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Padrão de Resposta
Talvez a chave para compreendermos as relações entre o Orientalismo, como o define Edward Said, e o gigantesco empreendimento expansionista europeu da Segunda metade do século XIX esteja mesmo ligada à noção de produção de conhecimento. A idéia de produção de conhecimento como disciplina organizada em oposição a saberes é uma idéia bastante cara, ou melhor, central do pensamento de Michel Foucault que, como sabemos, influenciou os trabalhos de Said. Esta noção refere-se ao tipo de lógica que fundamenta o positivismo de Comte e que se espraiou por toda a Europa e para além dela. Trata-se de um raciocínio utilitarista em seus desdobramento mais cotidianos que transforma o saber sobre o outro em conhecimento para dominação, não só em termos políticos internacionais, mas até em micropolítica, na medida em que, como diz o renomado estudioso do Oriente Médio, a sala de aula, o tribunal e a prisão assumem feições disciplinares dos comportamentos. Neste sentido, uma míriade de conhecimentos culturais compõe a episteme que permite e engendra o expansionismo europeu. Contam-se entre eles as teorias do filósofo Herbert Spencer que interpretando C. Darwin, avança o conceito social de sobrevivência do mais forte ou apto; a frenologia de Lombroso, que julgava poder determinar características de personalidade – por si só um conceito que receberia duro golpe do freudismo – através de medições da caixa craniana; os teste de inteligência dos franceses Binet e Simon, responsáveis pela divisão dos indivíduos em normais ou retardados quantitativamente em todo o mundo civilizado; os achados arqueológicos que chegarão ao cúmulo de permitir uma interpretação nazista de que os alemães deram origem aos povos helênicos. Todos esses desenvolvimento da Ciência e da Filosofia em tempos positivistas abriram espaço para transformar o outro em objeto de estudo e, como tal, em objeto exótico diferente do sujeito perscrutante. Em resumo, avolumava-se uma onda eugênica, nacional-romântica, sem fissuras, muito fértil para ideologias de dominação prática de um Cecil Rhodes, em sua ambição de conquistar estrelas e planetas, fosse nas formulações teóricas de Friedrich Ratzel.
O empreendimento geopolítico resultante dividiu África, Ásia e Oceania em zonas de efetiva neocolonização européia, implicando ocupações e uso instrumental da violência a serviço de interesses econômicos das burguesias, como bem observa H. Arendt. Ou também o imperialismo em que zonas mais desfavorecidas economicamente e fracas politicamente são submetidas, mesmo que sem ocupação. Foi o que ocorreu com a América Central pelos americanos ou mesmo o Japão, que teve seus portos abertos à ameaça de canhão pelos EUA. Neste panorama um país que se industrializou e se unificou tardiamente como a Alemanha – e a Itália também – ficou para trás na corrida colonialista por territórios, sobrando-lhe além da Namíbia e Tanzânia, mera disputa pelo Marrocos. O equilíbrio europeu de Metternich rompeu-se definitivamente com a queda de Bismarck em 1862, quando o expansionismo alemão começa a caracterizar-se como realmente problemático para as duas maiores potências européias, Inglaterra e França. O confronto por “espaço vital” fica armado para o incremento de hostilidades que culminarão na I Guerra Mundial.