcela cada vez maior de sem-tetos
e demais pessoas em situação de vulnerabilidade. Esse peocesso, no entanto, repete-se na
periferia do capitalismo, na qual, de modo frequente, movimentos sociais e organizações
não governamentais opõem-se a projetos de reestruturação ou de renovação urbanas que,
segundo seus critérios, concentram-se em áreas mais ricas, já integradas ao fluxo
financeiro internacional ou priorizam a valorização de áreas visadas por
empreendimentos imobiliários.
A globalização, assim como a urbanização e acontemporânea reprodução do
capital interligam-se, nos âmbitos global, regional e local. O crescimento do número de
habitantes de cidades, fenômeno marcante acelerou-se ao longo do século XX,
ocasionando novas dinâmicas complexas e, muitas vezes, contraditórias, refletindo, desse
modo, as características diversas e multifacetadas dos processos que o estimularam.