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Padrão de Resposta
A política é a expressão das sociedades em sua relação de transformação da natureza. O risco é
inerente às atividades humanas, enquanto as catástrofes são, em geral, fenômenos cíclicos que evidenciam
o poder do meio natural. As vulnerabilidades, por sua vez, são reveladoras das desigualdades sociais para
lidar com a natureza. Nesse sentido, o papel regulador do Estado e a gestão empresarial demonstram
dicotomia que vai além daquela entre homem e natureza, qual seja, como definir o que é desenvolvimento
e o que são custos. A transformação do território brasileiro para atender às demandas do agronegócio,
desse modo, demonstra como certa visão do desenvolvimento pode gerar riscos e vulnerabilidades.
Diante das crescentes tragédias ambientais, como furacões e terremotos, parece prevalecer a
dicotomia entre homem e natureza, com prevalência desta. Trata-se, entretanto, de visão fragmentada
que dissocia o homem do seu contexto, tornando-no mero sujeito. Nesse sentido, o fenômeno social
frente à natureza é eminentemente político. Assim, o risco é inerente a qualquer atividade humana e
resulta da observação histórica ou empírica das condições de dado território. Em zona sísmica, por
exemplo, elaboram-se códigos de construção mais rígidos diante dos riscos. Nesse caso, é uma política
social que busca promover o convívio com a natureza.
A catástrofe, por sua vez, é situação que extrapola a previsibilidade do risco, como inundações
extraordinárias, a exemplo do que ocorreu em Florença nos anos de 1960. A catástrofe ocorre quando
a natureza sobrepuja a própria capacidade de produção social que, se possível for, busca assimilar a
catástrofe como alerta para novos riscos. O Acordo de Paris e os esforços globais para reduzir as emissões
de carbono seria expressão política para reagir à possível catástrofe, dirimindo seus riscos climáticos.
Já a vulnerabilidade seria a imposição dos riscos e das catástrofes como produção social política
de desigualdade frente à natureza. Riscos e catástrofes são fenômenos naturais, vulnerabilidades, por sua
vez, são fenômenos humanos. Assim, o recente incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro resulta
da vulnerabilidade engendrada pela política, já que era possível prevenir os riscos de incêndio diante de
eventual catástrofe que, de fato, ocorreu. Note-se que esta catástrofe, conforme o excerto de Veyret e
Reghazza, expôs os riscos e afetou todo o patrimônio cultural do país, tanto material quanto o imaterial.
Para Harvey e Becker, o Estado tem desempenhado papel fundamentalmente regulador. Ele tem
atendido às demandas corporativas para a reprodução do capital no território, em perspectiva, por
vezes, contraditória das noções de desenvolvimento e de custos – estes devem ser incluídos nos riscos
e nas vulnerabilidades da questão do desenvolvimento e da infraestrutura. Assim, quando o Estado
ou empresas optam por investir na fluidez de um território, os impactos das externalidades advindas
devem ser considerados. Por exemplo, a extensão de uma linha de metrô pode valorizar o seu entorno
na cidade, mas pode trazer riscos, como o aumento dos índices de violência pelo maior trânsito de
pessoas, e expor vulnerabilidades, como a expulsão de populações carentes por conta da valorização dos
alugueis, conforme ocorre com o fenômeno da « gentrificação ». Uma prática de desenvolvimento urbano
sustentável, conforme o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável no 11, seria levar em consideração
tais riscos com políticas preventivas de mitigação, assim como de investimentos nos indivíduos para
criar comunidades resilientes.
O agronegócio na América Latina é particularmente revelador nesse sentido, já que muitas de suas
demandas corporativas por regulação e infraestrutura têm acarretado custos humanos e ambientais,
expondo riscos e vulnerabilidades. A chamada « inversão logística » para o Norte, com rodovias,
hidrovias e silos de armazenamento na Amazônia, tem posto em risco a preservação da cobertura
vegetal, particularly, por conta de Código Florestal que atende aos desígnios da « bancada ruralista
», tornando a infraestrutura vetor de desmatamento. Sob estes parâmetros de desenvolvimento com
o intuito de reprodução do capital, sofrem populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas, expulsas,
segundo Elias, por conta do poder avassalador de incorporação de terras para formação de latifúndios
pelo agronegócio.
A necessidade de acesso à água pelo « agrohidronegócio », conforme Antônio Thomaz, tem
acarretado riscos para os lençois freáticos no Centro Oeste, com diminuição de seus níveis que torna
vulneráveis agricultores familiares dependentes de poços artesianos. Se tomado globalmente o agronegócio
no Centro-Oeste, MaToPiBa e Amazônia, os riscos de desmatamento, poluição das águas e uso intensivo
de agrotóxicos trazem danos para a saúde humana em todo o planeta e expõem vulnerabilidade do
sistema climático sul-americano, como observado nas perturbações dos chamados « rios voadores ».
Se o desenvolvimento põe a natureza em risco, quem se torna vulnerável é o homem. Tem-se
observado número cada vez maior de catástrofes, porém apenas o engajamento de políticas sociais
que transformem a relação entre homem-natureza de sua base dicotômica para compreensão holística
pode trazer resiliência e criar lugares de sustentabilidade.