Disserte acerca do processo de envolvimento do Brasil na Primeira Guerra Mundial, com ênfase nas razões que, em 1917, levaram o país a rever a posição de neutralidade que mantivera até então.
Padrão de Resposta
A política externa desenvolvida pela República Velha costuma ser identificada, por certos setores da historiografia mais tradicional, como largamente tributária do paradigma americanista. De acordo com essa visão, engendrada em obras como O nacionalismo na atualidade brasileira, de Hélio Jaguaribe, e Interesse nacional e política externa, de José Honório Rodrigues, os formuladores brasileiros de política externa, após o marcante período da chancelaria Rio Branco (1902-1912), teriam promovido certo “alinhamento automático”, certa subordinação à atuação externa dos Estados Unidos da América. Esse entendimento, formulado em período da história recente brasileira no qual se propugnava por política externa mais independente e autônoma, tem sido revisto por moderna historiografia. Essa corrente busca relativizar a importância daquele alinhamento, do “marchar ao compasso de Washington”, identificando momentos em que teria prevalecido maior realismo e mesmo afastamento das posições estadunidenses.
De fato, conquanto seja inegável que a proclamação da República tenha tido o efeito de promover efetiva “republicanização” da diplomacia brasileira, traduzida em deslocamento de seu eixo principal de consubstanciação, da Europa para o continente americano, tal mudança de paradigma não se teria traduzido em conformação acrítica às posições americanas. O debate em torno da adesão ao pan-americanismo e à Doutrina Monroe opunha intelectuais da época, como Joaquim Nabuco e Oliveira Lima. Cumpre destacar, ainda, que o Barão do Rio Branco, verdadeiro “realista formado na escola do poder” (Rubens Ricúpero), propôs que o reconhecimento dos Estados Unidos como potência de relevância crescente na América não estorvasse o desenvolvimento de relações competitivas entre os países (no que ficou conhecido como a “nobre emulação”).
A partir de 1912, entretanto, pode-se afirmar que a comunidade de política externa brasileira deparou-se com o dilema de como dar continuidade ao legado de Rio Branco. Havia, com efeito, verdadeira dicotomia entre as pressões por engajamento mais assertivo no tabuleiro geopolítico internacional e a postura pan-americanista, que defendia a primazia do espaço hemisférico na atuação externa brasileira – com o conseqüente afastamento dos cálculos de poder das nações européias. Representativo dessa tensão dialética foi o episódio da entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial.
A Grande Guerra, conhecida como “guerra interimperialista”, desenvolveu-se entre 1914 e 1919 e abarcou o intrincado sistema de alianças e acordos secretos firmados pelas chancelarias européias do período. A princípio, a posição do chanceler Lauro Müller foi a de manter a neutralidade brasileira no conflito, tendo em vista que este era associado ao exercício de políticas de poder praticadas na Europa, não possuindo relação com a política externa pacífica desenvolvida pelas repúblicas americanas. Contou para a neutralidade brasileira, ademais, a tese da “solidariedade continental”, já que os EUA também não se tinham engajado no conflito, no primeiro momento.
Essa posição foi-se tornando insustentável a partir das pressões exercidas por setores organizados da sociedade, como a Liga promovida por Rui Barbosa em defesa da participação brasileira no conflito; ademais, pesavam sobre o chanceler acusações de “germanofilia”. O torpedeamento de navios brasileiros por embarcações militares alemães fez surgir, progressivamente, indignações generalizadas por parte da opinião pública. O episódio do afundamento do navio brasileiro “Macau”, aliado à prisão de seu comandante, foi o pináculo desse vetor.
Outras considerações de natureza política e econômica contaram para a decisão brasileira de participar efetivamente dos esforços de guerra na Europa: as nações aliadas, em especial a França e a Grã-Bretanha, desejavam a quebra da neutralidade brasileira, uma vez que isso contribuiria para a interrupção de fluxos financeiros em direção à Alemanha; o policiamento dos mares pelas forças navais aliadas causava importantes prejuízos às relações comerciais brasileiras; os governos britânico e norte-americano ameaçavam limitar as importações de café brasileiro, caso o país mantivesse a neutralidade. Entendeu-se ser necessária a decretação do estado de beligerância, com quebra da neutralidade – em respeito às tradições de sua política externa, o Brasil nunca declarou guerra a outras nações – para o fim de apresamento de navios mercantes alemães que se encontravam surtos em portos brasileiros. Por fim, concluiu-se que a participação brasileira no conflito seria essencial para sua presença nas negociações do pós-guerra. A decisão foi finalmente tomada em 1917, sob a chancelaria Nilo Peçanha.
A participação do Brasil na Grande Guerra (por meio da expedição de militares-aviadores, da construção do Hospital do Brasil em Paris e do envio da Divisão Naval de Operações em Guerra, a DNOG), associada ao seu engajamento na Conferência de Paz de Paris, por meio de delegação capitaneada por Epitácio Pessoa, e da qual faziam parte Pandiá Calógeras, Raul Fernandes e Olyntho de Magalhães, foi decisiva para o seu ‘debut’ na política internacional multilateral do período compreendido entre os anos de L917 (entrada brasileira na guerra) e 1926 (saída da Liga das Nações). De acordo com Eugênio Vargas Garcia, esse interregno na política pan-americanista serve para desconstruir a concepção de que a política externa da República Velha seria marcada por “estilo em busca de um assunto”. As tensões entre a priorização do tabuleiro multilateral, pelo Brasil, em relação às considerações de ordem geopolítica, pelas potências européias, quando das negociações para a entrada da Alemanha como membro permanente da SDN, levariam, em 1926, à saída do Brasil do órgão, segundo a estratégia do “vencer ou não perder” de Artur Bernardes.