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Durante os anos de 1862 a 1868, esteve no poder, no Brasil, a chamada “Liga Progressista”, considerada liberal. Os muitos gabinetes formados pela Liga refletem os problemas intestinos a ela e sua tentativa de legitimar-se no poder. No período, a política brasileira intervencionista na região do Prata continuou, como ocorria desde 1848, quando o gabinete conservador de então implantou o que Amado Luiz Cervo chama de “grande política americanista”, após anos de imobilismo. Como forma de angariar apoio interno, o Império, sob governo do gabinete da Liga, perpetrou a invasão do Uruguai, o rompimento de relações diplomáticas com a Inglaterra e a Guerra do Paraguai.
A Liga Progressista, formada por liberais e conservadores moderados, ascendeu ao gabinete em 1862. Liderada por Zacarias de Góes e Nabuco de Araújo, a Liga era uma tentativa de segregar os liberais e conservadores mais radicais, mantendo uma forma de conciliação. Os problemas enfrentados pela Liga, no entanto, ensejaram inúmeras mudanças de gabinete e certa instabilidade. Como forma de conseguir apoio interno, a Liga valeu-se da política externa intervencionista no Prata, aos moldes da que foi perpetrada durante os anos de gabinete daqueles que Ilmar Mattos chama de “trindade saquarema”, os conservadores radicais, entre 1848 e 1852. A tentativa de parecer mais assertivo em suas ações fez, ainda, com que o gabinete rompesse as relações brasileiras com a Inglaterra, com a Questão Christie.
Em 1864, os blancos uruguaios estavam no poder naquele país, antes com Berro e depois com Aguirre. Aliado dos colorados, os oposicionistas de então, o Império ressentia-se do aumento de impostos para o gado gaúcho na região e da renitência dos blancos em estender a vigência dos tratados assinados com o Brasil em 1851, amplamente favoráveis ao Império. Sob pretexto de proteger interesses de brasileiros naquele país, o Império invade o Uruguai, derrubando os blancos. Tentava-se, ademais, com isso, conseguir apoio dos gaúchos ao gabinete de então. Antes, a Questão Christie, ensejada pela prepotência do representante inglês no Rio de Janeiro após o naufrágio de um navio inglês e a prisão de dois marinheiros daquele país, fez com que o Império expulsasse o representante inglês e rompesse relações com a Inglaterra, em tentativa de parecer mais firme em suas posições.
Com a invasão do Uruguai, o ditador do Paraguai, Solano López, imagina que seu país poderia ser o próximo alvo da política intervencionista nacional. Ao invadir o Mato Grosso e o Rio Grande do Sul, passando, sem permissão, por território argentino, López faz com que Brasil, Argentina e Uruguai formem a Tríplice Aliança em oposição ao Paraguai, como em uma profecia auto-realizável. A Guerra do Paraguai, que se inicia então, pode ser considerada mais um exemplo de intervencionismo imperial, embora a historiografia recente, de Francisco Doratioto a Ricardo Salles, dê relevo ao processo de formação dos Estados nacionais na região, não ao intervencionismo estrito e sem justificativa.
A Guerra do Paraguai é o mote para o fim da Liga Progressista e da volta dos conservadores ao poder, em 1868, terminando o período de sucessão de gabinetes. Economicamente, a guerra devastou as finanças nacionais, retirando parte do poder de ação do gabinete. Militarmente, o país sofria reveses significativos, como a incapacidade de tomar Humaitá, que faziam com que novo comandante para as tropas devesse ser designado, especialmente após o abandono do comando das tropas por Mitre, presidente argentino que, então, se via com problemas internos em seu país. A escolha, para o comando, do Duque de Caxias, conservador, faz com que seja inevitável um gabinete conservador, mesmo porque o gabinete da Liga perdia seu apoio interno. A queda do gabinete de Zacarias de Góes ocorreu, portanto, em 1868, quando Caxias assumiu o comando das tropas da Tríplice Aliança na guerra, vencida, posteriormente, pela própria Aliança.
Enfatiza-se, pois, a importância da política interna para a execução da política externa do país. Entre 1862 e 1868, o fator interno foi determinante, em especial para a política imperial na região do Prata. Não se separa, de maneira estrita, a conjuntura interna do país de sua atuação internacional, ambas inter-relacionando-se. O exemplo do período 1862-1868 é marcante dessa característica. Após 1868, já sob gabinete conservador, o Império continuaria a guerra e a ocupação do Paraguai, encerrando, na década de 1870, sua “grande política americanista”. A política interna e a política externa, no entanto, continuariam a se influenciar mutuamente.