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A política externa praticada pelo Barão do Rio Branco marcou mudanças significativas tanto em relação à política imperial quanto em relação à dos primeiros governos republicanos. As mudanças de maior profundidade são, grosso modo, a relação com os vizinhos e, principalmente, o deslocamento do eixo diplomático do Brasil, da Europa para os Estados Unidos.
Durante o Império, a política externa tinha caráter marcadamente europeísta, o que se justificava pelos vínculos mantidos pela Coroa com o Velho Continente. A Proclamação da República representou guinada radical: a adesão às propostas norte-americanas, já visível na Conferência de Washington de 1889, era vista como decorrência natural do republicanismo.
Com Rio Branco, todavia, essa orientação de cunho ideológico ganha caráter marcadamente realista. O chanceler partia da análise do cenário internacional dominado pelo imperialismo, no qual apenas a força garantiria a soberania das nações. Diante disso, seria útil estabelecer relação especial com os Estados Unidos, potência emergente nas Américas, o que ajudaria o Brasil a resistir a eventuais pressões européias. Tal relação também daria força ao Brasil nas relações com os vizinhos, as quais preocupavam o Barão, pela singularidade do Brasil perante o conjunto das nações hispano-americanas. O fato de os EUA também serem singulares favorecia tal aliança.
O intuito do Barão do Rio Branco ao se aproximar dos EUA era garantir a plena soberania brasileira e a preeminência do país na América do Sul. Não havia, pois, sacrifício da soberania, o que fica evidente quando se nota que a aliança com os EUA ocorreria apenas se fosse possível. No final de sua chancelaria, Rio Branco chegou a afirmar que entre EUA e Brasil deveria haver competição: a “nobre emulação”. O projeto do Pacto ABC, com Argentina e Chile, resulta dessa visão.
Entre as medidas que evidenciam o apoio brasileiro aos EUA está a contestação da Doutrina Drago, que rejeitava o uso da força na cobrança de dívidas estatais. Rio Branco rejeitou tal tese, a qual fora suscitada contra o incidente das canhoneiras européias que bloquearam a Venezuela, atitude avalizada pelos EUA. Para o chanceler brasileiro, os países americanos deveriam cumprir suas obrigações. Além disso, ele via no aval americano o reconhecimento de que os EUA eram a potência regional, que seria consultada pelos europeus. Por isso, o Brasil aderiu à revisão do monroísmo de Theodore Roosevelt: tal doutrina serviria como proteção contra ingerências européias e foi invocada no incidente com a canhoneira alemã Panther e nas negociações com o Bolivian Syndicate, quando da questão do Acre.
Quanto à relação com os países vizinhos, estas seriam caracterizadas pela solução pacífica dos conflitos de limites e pela competição com a Argentina pela liderança regional. Os limites com os vizinhos foram, em sua maioria, resolvidos por meio de tratados bilaterais, com aplicação da doutrina tradicional do uti possidetis e do uso dos mapas coloniais. A exceção é a aquisição do Acre da Bolívia, situação em que a doutrina não beneficiaria o Brasil, razão por que foi paga indenização pelo território, já ocupado por brasileiros e que fora concedido a consórcio estrangeiro: o Bolivian Syndicate.
Já as relações com a Argentina foram marcadas por atritos, notadamente por conta do rearmamento da Marinha brasileira, defendido pelo Barão do Rio Branco, mas rejeitado pela Argentina, que via na medida desígnios imperialistas do Brasil. A disputa pela liderança regional se baseava na tentativa de se aproximar dos EUA, os quais tendiam a apoiar o Brasil. Isso fica claro diante da instalação da primeira embaixada norte-americana na América do Sul no Brasil. A oposição à Doutrina Drago também foi causa de atrito.
Esse cenário de rivalidade começa a mudar no final da chancelaria de Rio Branco, com o já citado Pacto ABC, que sinalizava a intenção de reaproximar Brasil e Argentina. Havia ainda a intenção de formar contrapeso aos EUA, o que não se concretizou.