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Padrão de Resposta
a) De acordo com José Flávio Sombra Saraiva, as relações do Brasil com a África, de 1930 até 1990, podem ser definidas através de quatro momentos: a permanência do silêncio (1930-1946); o lento renascimento do interesse na África (1946-1961); avanços e recuos (1961-1969); a reafirmação da política africana do Brasil (1969-1990).
Durante a primeira fase, o interesse do Brasil na África foi pouco, seja por razões de ordem ideológica (as elites desejavam ignorar a contribuição africana para a formação da nacionalidade brasileira), seja por razões de ordem material (o comércio com a África não possuía expressão para a economia brasileira).
Ao longo da segunda fase, a situação começa a mudar, especialmente em função da Conferência de Bandung (1955) e do movimento de descolonização dos países africanos. Todavia, percebe-se uma cisão entre discurso e prática. Ao mesmo tempo em que o Brasil se mostra a favor do princípio da autodeterminação dos povos, o peso da afetividade lusa se faz presente, evitando o Brasil questionar a colonização portuguesa na África. Soma-se a isto o entendimento brasileiro de que o regime de Apartheid na África do Sul seria um problema soberanista, sem dizer respeito à comunidade internacional.
A necessidade de renovar a política externa em relação à África foi um dado reconhecido por Jânio Quadros, questão inclusive levantada pelo presidente em artigo publicado na revista “Foreign Affairs”. Neste sentido, a Política Externa Independente defendeu com veemência a autodeterminação e o anticolonialismo, a despeito da abstenção nos votos relativos às questões de Angola e Argélia na ONU.
Para concluir este breve excurso, os dois primeiros governos militares tiveram como preocupação evitar a possibilidade de novas nações africanas se converterem ao comunismo, razão pela qual hesitaram a respeito da descolonização. Tal recuo é motivado não apenas pelo ocidentalismo, mas também pelos vínculos de solidariedade com Portugal.
No que diz respeito ao governo Médici, cumpre lembrar que este se diferencia dos antecessores por buscar cada vez mais uma inserção pragmática no sistema internacional, ainda que sob um paradigma americanista. Soma-se a isto um fator ideológico, pois o legado africano para a formação brasileira deixava de ser visto como algo negativo, devido especialmente à divulgação do pensamento de Gilberto Freyre, fundado na noção de democracia racial. Com efeito, criou-se um núcleo de estudos africanos no Itamaraty, ao mesmo tempo em que a idéia-força da afetividade luso-brasileira começava a perder legitimidade.
Existem dois outros fatos que merecem destaque no que se refere à política africana do governo Médici. Primeiro, a viagem do ministro das relações exteriores, Gibson Barbosa, a cinco países da África Ocidental. Segundo, as recomendações categóricas de Médici ao deixar o governo, no sentido de que o Brasil deveria rever seu posicionamento sobre a colonização portuguesa.
b) O que no governo Médici foi o início de uma inflexão, no governo Geisel se tornou realidade através do pragmatismo responsável e ecumênico. Vale lembrar que a conjuntura do governo Geisel foi marcada pela crise do petróleo de 1973; este foi um dos fatores, porém não o único, que levou o Brasil a diversificar seus parceiros diplomáticos e comerciais, aproximando-se inclusive dos países socialistas e dos países árabes.
Verifica-se ao longo do pragmatismo responsável um aprofundamento do comércio e dos vínculos culturais com os países da África. Em 1975, o Brasil reconheceu o governo do MPLA na Angola antes que as demais nações – uma evidência de sua nova orientação na política externa. Com isso, colocou-se um ponto final no apoio brasileiro à colonização portuguesa.
De fato, os resultados obtidos com a nova política africana não se restringiram ao governo Geisel, prolongando-se nos governos seguintes, ainda que com menor intensidade. Prova do peso da África para a política externa brasileira foi a visita do presidente Figueiredo ao continente em 1983. Em momento posterior, o presidente Sarney também visitou a África, com o objetivo de aprofundar os vínculos existentes.
Finalmente, vale mencionar que, a despeito do enfraquecimento da política africana do Brasil a partir do governo Collor, a mesma voltou a ser prioritária com o governo atual, em função do fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Em que pese a questão econômica, atualmente também existem questões humanitárias, traduzidas, por exemplo, na aplicação do programa brasileiro de combate à AIDS em países africanos.