Discorra sobre os seguintes aspectos do Movimento Modernista, inaugurado com a Semana de Arte Moderna de 1922:
a) as idéias que inspiraram o movimento;
b) as principais contribuições de escritores brasileiros ao projeto modernista, de 1922 a 1945.
Discorra sobre os seguintes aspectos do Movimento Modernista, inaugurado com a Semana de Arte Moderna de 1922:
a) as idéias que inspiraram o movimento;
b) as principais contribuições de escritores brasileiros ao projeto modernista, de 1922 a 1945.
a) A Grande Guerra que ceifou a vida de milhões de jovens europeus de 1914 a 1918 alterou profundamente a visão de mundo daquele continente. O otimismo na ciência e a crença em relação ao “progresso” sucumbiram diante da carnificina daquela guerra no seio da civilização européia. Os efeitos do conflito no pensamento e na cultura foram imediatos para o sepultamento da Belle Époque e para o surgimento do Modernismo.
Este último assumiu diferentes versões. Na Suíça, entre jovens que se recusavam a lutar na guerra, surgiu o Dadaísmo. O Cubismo na França e o Expressionismo alemão foram outras manifestações no rol exaustivo que forma o movimento moderno como um todo.
O Brasil, distante da ebulição européia do imediato pós-guerra, foi refratário a essas inovações até a Semana de Arte Moderna de 1922, que teve lugar no Teatro Municipal de São Paulo.
Roberto Schwartz e seu conceito de “idéias fora de lugar” podem ser evocados na análise de como um movimento marcadamente europeu, típico de sociedade altamente industrializada e destruída pela guerra, pôde ser absorvido (ou deglutido, para usar a expressão de Oswald de Andrade) pela sociedade brasileira da República Velha, caracterizada pela agricultura e por organizações sociais arcaicas. Nesse sentido, o fato de o Modernismo ter “surgido” na capital paulista não pode ser desprezado.
São Paulo, nesse momento, industrializava-se rapidamente. Era uma cidade de imigrantes, em especial italianos, portugueses e árabes. A elite cafeeira adotara a cidade como sua residência permanente, em detrimento da fazenda (absenteísmo), o que enriquecera a cidade, dotando-a de infraestrutura técnica e cultural. Essa elite paulistana falava francês, lia Shakespeare e era educada por preceptoras alemãs. Tinha, portanto, os pés no Brasil e a cabeça na Europa. São os membros dessa elite que vão patrocinar o Modernismo no Brasil.
No entanto, é um equívoco afirmar que, antes de 1922, não havia nada de moderno no Brasil. Curiosamente, pode-se considerar Monteiro Lobato, autor do virulento artigo “Paranóia e Mistificação”, em que criticava os modernistas do Teatro Municipal, como um escritor prémoderno.
Do ponto de vista conceitual, celebrizou-se a “antropofagia” de Oswald de Andrade. O Manifesto Antropófago pregava a absorção de idéias vindas de fora (sua deglutição), sua adaptação à realidade brasileira (misturadas à elementos da cultura nacional) e o conseqüente surgimento de algo novo e genuinamente brasileiro. Valoriza-se, assim, o passado e, ao mesmo tempo, a influência estrangeira. Havia, por outro lado, modernistas que refutavam essa visão “cosmopolita”. Os nativistas eram favoráveis ao fechamento da cultura brasileira à influência externa, vista como maléfica. Deveríamos valorizar exclusivamente o que é nosso. Essa visão seria adotada pela AIB (Ação Integralista Brasileira), de Plínio Salgado e Menotti Del Picchia, dois participantes da Semana de 1922.
b) O Modernismo teve profunda influência entre os escritores brasileiros. Nas Ciências Sociais, Antônio Candido identifica três autores e três obras, chamando os primeiros de “demiurgos” do pensamento social brasileiro, verdadeiros divisores de águas. São eles: Gilberto Freyre, com Casa Grande & Senzala (1933); Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil (1936) e Caio Prado Jr., com Formação do Brasil Contemporâneo (1942).
Freyre, culturalista, influenciado por Franz Boas, sublinha a importância da mestiçagem na formação da cultura e do caráter nacionais. Holanda, também culturalista, está influenciado por Max Weber, e faz análise institucional do Brasil: a dificuldade do “homem cordial” brasileiro, profundamente afetivo, em manter relações frias, formais e racionais, o que explicaria o patrimonialismo. Prado Jr., por sua vez, faz análise estruturalista (marxista) da formação do país. Para ele, o Brasil já nasce capitalista, mas inserido de maneira subordinada no capitalismo mundial (divisão internacional do trabalho).
Na literatura, o período em tela é momento de grande efervescência. Além da obra dos participantes diretos da Semana de 1922, como Mário de Andrade (Macunaíma, Contos Novos) e Oswald de Andrade (O Rei da Vela), o Modernismo cria raízes em nosso País e espalha-se pelo território nacional. Com efeito, nos 1930/1940, essa “difusão” fica evidente com o surgimento do Regionalismo de José Lins do Rego e Jorge Amado. Na poesia, destacam-se Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Graciliano Ramos, romancista, vai imprimir forte conteúdo social em suas obras (São Bernardo, Vidas Secas) e terá destacado papel político na denúncia de mazelas sociais e na oposição ao Estado Novo (1937-1945) de Vargas, pela qual é preso. Na cadeia, escreve Memórias do Cárcere.
A influência da Semana de 1922 vem até hoje. Várias gerações têm dialogado com a obra dos primeiros modernistas. A famosa montagem de O Rei da Vela no Teatro Oficina, de José Celso Martinez Correa, em São Paulo nos anos 1960 é sintomática dessa influência permanente daqueles pioneiros.
a) A Grande Guerra que ceifou a vida de milhões de jovens europeus de 1914 a 1918 alterou profundamente a visão de mundo daquele continente. O otimismo na ciência e a crença em relação ao “progresso” sucumbiram diante da carnificina daquela guerra no seio da civilização européia. Os efeitos do conflito no pensamento e na cultura foram imediatos para o sepultamento da Belle Époque e para o surgimento do Modernismo.
Este último assumiu diferentes versões. Na Suíça, entre jovens que se recusavam a lutar na guerra, surgiu o Dadaísmo. O Cubismo na França e o Expressionismo alemão foram outras manifestações no rol exaustivo que forma o movimento moderno como um todo.
O Brasil, distante da ebulição européia do imediato pós-guerra, foi refratário a essas inovações até a Semana de Arte Moderna de 1922, que teve lugar no Teatro Municipal de São Paulo.
Roberto Schwartz e seu conceito de “idéias fora de lugar” podem ser evocados na análise de como um movimento marcadamente europeu, típico de sociedade altamente industrializada e destruída pela guerra, pôde ser absorvido (ou deglutido, para usar a expressão de Oswald de Andrade) pela sociedade brasileira da República Velha, caracterizada pela agricultura e por organizações sociais arcaicas. Nesse sentido, o fato de o Modernismo ter “surgido” na capital paulista não pode ser desprezado.
São Paulo, nesse momento, industrializava-se rapidamente. Era uma cidade de imigrantes, em especial italianos, portugueses e árabes. A elite cafeeira adotara a cidade como sua residência permanente, em detrimento da fazenda (absenteísmo), o que enriquecera a cidade, dotando-a de infraestrutura técnica e cultural. Essa elite paulistana falava francês, lia Shakespeare e era educada por preceptoras alemãs. Tinha, portanto, os pés no Brasil e a cabeça na Europa. São os membros dessa elite que vão patrocinar o Modernismo no Brasil.
No entanto, é um equívoco afirmar que, antes de 1922, não havia nada de moderno no Brasil. Curiosamente, pode-se considerar Monteiro Lobato, autor do virulento artigo “Paranóia e Mistificação”, em que criticava os modernistas do Teatro Municipal, como um escritor prémoderno.
Do ponto de vista conceitual, celebrizou-se a “antropofagia” de Oswald de Andrade. O Manifesto Antropófago pregava a absorção de idéias vindas de fora (sua deglutição), sua adaptação à realidade brasileira (misturadas à elementos da cultura nacional) e o conseqüente surgimento de algo novo e genuinamente brasileiro. Valoriza-se, assim, o passado e, ao mesmo tempo, a influência estrangeira. Havia, por outro lado, modernistas que refutavam essa visão “cosmopolita”. Os nativistas eram favoráveis ao fechamento da cultura brasileira à influência externa, vista como maléfica. Deveríamos valorizar exclusivamente o que é nosso. Essa visão seria adotada pela AIB (Ação Integralista Brasileira), de Plínio Salgado e Menotti Del Picchia, dois participantes da Semana de 1922.
b) O Modernismo teve profunda influência entre os escritores brasileiros. Nas Ciências Sociais, Antônio Candido identifica três autores e três obras, chamando os primeiros de “demiurgos” do pensamento social brasileiro, verdadeiros divisores de águas. São eles: Gilberto Freyre, com Casa Grande & Senzala (1933); Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil (1936) e Caio Prado Jr., com Formação do Brasil Contemporâneo (1942).
Freyre, culturalista, influenciado por Franz Boas, sublinha a importância da mestiçagem na formação da cultura e do caráter nacionais. Holanda, também culturalista, está influenciado por Max Weber, e faz análise institucional do Brasil: a dificuldade do “homem cordial” brasileiro, profundamente afetivo, em manter relações frias, formais e racionais, o que explicaria o patrimonialismo. Prado Jr., por sua vez, faz análise estruturalista (marxista) da formação do país. Para ele, o Brasil já nasce capitalista, mas inserido de maneira subordinada no capitalismo mundial (divisão internacional do trabalho).
Na literatura, o período em tela é momento de grande efervescência. Além da obra dos participantes diretos da Semana de 1922, como Mário de Andrade (Macunaíma, Contos Novos) e Oswald de Andrade (O Rei da Vela), o Modernismo cria raízes em nosso País e espalha-se pelo território nacional. Com efeito, nos 1930/1940, essa “difusão” fica evidente com o surgimento do Regionalismo de José Lins do Rego e Jorge Amado. Na poesia, destacam-se Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Graciliano Ramos, romancista, vai imprimir forte conteúdo social em suas obras (São Bernardo, Vidas Secas) e terá destacado papel político na denúncia de mazelas sociais e na oposição ao Estado Novo (1937-1945) de Vargas, pela qual é preso. Na cadeia, escreve Memórias do Cárcere.
A influência da Semana de 1922 vem até hoje. Várias gerações têm dialogado com a obra dos primeiros modernistas. A famosa montagem de O Rei da Vela no Teatro Oficina, de José Celso Martinez Correa, em São Paulo nos anos 1960 é sintomática dessa influência permanente daqueles pioneiros.