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Padrão de Resposta
Embora não se possa estabelecer uma relação imediata de causa e conseqüência entre os processos de industrialização e de urbanização no Brasil, ambos ocorreram paralelamente e de forma acentuada na história brasileira, após a Segunda Guerra Mundial. Até o primeiro governo de Getúlio Vargas, o Brasil era um país eminentemente agrícola e sua indústria nascente limitava-se a setores tradicionais e de baixa tecnologia, como a industria têxtil. Na decada de 1920, incentivada pelo Estado brasileiro, instalou-se em Minas Gerais a siderúrgica Belgo-Mineira, como forma de minorar a carência do País por indústrias de base. No projeto de modernização e desenvolvimento do Brasil encampado por Getúlio Vargas, a negociação com vistas à instalação de uma siderúrgica de grande porte era a pedra angular de sua política externa. Vargas obteve sucesso, com a implementação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda.
O Nordeste, naquele momento, já há muito não mostrava a pujanca dos tempos de colônia. Os problemas sociais, a decadência econômica e as fortes secas funcionavam como fatores de repulsão das populações, em busca de melhores oportunidades. No início do século XX, a borracha da Amazônia tinha sido importante vetor de atração. Em meados do século, era o Centro-Sul o novo destino dos migrantes.
A concentração das populações e das iniciativas de industrialização nas metrópoles explica-se, em grande medida, pelo fato de que a industrialização brasileira foi mediada e estimulada pelo Estado, numa articulação entre o capital industrial brasileiro e o estrangeiro. Esse modelo de relação entre Estado e indústria foi a mola propulsora do acelerado processo de industrialização que se daria no governo de Juscelino Kubitschek, e, posteriormente, encontraria novas expressões no período militar.
O final da década de 1960 assistiu à instalação, no Brasil, de um parque de indústrias em diversos setores, com especial destaque para a indústria automobilística. Essas se concentrariam espacialmente, sendo a região do ABC paulista a de maior expressão. A demanda de mão-de-obra do novo parque industrial do Sudeste atrairia grandes levas de migrantes, fazendo de São Paulo, ao longo dos anos, a maior metrópole da América do Sul, e uma das maiores do mundo. Enquanto isso, o Estado brasileiro, importante condutor dos processos em tela, planejava novas capitais, para estimular uma maior ocupação do interior do país. Assim, Brasília e Goiânia se tornaram novos pólos de atração populacional.
O regime militar buscou incentivar a ocupação de outros espacos, como a Amazônia. Projetos como o da Zona Franca de Manaus e o Projeto Grande Carajás foram exemplos dessa iniciativa. Novamente, o desenvolvimento e o aproveitamento territorial foram feitos em ilhas de ocupação econômica e demográfica. A razoável ausência de cidades médias no Brasil tem como causas, em grande medida, as iniciativas de crescimento regional não-autônomas (mediadas pelo poder central).
Culturalmente, a migração para as cidades teve impactos nos espacos rurais e urbanos. O campo brasileiro, caracterizado por grandes propriedades e pela atencão voltada a exportação, foi palco de conflitos resultantes da expulsão de populações camponesas. A tradicão de reivindicações dessas populações vem desde as Ligas Camponesas de Francisco Julião até o Movimento dos Sem-Terra de nossos dias. O campo passa por um processo denominado pelos geógrafos como de "desruralização". Seu aproveitamento e imagem seguirão, a partir daí, a lógica do urbano, com uma economia voltada para o mercado interno e externo, e não para as populações locais. Mesmo a música ou as festas populares serão reproduzidas na lógica da exploração capitalista: hotéis-fazenda, turismo nas festas populares e folgedos, músicas regionais e outros serão transformados em produtos a serem consumidos pela população agora predominantemente urbana do País.
O campo, antes visto como sinônimo de ambiente simplório e atrasado, passa a ser visto como elemento integrado da política, da economia e da cultura nacional, teatro de um agronegócio rentável e moderno. Nas cidades, por outro lado, as populações migrantes ainda sofrem com problemas de desemprego e com habitações precárias. Suas expressões culturais ainda subsistem, por exemplo, nas feiras de artesanato urbanas e em uma certa religiosidade mais popular.
As tendências atuais apontam para uma maior desconcentração industrial e populacional. Lentamente, as cidades médias – especialmente aquelas atreladas a alguma atividade economia relevante – ganham mais força. As migrações tradicionais brasileiras em direção ao Sudeste já tiveram seus fluxos reduzidos há mais de uma década. Em parte, isso se deu pelo estímulo, por parte dos governos estaduais, para a instalação de indústrias em suas regiões. Além disso, o governo federal estimula iniciativas localizadas de desenvolvimento desatreladas das metrópoles – como o pólo frutífero de Petrolina/Juazeiro.
De toda forma, ainda é marcante a presença do Estado nos processos de industrialização (ainda que não como seu agente direto). A expectativa é a de que, paulatinamente, as desigualdades regionais sejam reduzidas, e de que a pressão demográfica sobre as metrópoles arrefeça.