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Padrão de Resposta
Desde o Império, o café havia-se tornado o principal produto na pauta de exportações do Brasil. A República Velha manteria o modelo agroexportador do período anterior, bem como seria pautada pelo domínio político dos cafeicultores do oeste paulista, diferentemente do que ocorria no Segundo Reinado.
O peso do café na economia brasileira durante a República Velha envolve diversos fatores: o café era o principal produto de exportação e, por conseqüência, a principal fonte de receitas para o governo e de renda para o país; os cafeicultores do oeste paulista promoveram a imigração européia para substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre; o crescimento da produção e das exportações levou aos primeiros investimentos em infra-estrutura, como ferrovias; a renda gerada pelo café levou aos primeiros investimentos significativos na industrialização; e a combinação desses fatores provocou a formação de grandes centros urbanos na zona cafeeira, principalmente São Paulo.
O incentivo e a promoção da imigração foram importantes initiatives que tiveram forte impacto sobre a economia nacional. Além de suprir a mão-de-obra nos cafezais, a imigração trouxe ao Brasil, além de camponeses, mão-de-obra capaz de trabalhar na indústria, treinada nas fábricas italianas.
A construção de ferrovias para o escoamento da produção de café influenciou significativamente a estrutura urbana da região. A atração de população e a formação de aglomerações urbanas possibilitaram a formação de um incipiente mercado de comércio e serviços, bem como a formação das primeiras indústrias, principalmente no setor têxtil.
O peso mais importante do café nesse período, entretanto, estava nas exportações. O Brasil da República Velha cumpria, na divisão internacional do trabalho, o papel de exportador de produtos primários e importador de produtos manufaturados. Por ser um país ainda de baixa industrialização, a maior parte das receitas fiscais do governo federal provinha dos impostos de exportação. Tais receitas eram essenciais não apenas para a administração interna, mas principalmente para a acumulação de divisas e para o pagamento da dívida externa brasileira. As receitas alfandegárias eram tão importantes economicamente que, no funding loan, a hipoteca das alfândegas dos principais portos brasileiros foi dada como garantia.
A economia brasileira dependente das exportações de café estava, portanto, fragilizada em relação a possíveis reduções do preço do produto no mercado internacional. Tais reduções provocaram políticas de valorização do produto que, além de garantirem as receitas governamentais, procuravam garantir a renda dos cafeicultores.
A queda dos preços internacionais do café era causada principalmente pela superprodução brasileira. Mecanismos de desavalorização cambial eram utilizados para garantir a renda dos cafeicultores, o que causava o encarecimento das exportações. Celso Furtado define tal mecanismo como “socialização das perdas”. Em graves crises de superprodução, eram utilizados mecanismos de compra e estocagem de parte da safra pelo governo central e, na impossibilidade de fazê-lo, tal compra era assumida pelo governo provincial.
Em 1906, produtores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro firmaram o Pacto de Taubaté, que consistia na venda de parte da safra para investidores estrangeiros, que fariam a administração da oferta do produto no mercado internacional, e na contração de empréstimo pelo governo para a compra de outra parcela da safra.
As políticas de valorização, entretanto, não eram eficientes para manter o nível de preços. A elevação do preço do produto incentivava o investimento de novos produtores, ocorria um aumento das plantações e, por conseqüência, um nova crise de superprodução a curto prazo. Assim se formava um círculo vicioso que exigia a aplicação de sucessivas políticas de valorização.
A República Velha era, antes de tudo, um regime dominado pelas oligarquias regionais. Um dos principais artífices da República, o Partido Republicano Paulista – PRP –, era composto principalmente por cafeicultores do oeste paulista insatisfeitos com a falta de representatividade que tinham no Império e que, por isso, defendiam o federalismo e a autonomia provincial. Na República esses setores formariam a elite governamental e, a partir da “política dos governadores” de Campos Sales e da consolidação da “República do Café com Leite”, com o Pacto de Ouro Fino, em 1911, o interesse de tais classes predominaria sobre o interesse geral.
O peso relativo do café na economia do período, portanto, deve-se tanto à necessidade de receitas fiscais quanto à necessidade de satisfação dos interesses econômicos das elites cafeicultoras. Além disso, o peso relativo do café era potencializado pela não diversificação da atividade econômica, o que aumentava a depedência das exportações do produto. As políticas de valorização tornavam-se necessárias para a manutenção do nível de preços e receitas, a produção aumentava, os preços caíam e novas políticas de valorização tornavam-se necessárias: um círculo vicioso que seria rompido somente com a crise de 1929 e a inviabilização da aplicação de tais políticas.