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A formulação de Araújo Castro pode ser lida como uma afirmação do universalismo e da autonomia, num momento em que nossa política externa guiava-se pela busca autônoma do interesse nacional.
Para entender estes conceitos, é importante antes comentar o contexto internacional da segunda metade dos anos 60 e do início dos 70. O processo de descolonização, que estava então quase completo, criava novos atores estatais que, reunidos no chamado Terceiro Mundo, buscavam um caminho próprio de desenvolvimento. A imensa superioridade que os EUA possuíam no imediato pós-Segunda Guerra Mundial erodia-se, à medida que outras potências aproximavam-se de seu poder econômico e militar. O conflito da Guerra Fria distendia-se por meio da détente americano-soviética.
Fica claro que este contexto não permitia que o Brasil seguisse uma política de alinhamento automático aos Estados Unidos, como fora tentada nos governos Dutra e Castello Branco. Nem mesmo a barganha nacionalista de Vargas e JK era suficiente. Fazia-se necessário ampliar os horizontes da política externa brasileira, que não poderia mais articular-se unicamente no eixo de relações com os EUA. Esta articulação fazia sentido quando a principal clivagem do sistema internacional era o conflito Leste-Oeste. Mas mostrava-se inadequada num mundo onde o conflito Norte-Sul era cada vez mais importante.
Em vista do exposto acima, podemos entender o universalismo como uma expansão das relações internacionais do País para além do hemisfério ocidental, caracterizado pela supremacia norte-americana. O Brasil buscaria a ampliação de relações “horizontais” e “diagonais”, ou seja, com o resto do mundo em desenvolvimento (relações Sul-Sul) e com o mundo socialista (relações Sul-Leste).
Quando Araújo Castro afirma que o Brasil “não pode ser considerado como parcela de um continente”, propõe justamente uma superação do pan-americanismo e defende que o País tenha relacionamento com todos os atores do sistema internacional. Ao mesmo tempo, quando afirma que o Brasil não pode ser visto “como capítulo de um agrupamento de países em desenvolvimento”, mostra que o universalismo, ao propor uma expansão na amplitude das relações internacionais do País, não significava que deveríamos assumir uma postura de confronto com relação às grandes potências. Isto explica por que o Brasil nunca foi membro pleno do Movimento dos Não-Alinhados, tendo atuado apenas como observador.
O universalismo andava de mãos dadas com a maior autonomia nas relações internacionais do País. Buscar um papel relevante além do hemisfério ocidental implicava em reduzir o alinhamento com os Estados Unidos. Procurando, no quadro de uma política nacionalista, usar a política externa como instrumento do desenvolvimento, o Brasil ampliava seus parceiros, tanto econômicos quanto políticos. O exemplo mais marcante desta política de autonomia foi o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha de 1975, que encontrou forte oposição nos EUA mas foi levado à frente mesmo assim. Outro exemplo foi a questão do reconhecimento de Angola (também na gestão de Azeredo da Silveira no MRE e de Geisel na presidência), na qual o Brasil opôs-se aos Estados Unidos – o que deixa claro que uma política externa verdadeiramente universalista não é compatível com um alinhamento subordinado aos EUA ou a qualquer grande potência.