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Padrão de Resposta
Segundo Milton Santos, espaço significa a acumulação desigual de tempos. Ou seja, o espaço
é a soma de trabalho vivo e trabalho morto (fluxos e fixos) que uma sociedade projeta sobre uma área
geográfica. Com base nessas ideias, é possível perceber as atuais dinâmicas espaço-temporais que
ocorrem atualmente na Amazônia, conforme apontado por Bertha Becker. Ocorre, segundo ela, uma
nova conformação geopolítica no mundo, em geral, e na Amazônia, em particular. Nesse espaço, há um
cruzamento crescente entre lógicas espaciais locais, nacionais e internacionais, que acarretam dinâmicas
de conflito e cooperação. Há, portanto, na Amazônia, o desenvolvimento de territorialidades ligadas as
capital financeiro, que vê na Amazônia sobretudo uma fonte de riqueza, e também de territorialidades
ligadas aos movimentos sociais, que tem na Amazônia sua principal fonte de sustento material e lugar de
manifestações culturais.
Existem diversos conceitos em torno do espaço amazônico, cada qual com seu significado e
sua funcionalidade. Em primeiro lugar, a Amazônia brasileira corresponde à área ocupada pela Floresta
Amazônica no território brasileiro, independentemente de divisões entre estados ou demarcações legalmente
estabelecidas. Em segundo lugar, a Amazônia transnacional corresponde à área coberta pela Floresta
Amazônica em toda a América do Sul, incluindo não apenas o Brasil mas também países vizinhos como
Bolívia, Peru, Venezuela, Colômbia. Também nesse caso, prevalece η área ocupada pela Floresta Amazônica
sobre considerações legais ou políticas. Em terceiro lugar, a região Norte representa a área coberta pelos
estados brasileiros do Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá. Nesse caso, prevalece a divisão
político-administrativa estabelecida pelo IBGE, que leva em consideração características e semelhanças
em termos econômicos, ambientais e geográficos. Por fim, o conceito de Amazônia Legal não se confunde
com o de Amazônia brasileira, uma vez que aquele, que abrange quase metade do território brasileiro,
abrange também áreas além da floresta, mas cuja conservação é considerada importante para o equilíbrio
amazônico. Esses conceitos, portanto, diferem entre si de acordo com o critério adotado; geográfico,
político-administrativo ou legal.
O paradigma que norteou o povoamento e a ocupação da Amazônia foi o de economia de fronteira.
Historicamente, esse conceito significou uma relação sociedade-natureza baseada na progressiva
incorporação de novos espaços à atividade produtiva, sem grandes preocupações em relação ao
meio ambiente ou a comunidades locais. Em consequência disso, a floresta Amazônica sofreu grandes
processos de devastação ambiental e de extermínio ou expulsão de comunidades locais, como povos
indígenas, ribeirinhos e seringueiros. O ápice desse modelo teve lugar durante os primeiros governos
militares, sobretudo na década de 1960 e 1970, uma vez que o pensamento geopolítico militar percebia
a Amazônia como espaço vazio e sujeito à ação de grupos subversivos e forças internacionais, os quais
poderiam ameaçar a estabilidade do regime e a soberania nacional. Em resposta a essas supostas
ameaças, os governos militares promoveram amplo programa de “colonização da Amazônia”, por meio
de incentivos econômicos à ocupação de territórios e apoio à atividades produtivas, como a Zona Franca
de Manaus. Grandes obras de infraestrutura, como a malsucedida rodovia Transamazônica e usinas
hidrelétricas, como a de Tucuruí, reforçaram a lógica de ocupação hegemônica até então.
Durante a década de 1970, contudo, após a Conferência de Estocolmo, de 1973, o Brasil aprofundou
progressivamente sua legislação ambiental, com base no paradigma do desenvolvimento sustentável.
Mesmo no regime militar, medidas de controle e preservação ambiental ambiental foram implementadas,
como a exigência de Estudos de Impacto Ambiental e de Relatórios de Impacto Ambiental.
Atualmente prevalece, no discurso oficial brasileiro, o paradigma do desenvolvimento sustentável
brasileiro. Esse fato, contudo, não anula o que Bertha Becker chamou de a “incógnita do heartland
brasileiro”. A Amazônia, percebida pela geógrafa como fundamental para o desenvolvimento nacional,
encontrava-se sob a influência de lógicas territoriais nacionais e transnacionais diversas, além de estar
entre o conflito do paradigma da economia de fronteira e do desenvolvimento sustentável. Nesse contexto,
pode-se mencionar a existência de territorialidades locais/nacionais, como a de comunidades ribeirinhas,
cuja escala de atuação corresponde ao espaço mais restrito de suas atividades e práticas culturais locais.
Trata-se de uma temporalidade mais lenta e mais ligada aos processos naturais da floresta. Em contraste,
há também territorialidades transnacionais operando sobre o espaço amazônico. Conforme a noção
de geopolítica contemporânea, decisões tomadas em outros países, como nos Estados Unidos ou na
Europa Ocidental, repercutem na Amazônia, a exemplo da ação de mineradoras multinacionais sobre
o espaço amazônico. No atual contexto de globalização, contudo, lógicas territoriais locais adquirem
capacidade de se internacionalizar. No exemplo dos povos ribeirinhos, muitos deles se organizam em
redes transnacionais em defesa de seus interesses, como os movimentos dos atingidos por barragens
e dos atingidos pela Vale.
A Amazônia, não obstante os programas governamentais destinados a disciplinar e a ordenar sua
ocupação, como o Plano Amazônia Sustentável, permanece sujeita a tensões entre distintas territorialidades.
Por um lado, a lógica do sistema financeiro, que atua em redes transnacionais e em coordenação com o
capital local. Por outro lado, as territorialidades locais/nacionais, cuja lógica consiste no aproveitamento
racional da floresta e em redes de solidariedade cada vez mais globalizadas.