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Padrão de Resposta
a) A partir de 1967, com a “nova correção de rumos”, a diplomacia brasileira retomará os princípios universalistas e pragmáticos da política externa independente (1961-64). A tônica era o nacional-desenvolvimentismo, a política externa era percebida como meio suplementar à política de desenvolvimento da economia brasileira. Nessas circunstâncias, os alinhamentos automáticos eram refutados prevalecendo o pragmatismo de meios.
A busca de novos parceiros e mercados animará a política externa do período, será nesse contexto que a África, especialmente a África sub-saariana, despertará grande atenção da chancelaria brasileira. Embora a diplomacia brasileira já tivesse dado sinais de aproximação com o continente africano em princípios da década de 60, quando vigorava a Política Externa Independente, esse ensaio de aproximação fora tímido, o que se verifica com a posição brasileira de não condenar expressamente o colonialismo português tendo-se em consideração os laços históricos de Portugal com o Brasil.
Na década de 1970 a política africana do Brasil ganhará maior substância, principalmente quando da gestão de Azeredo da Silveira no governo Geisel, a partir de 1974. As circunstâncias internacionais davam ensejo ao discurso terceiromundista defendido pelo Brasil, era o período da “détente” (1969 -1979) em que os países de menor desenvolvimento uniam seu discurso na defesa de uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), buscava-se um “aggiornamento” no diálogo norte-sul. O período da “détente”, em que as duas potências mundiais passam a concertar-se e criam regimes de controle de armamentos, coincide com a perda da hegemonia relativa dos Estados Unidos e a ampliação dos espaços de poder com a consolidação de novas potências econômicas, como a Comunidade Européia e o Japão, bem como o reconhecimento da República Popular da China como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.
A diplomacia brasileira soube aproveitar essas brechas do sistema internacional e buscou intensivamente ampliar seu poder de barganha e multilateralizar, ou melhor, mundializar a sua política externa.
A partir de 1974 o Brasil condenará expressamente o colonialismo português em África, também passará a condenar ostensivamente o regime do “apartheid” na África do Sul. Substancialmente, o Brasil será o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, em 1975.
Será, com efeito, na década de 1980 quando o Brasil consolidará sua política africana, é quando grandes empresas brasileiras passam a investir no continente, bem como realizar importantes obras de infra-estrutura.
b) A aparente contradição no reconhecimento brasileiro do governo do MPLA, de orientação marxista, de Angola em 1975 é rapidamente desfeita ao analisar-se a política externa brasileira da época. Para além da retórica terceiromundista e da evocação dos verdadeiros laços históricos e culturais que unem o Brasil à Angola, estava em questão os interesses econômicos brasileiros. Assim é possível compreender a razão de o Brazil ter sido o primeiro país a reconhecer a independência de Angola.
Isso é explicado pelo pragmatismo de meios que então orientava a política externa brasileira, a incessante busca pelo desenvolvimento econômico obstava possíveis alinhamentos ideológicos, era no diálogo sul-sul que o Brasil buscaria alcançar seus objetivos já que a parceria com o norte (com os Estados Unidos) fora frustada. É importante salientar que nesse período o Brasil engajou-se em importantes parcerias com países como Alemanha e Japão, tratava-se de uma diplomacia universalista e pragmática que buscava contrabalançar o peso dos Estados Unidos.
A Angola seria um país chave na estratégia de inserção brasileira no continente africano, por se tratar de um país muito próximo culturalmente, de um país de língua portuguesa, com localização estratégica e, principalmente, com grande riqueza de recursos naturais, em especial o petróleo. Tendo-se em consideração o choque do preço do petróleo em 1973, essa matéria-prima tornara-se ainda mais valiosa. Não será coincidência que um dos investimentos de vulto do Brasil em Angola seria extração de petróleo na plataforma continental pela Petrobrás.
A Angola, portanto, encontrava -se na confluência dos interesses brasileiros em África, de modo que o imediato reconhecimento de seu governo não constituía qualquer contradição, mas referendava o pragmatismo responsável da política externa durante o governo Geisel.