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Padrão de Resposta
Os conceitos geográficos de território, espaço, lugar e paisagem são centrais para o entendimento
das diversas correntes que compõem o campo do saber geográfico. A ênfase dada por cada corrente
da geografia a tal ou qual conceito diz bastante acerca das linhas teóricas defendidas. A escola clássica,
aquela de viés crítico e a humanista trabalham conceitos de maneira distinta, de forma que, por meio da
identificação dessas diferenças é possível traçar características básicas de cada uma dessas correntes.
A escola clássica da geografia, representada pelas correntes determinista e possibilista, dá especial
atenção ao conceito de território. A doutrina determinista de Friedrich Ratzel, fortemente influenciada por
Ritter e Humboldt, insere-se no contexto da formação do Estado Alemão. Em razão disso, encontra no
conceito de território o seu centro de gravidade. Ratzel atribui ao conceito de território a fonte e a limitação
do poder de um Estado nacional. Fonte de poder, pois apenas por meio do controle do território uma
entidade estatal pode presumir a sua existência; limitação do poder à medida que é só e apenas sobre o
território que um Estado exerce poder, visto que a jurisdição estatal vai até as fronteiras do Estado. De forma
similar, Ratzel atribui ao território a fonte e a limitação da identidade nacional: território reuniria aqueles que
compartilham dada identidade cultural particular. Embora Ratzel fale em “espaço vital”, o Estado encontraria
seus recursos de poder no território sobre o qual exerce jurisdição. A fim de maximizar poder e de garantir
o desenvolvimento de seu povo, caberia ao Estado expandir suas fronteiras para angariar mais recursos
de poder que viabilizassem os objetivos do Estado.
Para a geografia crítica, representada na figura de Milton Santos no Brasil e de geógrafos como
Yves Lacoste e David Harvey fora do país, o conceito central passa a ser o espaço. Para essa corrente
geográfica, que engloba diversas tendências diferentes, o espaço funcionaria como, ao mesmo tempo,
conteúdo e contingente, pois agregaria tanto elementos sistêmicos quanto os agentes que conformam o
sistema. Seria, como afirma Milton Santos, uma forma-conteúdo em que um processo vivo de construção
tem lugar. Milton Santos trabalha, para além do conceito de espaço, aquele de paisagem. Para o autor
baiano, o conceito de paisagem seria importante, pois é através dele que se percebem as “acumulações
desiguais de tempo”, que são centrais para as análises geográficas. Ao afirmarem que nada ocorre
despropositadamente, centram no conceito de espaço a sua crítica, pois este ofereceria os instrumentos
e revelaria os agentes que atuam na construção da história e na transformação da sociedade.
A geografia humanista, por sua vez, a despeito de reconhecer a importância teórica do conceito de
espaço, conferindo-lhe lugar de destaque em suas análises, na prática operacionalizam outros conceitos
que valorizem uma perspectiva mais subjetiva da realidade. Embora tenham o conceito de “espaço vivido”
como fundamental, conceitos geográficos como paisagem, lugar e território ganham fôlego renovado.
O conceito de paisagem reforça a subjetividade que marca a geografia humanista. De modo similar,
os conceitos de lugar e não lugar estariam impregnados de sentido, ao passo que as dinâmicas de
territorialização, desterritorialização e reterritorialização também seriam importantes. A subjetividade que
marca a corrente humanista atribui, portanto, a diversos conceitos papel fundamental , cabendo ao “espaço
vivido” função privilegiada justamente por evidenciar a importância que a corrente dá para experiências
pessoais, individualidades e particularismos.
Os debates epistemológicos da geografia fizeram com que os diversos conceitos geográficos fossem
valorizados e desprestigiados ao longo do tempo. Não obstante, diversas correntes geográficas coabitam
o mundo na atualidade, de forma que cada uma atribui papel de destaque ao conceito que ilustra melhor
seu pensamento. (40 linhas)