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Padrão de Resposta
O governo Dutra, que se instaurou após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), inaugurou a fase da República Liberal, que perduraria, apesar dos vários momentos de contestação ao regime, até o golpe militar de 1964. Nos últimos anos do Estado Novo, que havia abolido os partidos políticos e concentrado o poder do Estado na figura de Getúlio Vargas, o presidente liberou a formação de partidos políticos, com a criação da UDN (partido de direita e de contestação do regime paternalista de GV), do PTB (partido das classes proletárias urbanas e do sindicalismo nacional) e do PSD (partido dos grupos que apoiavam o regime Vargas). Além desses, destaca-se a legalização da existência do Partido Comunista Brasileiro, que por muitos anos existiu na ilegalidade. Dutra foi eleito por uma aliança PTB-PSD contra o candidato da UDN, Eduardo Gomes.
No campo das relações internacionais do Brasil, a principal diferença da presidência do General Dutra em relação ao primeiro governo de Vargas reside no entendimento do relacionamento com os Estados Unidos. Ambos esperavam tirar vantagens da relação bilateral para promover o desenvolvimento do país. Entretanto, durante o governo Vargas (1930-1945), desenvolveu-se uma política de barganha, que visava à obtenção de benefícios concretos à modernização da indústria, principalmente a indústria de base (siderurgia nacional), como incentivo ao crescimento autônomo da produção nacional.
Na primeira fase do governo Vargas, em que se delineavam as facções que iriam disputar a 2ª Guerra Mundial – Eixo e Aliados – Vargas praticou uma política de “eqüidistância pragmática”, como denominou Gelson Moura. O governo brasileiro praticou o comércio compensado com a Alemanha (e em menor escala com a Itália), por meio dos marcos de compensação, promovendo o aumento do intercâmbio comercial entre os dois países. Nesse período, o comércio com os EUA perdeu importância relativa e as conversações entre Brasil e Alemanha causaram atrito nas relações com os EUA. A política de barganha concentrou-se principalmente na questão da indústria siderúrgica nacional, com negociações com o grupo Krupp na Alemanha e com empresas americanas. Com o prenúncio da Grande Guerra e o apoio do Brasil aos Aliados, logra-se a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada em Volta Redonda, com capital do governo americano por intermédio do Eximbank.
Com o rompimento das relações com o Eixo e a entrada do Brasil na guerra, as relações com os EUA e com os aliados estreitaram-se, como demonstram o envio das forças brasileiras ao campo de batalha na Itália e a formação do “Trampolim da Vitória”, quando Getúlio Vargas permitiu a utilização de bases no Nordeste, juntamente com o envio de matérias primas estratégicas aos esforços de guerra (em troca de auxílio ao rearmamento das Forças Armadas Brasileiras).
O governo Dutra inicia-se nesse espírito de alinhamento com os EUA. No entanto, Dutra praticaria uma política de “alinhamento automático” com a potência americana. Com o começo da Guerra Fria e da disputa ideológica Leste-Oeste, o Brasil coloca-se sob a zona de influência dos EUA. Dutra entende o alinhamento com os EUA como benéfico ao objetivo desenvolvimentista da Política Externa Brasileira. Acredita ser possível a obtenção de capital do governo americano para auxiliar o desenvolvimento nacional, enquanto os EUA concentram-se na política de reconstrução da Europa e do Japão (Plano Marshall). É o fim da política de barganha que havia marcado o governo de GV e trazido resultados concretos para o Brasil. O Brasil assina os Acordos de Bretton Woods e integra o sistema internacional criado sob a órbita da Guerra Fria.
No que se refere à política regional, na esfera das Américas, o governo Vargas também se diferencia do governo Dutra. GV iniciou seu governo com uma política de aproximação com os Estados latino-americanos sob a política da boa-vizinhança do governo Roosevelt. Destacam-se o Pacto Saavedra-Lamas (1933), as mediações no conflito da Letícia (Peru e Colômbia) e do Chaco (Bolívia e Paraguai), além de Acordo com a Bolívia, que se concretizaria no Acordo de Raboré no governo JK. O governo Dutra rompeu o bom relacionamento com a Argentina (encontro entre Vargas e Justo), principalmente após a reticência argentina em romper relações com o Eixo. Dutra inseriu o Brasil nos organismos criados pelo governo americano para institucionalizar sua área de influência nas Américas: o TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca) de 1947 e a OEA (Organização dos Estados Americanos) de 1948.
Quanto aos partidos políticos, o governo Dutra instaurou-se sob forte oposição da UDN, principalmente de seu líder Carlos Lacerda, por ter sido considerado uma vitória da aliança varguista e uma continuação das políticas trabalhistas do governo Vargas. Dutra coloca novamente na ilegalidade o Partido Comunista Brasileiro, que no clima da Guerra Fria e da política de contenção ao comunismo é enquadrado na legislação brasileira como contrário ao regime democrático representativo. O peso dos partidos políticos no governo Dutra é simbolizado pela disputa entre a UDN e o PDS-PTB quanto ao regime de governo ideal ao crescimento nacional. Cabe notar que a política de abertura de Dutra favoreceu, em certos aspectos, as reivindicações da UDN, apesar da continuidade partidária.
Assim, se o governo Vargas e o governo Dutra apresentam semelhanças quanto à ideologia partidária, no que tange às relações internacionais, a política de barganha de Vargas foi abandonada, o que não logrou resultados concretos para o Brasil, visto que os Estados Unidos concentravam-se nas suas políticas de segurança internacional e de reconstrução da Europa e do Japão no pós-guerra.