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Padrão de Resposta
Rubens Ricúpero, em “Visões do Brasil”, salienta que a política externa conduzida pelo Barão do Rio Branco (1902-1912) pode ser melhor assimilada pelos eixos da simetria e assimetria. A assimetria manifestava-se, sobretudo, entre as relações Brasil-Estados Unidos, que, na virada do século, já despontava como potência mundial. Por sua vez, a simetria era a tônica das relações brasileiras com o contexto regional; em especial aquele construído com a Argentina.
Todavia, ao analisar a política externa do Barão revela-se que a assimetria com os Estados Unidos não engendrou política de submissão, mas, sim, de uma aliança tácita, em que prevaleceu o respeito mútuo, baseada na clara consciência da disparidade de poder entre os dois atores. Assim, se por um lado o Barão do Rio Branco não contestou o poder norte-americano sobre o continente sul-americano – como evidenciou-se no conhecido caso da Venezuela, em que o não-pagamento das dívidas suscitou ameaça de intervenção militar européia e os Estados Unidos intervieram, demonstrando a aplicação da Doutrina Monroe (1823) “América para os americanos” -; por outro lado, o Barão empenhou-se para rever o acordo tarifário assinado com os Estados Unidos em 1891. Por meio deste, as importações americanas do açúcar brasileiro ficavam isentas de impostos. Na prática, no entanto, o açúcar brasileiro sofria, no mercado americano, forte concorrência daquele produzido no Caribe. O Barão do Rio Branco reconhecia que, diante de tal assimetria de poder, a revisão do acordo não suscitaria mudança de comportamento do governo americano. Sua avaliação era, portanto, marcada pelo realismo.
No que diz respeito às relações com a Argentina, prevaleceu, durante o mandato do Barão, a rivalidade. Rivalidade histórica, como se pode constatar na Guerra da Cisplatina (1925-28), no conflito contra Rosas e Oribe em 1850 e só arrefecida durante a Guerra do Paraguai (1865-70) e nas felicitações argentinas pela Proclamação da República no Brasil. A livre navegação nos rios da Bacia do Prata constituiu, sempre, o tema principal na agenda Brasil-Argentina. Ademais, era preciso garantir controle hegemônico sobre a região, que dependia sobretudo das posições dos estados mais fracos: Uruguai e Paraguai. A rivalidade com a Argentina estendia-se, também, à esfera econômica – especialmente no que respeita aos investimentos estrangeiros. Havia, nesse contexto, uma clara corrida armamentista e animosidade entre as nações. Ressalte-se a encomenda, pelo governo brasileiro, de três encouraçados (Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) e o apoio irrestrito do Barão do Rio Branco ao Marechal Hermes da Fonseca, contra a campanha civilista de Rui Barbosa. No entendimento do Ministro, somente um governo militar daria continuidade e valor necessários À disputa militar com a Argentina. Nota-se, também, o caso do telegrama cifrado nº 9, enviado do Brasil à sua Missão diplomática em Buenos Aires. O governo argentino publicou o conteúdo do telegrama como sendo ofensivo à Argentina. Faz-se necessário apontar que a rivalidade Brasil-Argentina foi conduzida pelo Barão com notável moderação. Daí sua proposta de firmar o Pacto ABC (Argentina, Brasil e Chile), de forma a manter a animosidade dentro de uma esfera de legalidade e relações cordiais.
Em relação às correntes de pensamento em política exterior no Brasil da época, a política de Rio Branco chocava-se com a proposta de “latinização”, feita por Oliveira Lima. Este considerava excessivo o “americanismo” do Barão do Rio Branco e aproximava-se, assim, do projeto proposto por Simon Bolívar no Congresso do Panamá (1826). Realista convicto, o Barão sabia das dificuldades e ilusões de opor-se à Doutrina Monroe, à época seguida pelo Corolário Roosevelt. O realismo político foi, portanto, predominante na sua estratégia de inserção do Brasil. Dos discursos do Barão depreende-se, até mesmo, certo darwinismo social, ao postular que o destino dos estados fracos era desaparecer. O realismo guiou, assim, a “assimetria e simetria” conduzidas pelo Barão.