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Padrão de Resposta
Para os autores que defendem a existência de rupturas significativas na história da política exterior brasileira, esta pode ser dividida, em grandes linhas, em três (ou quatro) grandes períodos: o do reconhecimento da independência, o do modelo agroexportador, o do modelo nacional-desenvolvimentista. Dentro deste último, teriam havido momentos em que teria vigorado um projeto liberal-associado. A questão da definição de três ou quatro grandes períodos depende do julgamento feito em relação à política exterior brasileira da década de 1990.
No primeiro período, o problema diplomático básico era obter rapidamente o reconhecimento da independência pelas grandes potências. Para tanto, o Brasil assinou diversos tratados desvantajosos, em especial a aprovação do Tratado Comercial firmado por D. João VI com a Inglaterra. Apenas quando esses tratados chegaram a seu termo, no final da década de 1840, pôde o país ampliar seu campo de ação externa.
O segundo período, portanto, pode ser considerado como iniciando por volta de 1850, ainda que seu período mais característico seja o da República Velha, 1889-1930. Neste período, o Brasil seguiu uma política de especialização em suas vantagens comparativas agrícolas, com a conseqüente posição geral de abertura à importação. Assim – considerando as guerras platinas do Império com motivadas por fatores geopolíticos, mais que por fatores econômicos-comerciais – a política externa brasileira manteve um curso de ação compatível com esta determinação: busca de abertura comercial para produtos brasileiros (café, borracha, açúcar); ações de defesa da política de valorização do café; e ações integradas à política financeira do governo, com a negociação de empréstimos e a defesa da política cambial. Neste contexto está a transição ao alinhamento americano, ao tornar-se este país o maior consumidor de café.
Enquanto no modelo agroexportador inexistia um objetivo nacional específico a atingir (à exceção da política de hegemonia platina), este passou a ser o caráter definidor do “nacional-desenvolvimentismo”, em que à política externa foi colocado, sob bases nacionalistas, ainda que pragmáticas, o objetivo de contribuir para o desenvolvimento do Brasil. Iniciado em 1930, teria três momentos característicos: os dois governos Vargas, o período da Política Externa Independente (PEI), e os governos militares a partir de Costa e Silva.
Embora o elemento básico seja a busca do desenvolvimento, esta é uma característica abrangente para definirmos o nacional-desenvolvimentismo unicamente por ela. Assim, a maioria dos autores identifica a política externa e o governo nacional-desenvolvimentista via o meio escolhido para alcançar o desenvolvimento: a industrialização por substituição de importações, capitaneada e defendida pelo Estado. O capital estrangeiro deve ficar “sob controle”, embora o que cada um dos atores considere um “controle” suficiente para entrar na definição varie muito.
Segundo autores como Amado Cervo, houve período em que as características do “nacional-desenvolvimentismo” não foram hegemônicas: os governos Dutra, Café Filho e Castello Branco, e também o de Juscelino Kubitschek, embora este por outros motivos. Os três primeiros são desclassificados pela abertura ao capital externo e desregulamentação de sua atividade, o que configuraria um modelo “liberal-associado” de desenvolvimento. Enquanto o nacional-desenvolvimentismo seria pragmático, universalista, e buscaria o desenvolvimento a partir de bases nacionais, o modelo “liberal-associado” buscaria a parceria do capital estrangeiro e alinhamento automáticos. O governo JK seria sui generis, aliando os dois modelos: ao mesmo tempo que chamava o capital estrangeiro, era capaz de, por exemplo, romper com o FMI.
Há controvérsia quanto ao final (ou não) do nacional-desenvolvimentismo, à luz da abertura comercial e reinserção no mercado mundial do Brasil na década de 1990. Há autores, como Klaus-Wilhelm Lege, que defendem que se trata apenas de uma atualização do nacional-desenvolvimentismo às novas condições do comércio internacional. Já a maioria dos estudiosos, como Amado Cervo, defende que os governos Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique romperam com o nacional-desenvolvimentismo, constituindo um predomínio do modelo liberal-associado.