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A “Era das revoluções”, na feliz expressão do Eric J. Hobsbawn, compreende, segundo esse autor, o período de 1789 a 1848. Esse período é revolucionário porque marca o rompimento com o mundo feudal e forma as bases para a ascensão do capitalismo e da sociedade burguesa; criam-se, nesse ínterim, os fundamentos do modo de produção e das relações políticas que se tornariam hegemônicas. As revoluções mais significativas do período são a Revolução Francesa e a Revolução Industrial.
A Revolução Industrial foi um fenômeno inglês – e somente poderia ter ocorrido na Inglaterra. Havia lá um conjunto de fatores sociais, políticos e econômicos agrupados de forma singular que explica essa afirmação. O feudalismo inglês, que sempre fora sui generis, era, já em meados do século XVIII, uma realidade enfraquecida. Em primeiro lugar, a prática dos cercamentos (enclosures) das terras comunais e conseqüente expulsão dos agricultores pobres encontrava-se em avançada marcha. No lugar dos camponeses, passou-se a utilizar os campos para produção lanífera que alimentava as fiações. Houve grande concentração de terras e, ao mesmo tempo, os proprietários agiam de forma mais empresarial, enxergando suas terras mais como meio de produção que como símbolo de poder; o lucro era seu objetivo. Dessa forma, liberou-se enorme contingente que serviria como mão-de-obra nas fábricas.
Politicamente, desde o final do século XVII, a Inglaterra havia rompido com o absolutismo; na verdade, a Revolução Gloriosa é o ponto culminante do processo de redução do poder do monarca que se observa desde o século XIII, com a “Magna Carta”. Dessa maneira, o poder político era acessível àquela classe de empresários rurais, bem como à nascente burguesia.
Combinados esses fatores à posse britânica de colônias que lhe forneceriam mercados consumidores e máterias-primas, realizou-se a gradual Revolução Industrial: por meio de técnicas não muito elaboradas a princípio, a produção de bens – especialmente, tecidos de algodão – elevou-se a níveis jamais vistos anteriormente. Ao mesmo tempo, as relações entre patrões e empregados davam-se em bases monetárias, não pessoais, fundamentalmente. Possibilitou-se enorme quantidade de lucros aliada à produção a reduzidos custos, que invadiria mercados no mundo todo.
A Revolução Francesa insere-se no conjunto de revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX e se destaca, primeiro, por ter irradiado seus princípios e idéias a vários outros lugares e, segundo, por ter ocorrido no Estado mais populoso e, até então, poderoso da Europa.
A situação política francesa à época não condizia mais com a estrutura social, marcada pela ascensão econômica da classe média (burguesia) e por sua incompatibilidade com as estruturas de origem feudal – corporações de ofício, servidão, tributos senhoriais, privilégios de nascimento, condenação da usura e, principalmente, o absolutismo real que sustentava tudo isso. Os crescentes endividamento do estado e inflação, aprofundados pelo envolvimento francês na Guerra dos Sete Anos e na Independência Americana, somaram-se à incapacidade reformadora do Antigo Regime francês e às más colheitas de 1787 e 1788 para gerarem a ascensão da burguesia francesa ao poder mediante grandes agitações populares a após alguns períodos de profunda radicalização (como o período do “Terror”, sob o comando de Robespierre). Além de impressionante e influente “per se”, a Revolução Francesa “exportou” a mudança mediante invasões e guerras, especialmente no período napoleônico.
A Revolução Francesa criou grande parte do vocabulário político moderno (e. g., a própria palavra “revolução” em seu sentido moderno) e influenciou o mundo ocidental com seus princípios de corte iluminista – “liberdade, igualdade e fraternidade” – e mesmo com o formato que deveria ter uma revolução. Ainda, a idéia de nacionalismo fortaleceu-se com a revolução em exame e influenciou, de forma profunda, a Europa nos séculos XIX e XX. Por fim, gerou o enorme medo das sublevações populares e a idéia de Restauração, posta em prática a partir de 1815 após o Congresso de Viena.
Tanto a Revolução Francesa, expressão maior das revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX na Europa, quanto a Revolução Industrial forneceram à Europa ocidental e central o instrumental político, econômico e social com base no qual o modo capitalista de produção que se tornaria hegemônico mundialmente. A possibilidade de produção barata e quase ilimitada, fundada em relações monetárias e sustentada por regimes em que, em princípio, a classe dinâmica – burguesia – era hegemônica e por meio dos quais impunha seus valores – liberdade, sacralização da propriedade, meritocracia, supremacia do mercado etc.- , tudo isso conformaria a Europa do século XIX e, a partir dela, o mundo quase todo.