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Ao assumir o poder em 1961, Jânio Quadros encarnava a rejeição à forma como a política era feita no Brasil desde 1945. Apesar de apoiado pela UDN, partido que havia recolhido apenas derrotas nas três eleições presidenciais anteriores, Jânio foi eleito pelo pequeno PTN, depois de uma carreira bastante rápida, na qual havia sido prefeito da cidade de São Paulo, governador do Estado paulista e deputado pelo Paraná. Como a mostrar seu desprezo pelas siglas partidárias, nessa última eleição havia concorrido pelo PTB, partido criado por Getúlio Vargas para ser o seu suporte junto às classes populares.
Durante a campanha presidencial, Jânio havia usado uma vassoura como símbolo de que varreria toda a podridão política que denunciava. A UDN via no candidato a oportunidade de chegar ao poder e, por vir Jânio de um partido pequeno, controlá-lo no Congresso. A aliança dos partidos criados pelos que apoiavam Getúlio Vargas, PSD-PTB, em grande parte pelo pequeno envolvimento do Presidente da República, Juscelino Kubitschek, no pleito, havia indicado o General Henrique Lott, de pouco carisma. Juscelino tinha planos de voltar ao poder em 1965 e sabia que ao próximo governo medidas econômicas duras caberiam.
Apuradas as urnas, Jânio tornava-se o presidente eleito com o maior número de votos até então. Como as eleições para presidente e para vice eram separadas, o mesmo eleitorado que elegeu Jânio Quadros colocou na vice-presidência o prócer do PTB e bête-noire dos militares desde 1954, quando foi ministro do trabalho, João Goulart.
Dessa forma, Jânio era eleito não apenas porque o eleitorado havia identificado nele uma forma de fazer política diferente, mas também pela falta de empenho de JK em fazer o sucessor e pela certeza da UDN de que poderia controlá-lo. Ao longo da década de 1950, denúncias de corrupção e crises políticas tinham-se constituído no cerne da vida política brasileira. O suicídio de Getúlio em 1954, o golpe dado pelo General Lott para tornar possível a posse de JK e o acirramento da disputa entre PSD-PTB, de um lado, e UDN de outro, fizeram o eleitor brasileiro procurar algo diverso, e a figura do professor paulista avesso à forma tradicional de política – e que havia feito dois bons governos tanto na cidade quanto no estado de São Paulo – parecia ser o que o eleitor queria.
A atitude de Jânio Quadros no governo, no entanto, foi diversa da que a UDN esperava. O partido não conseguiu, como pretendia, controlar o presidente. Ao mesmo tempo em que esse seguia, no plano econômico, o receituário de ajustes do FMI – o que significava aumento no preço do trigo e do petróleo, antes subsidiados, com os impactos no custo de vida diminuindo-lhe a apoio popular – Quadros, no âmbito externo, iniciava política externa independente, rompendo um alinhamento com os Estados Unidos inaugurado pelo Barão do Rio Branco. Ao lado disso, medidas exóticas como a proibição das rinhas de galo e do biquíni, davam à Jânio a fama de, no mínimo, excêntrico.
Sem apoio no Congresso, perdido quando a UDN percebeu ser incapaz de controlálo, e perdendo, também, apoio popular, Jânio começou a vislumbrar uma saída "Gaullista", em referência ao golpe branco dado pelo General de Gaulle, pouco antes, na França. O estopim para a tentativa ocorreu quando Carlos Lacerda o criticou pela condecoração de Che Guevara, então ministro da defesa cubano, com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Segundo Lacerda, em denúncia pela televisão, após isso, ele teria sido procurado pelo Ministro da Justiça, que lhe apresentou o plano do golpe.
Sem apoios e acreditando que o Congresso Nacional não aceitaria sua renúncia, em 25 de agosto, antes portanto de completar oito meses no cargo, Jânio apresenta sua carta-renúncia, que foi aceita pelo Congresso, desapontando-o. Segue, então, para Portugal.
Além dos motivos políticos da perda de apoio, autores como Thomas Skidmore atentam também para traços da personalidade de Jânio, como a depressão e o uso excessivo de álcool. Sua saída irá gerar mais uma crise, com a recusa dos ministros militares em aceitar o vice-presidente, João Goulart, então em missão na China Comunista, como mandatário da Nação. Embora contornada com a solução de compromisso do parlamentarismo, essa crise é um dos antecedentes do golpe militar de 31 de março de 1964.